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Felipe Saturnino

Felipe Saturnino

Graduado em Jornalismo pela USP, passou pelas redações de Bloomberg e Estadão.

volatilidade é o nome dela

Caminho tortuoso: De olho em cenário fiscal, Ibovespa se descola e fecha em leve queda; dólar vai a R$ 5,62

Volatilidade dá o tom: Ibovespa começa dia seguindo bom humor externo, mas temor persistente sobre contas públicas faz índice se descolar de bolsas americanas. Dólar avança 0,5%

Felipe Saturnino
Felipe Saturnino
7 de outubro de 2020
18:25 - atualizado às 18:49
Volatilidade
Imagem: Shutterstock

Foi um dia de idas e vindas nos mercados locais. Sensíveis às notícias de Brasília a respeito do cenário fiscal, os investidores variaram de tom durante todo o pregão, trazendo alta volatilidade aos negócios e fazendo o Ibovespa se descolar do cenário exterior positivo. O dólar aproveitou e subiu diante das dúvidas sobre as contas públicas, chegando aos R$ 5,62.

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Mas vamos começar pelo começo, e não pelo fim, do caminho tortuoso, tal o de uma montanha russa, que foi a sessão de hoje.

Ainda pela manhã, o principal índice acionário da B3 seguia o bom humor lá de fora, guiado pela perspectiva de injeção de recursos na maior economia do mundo, os Estados Unidos.

Um dia após derrubar as bolsas ao redor do mundo ao suspender as conversas com os democratas por um pacote de medidas de estímulo no país, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse que tem a intenção de aprovar uma série de medidas individuais como uma ajuda aos danos causados pela covid, em vez de costurar um acordo amplo.

Divergindo do tom de ontem que gerou forte aversão ao risco, Trump disse no Twitter que assinaria "agora" uma lei que concedesse auxílio de US$ 1,2 mil a americanos que sofreram as consequências da covid.

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Em meio a um cenário favorável à liquidez nos mercados globais, a bolsa brasileira se aproveitava para surfar o otimismo.

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Soa o primeiro alarme

Até que uma notícia causou o primeiro gosto azedo do dia aos investidores: segundo a revista Veja, o governo estuda estender o auxílio emergencial até metade de 2021, caso encontre dificuldades para emplacar o novo programa social, o Renda Cidadã.

De acordo com reportagem da revista, a medida configuraria uma despesa extra de R$ 100,5 bilhões aos cofres públicos, elevando o alerta a respeito da piora das contas públicas, já agravadas em razão das medidas de auxílio emergencial em meio à pandemia.

A apreensão do dia nos mercados foi acalmada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, que desmentiu a informação e trouxe um alívio ao índice.

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O clima de melhora, no entanto, não pairou por muito tempo, com a persistência do temor a respeito da situação fiscal, e a bolsa passou a oscilar perto da estabilidade sem uma direção clara.

Alívio não dura

Após um período de indefinição, por volta das 14h30 com notícia de que a delicada situação fiscal brasileira ficará controlada mesmo com o lançamento do programa social do governo, o Renda Cidadã.

Segundo fontes ouvidas pela Broadcast, o governo assumiu, com o Renda Cidadã, o compromisso de manter a "besta" dos gastos públicos em uma situação responsável.

Esse fôlego, no entanto, também não durou muito. Depois das informações, é verdade que a bolsa voltou a atingir nova máxima, com alta de 0,8%, aos 96.379,57 pontos, mas o gás foi desaparecendo até cruzar a linha e parar no terreno negativo.

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Resultado: o Ibovespa fechou o dia em leve queda de 0,09%, aos 95.526,26 pontos, descolado das bolsas americanas, que exibiram altas de ao menos 1,7% hoje.

Para ter ideia da volatilidade do dia, se na máxima o Ibovespa chegou a subir 0,8%, na mínima, recuou 0,77%, para 94.880,65 pontos.

