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Matheus Spiess
Insights Assimétricos
Matheus Spiess
É economista e editor da Empiricus
2020-07-21T08:31:14-03:00
Insights Assimétricos

The man in the high castle e o enfraquecimento global do dólar

E se fôssemos acometidos por uma diferente realidade no mundo dos investimentos?

21 de julho de 2020
7:10 - atualizado às 8:31
the man
Imagem: Divulgação

E se o Eixo tivesse ganhado a segunda guerra mundial?

Você consegue imaginar como a sociedade seria hoje? Às vezes, fatos pontuais norteiam grotesca e enormemente toda a história da humanidade. Como a já clichê provocação: “e se Hitler tivesse nascido mulher, como teria sido o século XX?”; afinal, era 50% de chance, não?

Curiosamente, muitas vezes podemos recorrer ao brilhantismo de outrem para quando necessitarmos imaginar processos históricos do avesso, narrados em uma perspectiva de romance.

É com isso que nos deparamos ao ler o clássico do escritor norte-americano Philip K. Dick, “The Man in the High Castle” (ou "O Homem do Castelo Alto” em tradução para o português), de 1962. Na obra, Dick nos apresenta uma das primeiras e mais famosas distopias, para ser colocada lado a lado com grandes clássicos de Huxley e Orwell.

Em linhas gerais, a história conta a realidade alternativa do mesmo ano em que a obra fora lançada, 1962, quando supostamente o Eixo já teria derrotado os Aliados na Segunda Guerra Mundial, ficando os Estados Unidos às mãos dos nazistas e dos japoneses. Como consequência, o mundo então teria servido de palco para a preservação das práticas brutais nazistas de eugenia.

Durante a obra, nos é introduzido também o conceito de “história dentro da história”, quando um livro proibido pelos nazistas, chamado "The Grasshopper Lies Heavy" (O Gafanhoto está pesado) e escrito pelo anônimo “homem no castelo alto” (nome que batiza o livro de Dick), nos conta a história de uma outra realidade díspar em que os aliados teriam ganho a guerra; no caso, o nosso mundo real de hoje. A trama gira em torno de muitos personagens que têm contato com essa história, os quais acabam apaixonados pela nossa realidade mundana.

Para os amantes de seriados, menos apegados ao hábito da leitura, existe também uma série original do Amazon Prime baseada no livro de Dick, em que “The Grasshopper lies Heavy” é, na verdade, um filme documentário antifascista. Por mais que eu tenha gostado da adaptação televisiva, ainda prefiro a leitura do clássico americano em páginas de papel.

De qualquer modo, trouxe essa pequena digressão justamente para provocar o leitor da seguinte maneira: e se, assim como em “O Homem do Castelo Alto”, também fôssemos acometidos por uma diferente realidade no mundo dos investimentos. Trato aqui, mais precisamente, do comportamento recente da moeda americana perante outras moedas fortes, como o Euro, a Libra Esterlina, o Iene e o Franco Suíço.

Note que seria algo alternativo. Isso porque não creio que existam vastos fundamentos para uma desvalorização do dólar versus o real. Por sinal, o real se trata de uma moeda notoriamente mais frágil e sensível que a divisa americana. Ofereço, na verdade, um espectro além do usual em termos de abordagem na alocação de recursos, que servirá para instigar continuidade da sofisticação proposta neste espaço.

Logo, existiria a realidade de fraqueza do real contra o dólar e, paralelamente, a realidade do enfraquecimento do dólar versus outras moedas fortes. Isso se deve, em grande medida, à injeção desenfreada de liquidez proporcionada pelas autoridades monetárias. Naturalmente, uma expansão grosseira da base monetária, como a que vimos recentemente com o intuito de combater o estresse de mercado propagado pela crise do novo coronavírus, teria reflexos inflacionários ainda muito difíceis de serem antecipados.

Hoje, no mundo, há forças estruturais deflacionárias (tecnologia e demografia) e vetores conjunturais potencialmente inflacionários (quantitative easing, ou afrouxamento monetário). Com efeito, ambas a forças são refletidas nos preços internacionais, notadamente no dólar, que costuma auferir para o mundo consequências positivas e negativas derivadas dos ciclos de sua própria força e fraqueza.

Diante da enorme quantia de dinheiro injetada nos mercados e na contínua dificuldade dos EUA em enfrentar a Covid-19, abre-se espaço para uma desvalorização mais acentuada do dólar. Enquanto isso, a Europa e o Japão, depois de isolamentos mais restritivos, mostram maior controle do problema. Enquanto os EUA podem conviver com algum retrocesso em suas medidas de relaxamento das quarentenas, demais países desenvolvidos parecem mais avançados no trato da pandemia.

Novos casos diários de coronavírus nos EUA versus DXY

Claro que isso não tira o destaque para a economia americana. As techs estadunidenses como as queridinhas do processo atual e as eleições menos polarizadas neste ano são fatores positivos que sustentariam uma vantagem competitiva do dólar versus moedas emergentes, como o real. Por isso, uma posição em dólar versus o real deve ser estruturalmente mantida, mesmo que hoje reduzida.

Ao mesmo tempo, não parece ser mais suficiente manter posições exclusivamente em dólares versus reais quando tratamos de um book de moedas sofisticado, mesmo para investidores de varejo. O Dollar Index (DXY), índice que mede o desempenho do dólar contra as principais moedas globais (gráfico acima), que só fazia subir nos últimos anos, tem mostrado sinais consistentes de fraqueza desde abril e maio, com acentuação do processo em junho. A Capital Economics segue apontando para continuidade do movimento de apreciação de outras moedas no segundo semestre:

Desempenho versus o USD para o 2S20, projeção CE

Sources: Refinitiv, CE

Nesse sentido, vale a pena para o investidor, que se projete como um agente sofisticado, manter posições em outras moedas fortes como forma de proteção, como o Euro, a Libra Esterlina, o Iene e o Franco Suíço. Acredito que uma posição antes de 5% em dólar puro, por exemplo, possa ser quebrada no meio para que possamos distribuir 2,5% em quatro ETFs no exterior para capturar tal movimento. Assim, atendemos as duas realidades.

Tudo isso, claro, feito sob o devido dimensionamento das posições, conforme seu perfil de risco, e a devida diversificação de carteira, com as respectivas proteções associadas.

Em um relatório recente da série Palavra do Estrategista, da Empiricus, há orientações sobre como comprar um combo de moedas fortes (euro, franco suíço, libra esterlina e iene) a partir de R$ 1 mil. Além desta indicação, você também terá acesso à lista de 18 ações consideradas Oportunidades de Uma Vida.

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