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Qual foi o legado de Trump e qual dos dois candidatos – Trump ou Biden – mais beneficia emergentes como o Brasil?
Voltamos hoje a um mesmo tema já tratado algumas vezes neste espaço.
Uma eleição presidencial americana já seria importante o suficiente para atrair olhares dos mais diversos tipos de pessoas. Agora, a diferença entre os dois candidatos, as perspectivas para os próximos quatro anos e algumas diferenças gritantes entre os dois nomes apresentados, proporcionam um efeito mais profundo na decisão de hoje.
Marcadas para hoje, dia 3 de novembro, as eleições americanas já estão acontecendo há algum tempo. Isso deriva principalmente de dois motivos: 1) por conta da pandemia do novo coronavírus, o número de eleitores que optaram por votar antes do dia da eleição (uma possibilidade nos EUA) está mais alto do que nunca antes na história (mais de 95 milhões de americanos já votaram, ou quase 70% do total dos eleitores de 2016); e 2) por conta do modelo de vote by mail, nunca usado com tamanha amplitude (mais de 60 milhões de votos já foram enviados por correio).
Tradicionalmente, o resultado é divulgado na madrugada posterior ao dia oficial de votação, mas justamente por conta de uma campanha tão diferente das demais, a apuração do resultado pode demorar mais do que o previsto. Nesse sentido, é possível que só saibamos quem será o novo presidente dos EUA ao longo do dia 4 ou, em um cenário mais pessimista, porém possível, nos dias subsequentes à votação oficial.
Independentemente da maneira predominante do tipo de votação ou da demora potencial na apuração dos votos, entendo que valha a pena que, agora aos 45 do segundo tempo, revisemos brevemente os últimos quatro anos do governo Trump, suas conquistas e seus legados. Além disso, avaliaremos como uma troca de poder na Casa Branca ou uma manutenção do mesmo poderia afetar os mercados.
Até o final de 2019, pouco havia de negativo que pudesse ser apontado em relação a Trump sobre a economia. Critique como quiser, mas era quase que consenso em dezembro do ano passado que o presidente republicano não teria dificuldades em manter-se no posto após um resultado econômico tão primoroso: 1) mínima histórica da taxa de desemprego em mais de 50 anos; 2) aumento da renda real para boa parte da população; 3) elevação da renda disponível para consumo por conta de redução de impostos; 4) crescimento consistente ao longo dos anos; e 5) Bolsa subindo bastante (apesar dos ruídos).
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Historicamente, presidentes que comandaram o país sob bonança econômica encontraram pouca dificuldade para se manter no poder. Era o caso aqui… até a crise do coronavírus.
O impacto do lockdown recaiu fortemente sobre a maior carta de Trump, principalmente porque o republicano é visto como um mau gestor da crise sanitária. A postura negacionista é considerada culpada por um resultado humanitário e econômico pior do que poderia ter efetivamente sido.
Mudamos o paradigma na política. A década de 2020 será caracterizada por um governo maior (mais pesado), teoria monetária moderna e mais desigualdades. A tendência deflacionária global (demografia, tecnologia e globalização) geram juros negativos e, consequentemente, políticas monetárias menos eficientes.
Por isso, o novo presidente presidirá um país sob uma conjuntura nunca antes vista. A conta Covid chegará para o mundo inteiro e teremos que tomar uma decisão sobre como endereçá-la.
Trump representa uma continuidade dos últimos quatro anos.
O presidente tentará reviver o que foi sucesso no início de seu mandato e recuperar o que havia de bom na economia americana entre 2017 e 2019. Biden, por outro lado, tem um plano econômico calcado, entre outras coisas, no regresso das taxas que haviam sido reduzidas (mais crível do ponto de vista fiscal) e em uma preocupação mais acentuada com a desigualdade (renda real).
Hoje, não existe um predileto do mercado nesse sentido, por mais que agendas mercadológicas (Trump) sejam mais bem recebidas.
Aqui houve um grande impacto derivado do governo Trump.
