Dólar cai forte e fecha no menor nível desde julho; confira 5 razões para a queda da moeda
A moeda americana terminou novembro em queda firme e iniciou dezembro da mesma forma, tombando 2%. O que explica esse movimento? O Seu Dinheiro explica

O dólar terminou novembro em uma queda firme, seguindo o grande fluxo direcionado para ativos de risco (vide o desempenho do Ibovespa) e para moedas emergentes. E a moeda iniciou o mês de dezembro exatamente da mesma forma, marcando um tombo de 2,2%, cotado a R$ 5,2278.
Claro que, no quadro geral, é sempre bom lembrar que a moeda ainda registra ganhos extremamente altos em 2020 frente ao real brasileiro.
No período, ela avançou nada menos do que 30,5% e renovou máximas históricas, apontando uma depreciação do real por conta de um cenário de pânico gerado pela pandemia, para além do agravamento da questão fiscal e da já combalida economia brasileira.
Mas também é inegável que o ambiente externo se alterou sensivelmente nas últimas semanas e fez os investidores se reorientarem, optando pela rotação setorial — o que eles estão fazendo na bolsa nos últimos tempos — e pela opção por outras divisas.
Só em novembro, o dólar recuou aproximadamente 7%. Hoje, a divisa foi aos menores níveis desde 31 de julho, quando fechou cotada a R$ 5,2170.
O que explica esse movimento de alívio no câmbio? A tendência é de queda? Não tem mais crise? Confira abaixo algumas razões que explicam a queda do dólar.
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1 - A vacina, ao que parece, está vindo aí
É o que parece, caro leitor, é o que parece. A cada dia que passa, surgem novas notícias que dão conta de avanços no desenvolvimento de um imunizante contra a covid-19.
A mais recente delas é de hoje e mostrou que Pfizer e BioNTech solicitaram a autorização do uso emergencial de sua vacina à União Europeia (UE).
A UE também já havia recebido solicitação da Moderna para autorização emergencial. A agência do bloco europeu responsável por dar aval a medicamentos informou que poderá aprovar os pedidos de ambas as farmacêuticas para liberar o uso das vacinas entre dezembro e janeiro.
No geral, o último mês dos mercados pode ser definido pelas novas encorajadoras provenientes do "departamento de vacinas contra a covid-19".
Nesse período, imunizantes desenvolvidos pela Pfizer e pela Moderna apontaram eficácia superior a 90% e sugerem que foi possível encontrar uma solução de proteção contra o vírus.
Isso, claro, não quer dizer que a pandemia acabou. Pois, como sabemos, ela claramente não acabou, como indicam lockdowns na Europa, medidas de isolamento social nos Estados Unidos e regressão à fase amarela do Estado de São Paulo no plano de reabertura da economia.
Significa, de outro lado, que os investidores estão cada vez mais diminuindo o tamanho do risco coronavírus nas suas projeções, o que os faz abrirem mão de dólar e tomarem mais risco, como é o caso de ativos negociados em bolsas de valores.
2 - O fator Joe e a fraqueza global do dólar
O fim da eleição presidencial americana por si só poderia ser indicado como um driver para a queda do dólar. Afinal, significa um risco a menos com que os investidores têm de se preocupar — e, no começo de 2020, era um fator a se olhar com cuidado.
O coronavírus, claro, disrompeu a ordem das coisas e desviou a atenção para outros aspectos em cena.
Mas a vitória de Joe Biden é especificamente um adicional de fraqueza global da moeda americana. O democrata é visto como um multilateralista que deve renunciar a tarifações como era o caso de Donald Trump. Nesse sentido, o risco de recrudescimento da guerra comercial contra a China fica mitigado. E este tem sido, lembremos bem, um fator de sustentação da força do dólar nos últimos anos.
Para além disso, Biden representa, possivelmente, mais estímulos fiscais, algo de que os mercados estão precisando e a economia também, segundo o Federal Reserve (Fed, o banco central americano).
A indicação de Janet Yellen, ex-presidente do Fed que promoveu um ciclo de alívio monetário nas taxas básicas de juros do país, para a secretaria do Tesouro também tem embalado os movimentos positivos dos mercados que esperam por mais liquidez disponível na praça. A perspectiva de mais dólares inundando disponíveis na economia reforça a visão de fraqueza da divisa americana.
A possibilidade de que um acordo por um pacote de estímulos fiscais enfim saia na maior economia do mundo voltou ao radar hoje: um grupo de senadores democratas e republicanos propuseram um plano de US$ 910 bilhões, a fim de encerrar o impasse existente na política americana que trava o andamento do socorro econômico.
O comportamento de hoje do Dollar Index (DXY), índice que compara o dólar a uma cesta de moedas como euro, libra e iene, ilustra o enfraquecimento da moeda em âmbito global. O DXY chegou, hoje, às suas mínimas desde abril de 2018, demonstrando a extensão do movimento.
3 - Commodities em retomada
O Brasil, você já deve ter ouvido falar, é uma economia baseada em commodities. O termo designa produtos agrícolas e minerais comercializados lá fora — como soja, petróleo, minério de ferro e celulose. Nossas principais exportações vem desses produtos básicos.
Neste caso, é possível dizer que o dólar vai se apreciar contra o real quando os preços de commodities caírem — e o inverso também é verdadeiro.
Nesses últimos tempos, o mercado internacional tem observado uma alta de petróleo e minério de ferro, produtos que guiam e muito o desempenho de duas blue chips das pesadas na composição do Ibovespa, Petrobras e Vale.
