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Vinícius Pinheiro

Vinícius Pinheiro

Diretor de redação do Seu Dinheiro. Formado em jornalismo, com MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela FIA, trabalhou nas principais publicações de economia do país, como Valor Econômico, Agência Estado e Gazeta Mercantil. É autor dos romances "O Roteirista", "Abandonado" e "Os Jogadores"

Entrevista exclusiva

Brasil precisa vacinar rápido para atrair estrangeiros para a bolsa, diz CEO do maior hedge fund europeu

Responsável por US$ 113 bilhões em recursos, Luke Ellis, da Man Group, vê espaço para bolsas globais subirem mais em um mundo com taxas de juros baixas por um longo período

Vinícius Pinheiro
Vinícius Pinheiro
7 de dezembro de 2020
6:02 - atualizado às 15:55
Luke Ellis, CEO da Man Group
Luke Ellis, CEO da Man Group - Imagem: Divulgação

A conexão de Luke Ellis falhou por alguns momentos em razão de uma tempestade que caía durante a nossa entrevista por videoconferência. O CEO da Man Group, maior gestora de “hedge funds” da Europa, enfrentou ao longo deste ano os mesmos perrengues de todos os que encararam o home office durante a pandemia.

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Mas o executivo já começa a projetar quando a gestora com sede em Londres e o resto da economia voltarão ao normal. Com o início da vacinação previsto para esta semana no Reino Unido, Ellis espera que o coronavírus comece a deixar de ser uma preocupação por lá em meados de 2021.

Para ele, a luz no fim do túnel da pandemia e o desempenho relativamente bom das empresas com ações em bolsa durante a crise justificam a rápida recuperação dos mercados depois do pânico de março. “Em muitos aspectos faz sentido que as ações tenham voltado para onde estavam”, me disse o CEO da Man Group.

Com US$ 113 bilhões (R$ 580 bilhões) em ativos, a gestora é referência global em fundos sistemáticos, que se valem da tecnologia para analisar grandes volumes de dados e operar nos diferentes mercados a partir de modelos matemáticos.

Se a recuperação das ações é sustentável, haveria espaço para elas subirem ainda mais? Para Ellis, a resposta é sim. E a explicação está na perspectiva de que as taxas de juros globais permanecerão baixas por um longo período nas economias desenvolvidas.

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“Se você assumir taxas zero pelos próximos anos, como projetam os mercados de bonds europeus, as companhias podem se manter com múltiplos historicamente altos sem estarem caras” — Luke Ellis, Man Group

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A afirmação do executivo se refere principalmente aos principais índices das bolsas internacionais. Mas ele não pensa o mesmo de ações específicas como as da Tesla, a fabricante de veículos elétricos do bilionário Elon Musk.

“Eu estou na lista de espera para comprar um carro, eu gostaria de ter um Tesla. Mas isso não significa que eu acredite que um valuation de US$ 500 bilhões faça algum sentido.”

O CEO da Man Group concorda que o Brasil foi "mal-amado" pelos investidores estrangeiros nos últimos dois anos, e que diante disso há potencial para a bolsa. Mas para ser competitivo contra os demais mercados emergentes, Ellis entende que o país precisará vacinar o quanto antes a população.

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Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

Por que os mercados se recuperaram rapidamente do choque de março provocado pelo coronavírus?

Uma das coisas que temos que lembrar sobre ações é que elas supostamente deveriam ser um mecanismo descontado do futuro. Em março, os mercados acionários ficaram muito focados no curto prazo, essencialmente na questão de quem é mais vulnerável para quebrar. Quando os Bancos Centrais reduziram esse risco, os investidores passaram a olhar para o valor das ações. E se chegou à conclusão de que os lucros de 2020 serão terríveis, mas quando se olha para 2021 eles devem voltar para patamares próximos do que as pessoas esperavam. Então em muitos aspectos faz sentido que as ações tenham voltado para onde estavam.

Então a forte alta recente das bolsas é sustentável?

Para a maior parte das grandes economias do mundo, podemos ver o fim do problema com o vírus em algum momento do primeiro semestre de 2021, então você consegue ver quando as coisas começarão a voltar ao normal. Se você é dono de um pequeno restaurante nos Estados Unidos ou na Europa provavelmente já voltou ou irá voltar porque ou não teve nenhuma renda ou não teve renda de forma contínua nos últimos 15 meses.

Por outro lado, quando você pega as grandes redes de restaurantes globais, a verdade é que alguns trimestres foram ruins, mas no final elas podem até sair fortalecidas. Na média, em relação aos índices, as empresas listadas em bolsa não têm ido mal.

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Então, assumindo que tudo vai voltar, eu acredito que a forma como os mercados se recuperaram até aqui é bem racional.

Mais uma vez, isso vale para as economias da Europa e dos Estados Unidos. Eu não sei como está o Brasil na questão da vacinação, mas meu palpite é que está um pouco atrasado, certo?