As tentativas de impactar as economias globais por meio de revisões comerciais podem ter soado bem, mas geraram muito mais ruído do que sinal, desestabilizando o mecanismo de segurança mundial sustentado pelo poderio americano.
Trump representa uma continuidade das pressões internacionais ao redor do mundo, com ruídos proveniente de seu Twitter e de um enfraquecimento médio do comércio global - evidentemente, um enfraquecimento do comércio em uma economia que busca retomar sua pujança é péssimo.
Biden, por outro lado, ressuscita a visão multilateralista do mundo, potencialmente entendendo a ascensão da China como principal potência econômica do mundo como inevitável.
Essa dinâmica é bem marcada como positiva para países emergentes, com destaque para o Brasil - maior fluxo de comércio é positivo para commodities e para outras moedas que não o dólar (tese de enfraquecimento do dólar).
Assim, o reposicionamento dos EUA como líder político e militar, sem gerar ruído comercial com o mundo, pode ser entendida como mais favorável a depender da composição do Congresso.
Podemos separar de maneira bastante clara Trump como sendo o veículo para surfar continuamente combustíveis fósseis e gás natural, enquanto Biden buscará criar uma nova indústria verde nos EUA, com foco em energia sustentável.
Sem favoritismo neste âmbito, apenas dois focos de investimento diferentes - um é a indústria tradicional e o outro é a indústria nascente.
Um dos fatores mais impactantes da presidência de Trump é pouco comentado.
Existe um claro movimento conservador se formando na Justiça americana, com Trump sendo um dos presidentes que mais movimentou as cortes do país em um primeiro mandato, inclusive na Suprema Corte (hoje majoritariamente conservadora). Essas mudanças são estruturais e difíceis de serem revertidas.
Mais quatro anos de Trump poderiam sinalizar um aprofundamento ainda maior desse movimento, sem que uma presidência de Biden pudesse fazer muita coisa sobre a corte já estabelecida - principalmente a depender da formação do Congresso.
Agora, por mais que isso seja importante, faz diferença para o mercado? Nenhuma.
Se trata talvez da maior conquista dos republicanos com a presidência de Trump. As novas cortes conservadoras terão sua soberania prevalecida pelas próximas décadas nos EUA.
Um movimento estrutural e com impactos sociais não precificados hoje.
No final do dia, o mercado está bem preparado para os dois desfechos, democrata ou republicano.
Tirar um presidente em seu primeiro mandato é uma tarefa difícil, mas a pandemia parece ter dado uma abertura para que Biden tente sua sorte.
O problema residiria em dois cenários.
No primeiro deles, teríamos um Congresso dividido, resultado que dificultaria a aprovação de pacotes de estímulos, por exemplo, super necessários para que os EUA solucionem a crise atual.
No segundo, existe a possibilidade de contestação de eleições.
Assim, além de termos um possível resultado tardio, ainda enfrentaremos uma judicialização de uma decisão (vale lembrar que as cortes tendem ao Trump, por mais que haja um prevalecimento das instituições americanas).
A falta de resultado fará com que o mercado fique nervoso.
Agora, vale dizer que, para mercado emergentes, as probabilidades de um desfecho mais favorável residem com Biden e seu multilateralismo - money talks, bullshit walks. Nesse caso, o Brasil acaba sendo um mercado premium, uma vez que ficou muito para trás em dólares e existe espaço para catch-up.
Tudo isso, claro, feito sob o devido dimensionamento das posições, conforme seu perfil de risco, e a devida diversificação de carteira, com as respectivas proteções associadas.
Na série Palavra do Estrategista, best-seller da Empiricus, estamos preparando uma edição especial para amanhã em que trataremos dos melhores para os diferentes cenários.
Além disso, o assinante contará com o conteúdo assinado pelo Estrategista-Chefe da casa, Felipe Miranda. Com certeza, quem quiser se aproveitar de dinâmicas estruturais para os próximos quatro anos, vale dar uma conferida.
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