Esse movimento de alta se deve às perspectivas de vacinas contra o coronavírus, que põem em perspectiva a volta da economia à normalidade (o mundo pré-covid), em que as pessoas têm liberdade de circulação — e, neste caso, afetam o petróleo, combustível fóssil de que derivam gasolina e diesel, por exemplo.
Só em novembro, em meio à melhora da demanda com a expectativa da vacina, o preço do petróleo tipo Brent avançou 30% em Londres.
Nesse cenário, também se viu uma alta procura pelo minério de ferro. E isto se deve à demanda da indústria chinesa pelo aço, o que aprecia o minério negociado no porto chinês de Qingdao, que oferece a cotação de referência para o mercado.
Ontem, o minério de ferro negociado por lá aumentou os ganhos e fechou em alta de 1,55%, cotado a US$ 131,63 a tonelada, no maior nível em 7 anos. Este embalo das commodities sem dúvida tem feito peso sobre o dólar e ajudado na queda da moeda.
4 - Os gringos voltaram
Outro fator importante para entender o movimento de queda do dólar frente ao real hoje é a quantidade de influxos estrangeiros na bolsa brasileira.
Os gringos ficaram longe dos ativos locais por algum tempo e, em novembro voltaram com tudo. Não é coincidência que esse movimento suceda ou venha na esteira das eleições americanas e as perspectivas cada vez mais promissoras de vacinas.
Provavelmente o que temos diante dos olhos é um caso de mitigação de riscos político e sanitário — e esses agentes financeiros aproveitam para realocar, não somente em outros setores, mas também em outros países.
Só no mês passado, eles ingressaram com mais de R$ 30 bilhões em recursos, chamando atenção para o apetite desses investidores.
"A gente continua se beneficiando de um fluxo estrangeiro no mercado, e a ausência de um noticiário negativo também ajuda em um cenário exterior favorável", diz Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimentos.
5 - Cenário fiscal ainda preocupa, mas sinais políticos reduzem risco
O Brasil tem uma questão grande a responder aos investidores: como irá controlar o crescimento da relação dívida pública/PIB ao longo do próximo e dos outros anos?
Esta pergunta está posta não é de hoje. Os gastos emergenciais com a pandemia, no entanto, agravaram a necessidade de que ela seja respondida.
Em setembro, indicações de que o governo iria utilizar o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) e os precatórios para financiar o seu programa social de renda básica pesaram de forma severa no humor dos investidores, estressando o dólar e puxando as taxas futuras de juros, fazendo a curva se inclinar ainda mais.
Desde então, o governo recuou da proposta, mas ainda não ofereceu pistas sobre o futuro do programa. Nesse contexto, o cenário para o auxílio emergencial ganhou importância, já que corresponde à ajuda econômica dada pelo governo a informais e microempreendedores individuais para suavizar os efeitos da covid-19 na renda da população.
O ministro da Economia Paulo Guedes até afirmou que, no caso de uma 2ª onda do coronavírus, o auxílio é uma certeza. O mercado também não gostou nada disso, e o ministro eventualmente também se retraiu do que disse.
Hoje, o presidente Jair Bolsonaro sinalizou que o auxílio emergencial não deverá ser estendido até o ano que vem. "Querem perpetuar benefícios. Ninguém vive dessa forma, é caminho para insucesso", disse o presidente, em visita às obras da Ponte da Integração Brasil-Paraguai.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, trouxe outra novidade para o radar que ajudou o dólar a cair. Ele marcou a votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias para dentro de 15 dias. A indicação importante pois indica que, se de fato ocorrer, o governo não ficará sem poder gastar a partir de 1º de janeiro.
Além disso, Alcolumbre inclui à pauta da sessão apreciar 22 vetos de Bolsonaro — como, por exemplo, ao marco do saneamento básico e a regras dos programas emergenciais criados em meio à pandemia.
Olhando à frente
É bem claro que a crise não acabou, caro leitor. A pandemia está aí, as dificuldades fiscais do Brasil, também, e a economia passou por um baque e não se sabe como será a sua retomada.
Como já ouvi de operadores de câmbio, o dólar abaixo de R$ 5,50 pode ser uma farsa. Afinal, os problemas brasileiros não são poucos, mesmo.
De outro lado, a tendência no curto prazo é positiva.
Os sinais políticos no âmbito local podem dar o mercado uma puxada a mais e descomprimir um pouco do prêmio de risco que os agentes financeiros precificam nos ativos em ambientes de extrema incerteza. Sem dúvida, o Brasil oferece dúvidas a granel.
Nessa mesma linha, a perspectiva de uma vacina mais próxima e de um pacote de estímulos fiscais nos Estados Unidos no radar também contribuem para a fraqueza global do dólar.
Isto porque, de um lado, diminui-se o risco sanitário cada vez mais, ainda que não haja clareza sobre os planos de vacinações, e, de outro, se se distribui mais dólares na praça, a oferta da moeda se amplia e o seu preço se reduz.
"Acho possível um câmbio abaixo de R$ 5,30 no fim do ano, dados os sinais positivos de curto prazo", diz Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados.
"Sem dúvida o dólar teve evolução favorável para emergentes em novembro, mas temos muitos problemas fiscais e incerteza", diz Eduardo Velho, sócio-economista-chefe da JF Trust Investimentos. "É difícil dizer se vai continuar abaixo disso."
Ou seja, leitor, apesar dessa queda recente, não se esqueça: as coisas no mercado mudam rápido demais. E, no caso do Brasil, podem mudar até mais depressa.
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