Infelizmente sim…

No Reino Unido, você pode começar a projetar que vamos atingir um nível de imunização ao qual você não precisa se preocupar com a covid no fim do primeiro trimestre [de 2021]. Nos Estados Unidos, com mais gente e maiores distâncias, podemos falar em um pouco mais de tempo.

As bolsas têm espaço para subir mais?

A questão para o próximo ano é se haverá mudanças nas taxas de juros. Se você assumir taxas zero pelos próximos anos, como projetam os mercados de bonds [títulos de dívida] europeus, as companhias podem se manter com os múltiplos historicamente altos sem estarem caras.

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O grande risco de outra grande onda de vendas no mercado de ações seria outro choque com uma pandemia. Esperamos não passar por isso, mas da última vez nós também não sabíamos. Outra ameaça é de uma mudança na política monetária que seria provocada por uma alta da inflação.

Aqui na Europa e nos Estados Unidos nós adoraríamos ter mais inflação. Eu sei que em um país onde a inflação está subindo como ocorreu nos últimos meses no Brasil se pode pensar que a inflação é algo ruim. Se você tiver muita inflação, é algo ruim, mas se você não tem nenhuma, também é.

Sem inflação nos Estados Unidos e na Europa, os juros não vão subir. O Fed já sinalizou que vai manter as taxas de curto prazo perto de zero pelos próximos três anos.

E com as taxas para os títulos [do Tesouro americano] de 10 anos abaixo de 1% os mercados de ações vão bem. Podemos ter volatilidade, mas as bolsas fundamentalmente não estão muito caras.

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Toda vez que as bolsas sobem rapidamente como agora começam os comentários sobre uma possível bolha. Então não é o caso agora?

No nível dos índices, não. Mas há ações individuais onde o valuation é insustentável. Veja o caso da Tesla. Eu estou na lista de espera para comprar um carro, eu gostaria de ter um Tesla. Mas isso não significa que eu acredite que um valuation de US$ 500 bilhões faça algum sentido porque no final, bem, eles fazem carros. E a história diz que as pessoas não ganham dinheiro fabricando carros, e certamente não para justificar esse valuation.

Então você pode ter casos individuais de ações no território da bolha, mas sem ter o mercado em geral nesse território. Existe muito espaço, dependendo de como o ano se desenvolver, para rotações no mercado, tanto em ações como em crédito.

O mercado voltou a assistir à disputa entre ações de valor e as de crescimento. E depois do bom momento das empresas de crescimento no auge da pandemia, os investidores estão voltando para as empresas de valor. Qual a sua visão sobre esse movimento e de que lado você está?

Nós fazemos os dois. Uma das coisas mais interessantes que acontecem na Man Group é quando você tem um debate entre as pessoas dos dois grupos e, de vez em quando, talvez uma ou duas vezes por ano, ambos compram a mesma empresa. E toda vez que isso acontece essas ações têm uma performance fantástica. Então, todos nós observamos com muito cuidado quando eles concordam.

Eu acho que um dos motivos para as empresas de crescimento registrarem um desempenho tão bom é porque, em um mundo de taxa de juros zero, não há diferença no valor do fluxo de caixa hoje e o valor do fluxo de caixa daqui a 10 anos. Como eu disse, eu não acho que as taxas de juros vão subir, então eu não acho que teremos uma rotação massiva de saída desses papéis.

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Do outro lado, as ações clássicas de valor precisam de inflação para performar porque a inflação é o que dá a elas poder de preço e as tira da “armadilha de valor”. Eu não acredito que teremos inflação na maioria dos países, então eu não acho que as ações clássicas de valor vão se recuperar no curto prazo.

Agora, além das ações clássicas de valor, tivemos um número de boas empresas em que as ações caíram muito durante a pandemia da covid-19. Quando você começa a reavaliar suas suposições encontra um grande número de empresas muito baratas.

O Brasil e a bolsa em particular passaram os últimos dois anos praticamente sem atrair recursos de investidores estrangeiros, mas recentemente houve uma reversão dessa tendência. O que esperar daqui para frente?

Bem, como você diz, o Brasil tem sido muito mal-amado pela comunidade investidora internacional. As ações estão muito underweight [abaixo do peso de mercado], então existe potencial. Em algum momento as ações vão voltar e isso vai gerar compras significativas. Mas eu acho que, com a inflação subindo, definitivamente haverá pressão sobre o Banco Central. Você não quer elevar os juros tão cedo, mas se não aumentar haverá mais inflação, o que cria problemas para além do mercado de ações. Outro fator-chave será a questão da covid, e eu não sou um especialista para dizer como o Brasil está indo.

Infelizmente não estamos indo muito bem…

O que é importante para o Brasil é conseguir a vacinação rapidamente se quiser ver fluxo de recursos estrangeiros na competição com outros mercados emergentes. A Ásia é extremamente popular entre os investidores porque foi bem na crise. Quem ficar para trás vai ter que lutar para conseguir investimentos. Isso do lado da bolsa. No câmbio e na dívida, precisamos acompanhar de perto como o Banco Central vai se comportar entre ter mais inflação ou juros. Então acredito que o Brasil deve enfrentar mais volatilidade.

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