"Essa volatilidade reflete o ambiente de incerteza que vivemos e que se agravou com o Trump, eleições americanas, covid na Europa, e a situação fiscal", disse Vladimir Vale, estrategista-chefe do Crédit Agricole do Brasil.

"A tendência é que continue volátil, porque nenhuma dessas situações está resolvida", completa ele.

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Segundo Igor Cavaca, analista da Warren, a notícia de que o governo vai enquadrar o Renda Cidadã no teto de gastos foi positiva, mas algo concreto é necessário. "A afirmação de que a pasta econômica vai tentar trabalhar isso é interessante, mas o mercado está no aguardo de medidas efetivas."

Top 5

Confira as maiores altas do Ibovespa hoje:

CÓDIGOEMPRESAVALORVARIAÇÃO
GGBR4Gerdau PNR$ 22,403,23%
GOAU4Metalúrgica Gerdau PNR$ 10,033,19%
VALE3Vale ONR$ 60,172,64%
USIM5Usiminas PNR$ 10,592,62%
WEGE3Weg ONR$ 73,172,36%

Confira também as maiores quedas:

CÓDIGOEMPRESAVALORVARIAÇÃO
IRBR3IRB ONR$ 6,44-10,18%
CVCB3 CVC ON R$ 14,90-5,76%
CIEL3Cielo ONR$ 3,70-5,13%
EMBR3Embraer ONR$ 6,37-3,78%
AZUL4Azul PNR$ 24,97-3,55%

Dólar acima de R$ 5,60

O dólar terminou o dia em alta de 0,53%, aos R$ 5,62. E a volatilidade, é claro, também se viu na performance da moeda.

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No pico intradiário, a divisa chegou a avançar 0,78%, para R$ 5,63. Enquanto isso, na mínima, caiu até 0,78%, para R$ 5,55.

"O lado doméstico é que vem precificando o dólar", diz Reginaldo Galhardo, gerente de câmbio da Treviso Corretora, em referência ao teto de gastos. "A possibilidade de romper o teto tem levado os investidores a fazerem hedge, e aí é comprar dólar."

"É 100% o fiscal", disse José Faria Júnior, diretor da Wagner Investimentos. "Na prática os investidores estão cansados de discurso e nada de ação."

A necessidade dos investidores acerca de uma definição sobre o financiamento do Renda Cidadã fez o real se descolar, uma vez que teve desempenho inferior ao de pares emergentes na sessão de hoje.

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Isto porque o dólar apresentou recuo de ao menos 0,1% frente ao peso mexicano, ao rublo russo e ao rand sul-africano na sessão desta quarta.

Exterior positivo

Trump e seus auxiliares pretendem aprovar uma série de medidas individuais como estímulos à economia, após a negativa ao pacote de ontem dos democratas que previa um total de R$ 2,4 trilhões em ajuda. A notícia embalou os índices americanos durante todo o dia.

Por fim, o S&P 500 fechou em alta de 1,74%, enquanto o Dow Jones subiu 1,91%, e a Nasdaq, 1,88%.

Outro fato importante veio da política monetária. O Federal Reserve divulgou a ata da reunião de 15 e 16 de setembro, elevando a barra para altas de juros e observando que serão necessários ao menos três anos para alcançar a nova meta média de inflação, de 2%.

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A inflação, no entanto, continua fraca, com recuperação desigual entre os setores e incertezas à frente, sendo que a ausência de estímulos é vista pelos mercados como uma pressão negativa sobre o PIB, diz o Fed.

A ata mostra que alguns formuladores pontuaram "que em reuniões futuras seria apropriado para avaliar e comunicar como o programa de compra de ativos do Comitê poderia melhor apoiar a realização das metas máximas de emprego e estabilidade de preços" do Fed, segundo trecho do documento.

"Isso também ajudou o mercado lá fora a se embalar", diz Vale, do Crédit Agricole.

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