Acabou a crise? 5 razões para a disparada da bolsa e a queda do dólar
O dólar à vista acumula queda de mais de 11% nas últimas 15 sessões, afastando-se de vez da faixa dos R$ 6,00 — na bolsa, o Ibovespa também teve alívio forte no período, retomando os 90 mil pontos

No meio da crise de saúde, econômica e agora social enfrentada pelo mundo surgiu uma manada de touros – como são conhecidos os investidores que apostam na alta dos ativos financeiros.
Enquanto a economia global caminha para ter um dos piores anos da história e as ruas e as redes sociais são tomadas por protestos políticos e sociais, a bolsa e o dólar vivem uma dinâmica própria, aparentemente desconectada da realidade.
O Ibovespa, principal índice de ações da bolsa brasileira, teve mais uma alta expressiva e voltou a ficar acima dos 90 mil pontos – o que não acontecia desde o dia 10 de março. O dólar toma o rumo oposto depois de ameaçar romper a barreira dos R$ 6,00 no mês passado, fechando a sessão desta terça-feira (2) cotado a R$ 5,2086.

Mas afinal, a crise acabou e esqueceram de avisar o resto do mundo? Não, caro leitor — definitivamente, não. Mas isso também não significa que a melhora recente nos mercados seja sem propósito.
Confira a seguir cinco razões para a disparada recente da bolsa e da queda do dólar e também o que esperar daqui para frente:
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1 - Coronavírus "controlado"
O Brasil hoje é considerado um dos epicentros dos casos de coronavírus. Mas, no resto do mundo, a pandemia dá cada vez mais sinais de controle depois do período de quarentena imposto pelas autoridades.
A China, país de origem do vírus, foi a primeira a reabrir a economia, no fim de março, e até o momento não teve registros de uma segunda onda de casos que levasse a um novo isolamento, um dos maiores temores do mercado.
A expectativa é que o exemplo chinês se repita nas demais economias afetadas pelo coronavírus e que começaram recentemente a retomar as atividades. É o caso da Europa e de parte dos EUA, áreas em que a doença teve um pico em março e abril.
A avaliação de que os governos – com exceção, talvez, do brasileiro – aprenderam a lidar com o vírus se soma à expectativa do anúncio de uma vacina ou tratamento eficaz contra a doença.
2 - Injeção sem precedentes de dinheiro
A atividade econômica global vai inevitavelmente passar por uma forte recessão em consequência da paralisação dos últimos meses.
Mas se no campo da saúde ainda não existe uma cura para o coronavírus, os governos encontraram um tratamento eficaz para conter os efeitos no mercado (pelo menos por enquanto): a impressão de dinheiro.
Os estímulos econômicos promovidos pelos governos incluíram ainda a redução de juros para os menores níveis históricos. Nos EUA, estão no patamar entre 0% e 0,25% ao ano, mas, em alguns países, as taxas estão em terreno negativo.
A combinação dos dois fatores provocou uma inundação de liquidez no mercado, e esse dinheiro começa agora a chegar por aqui. Esse fluxo reduz a pressão sobre o dólar e, ao mesmo tempo, estimula a aposta em ativos de maior risco, como a bolsa.
[captacao]
3 - Preço das commodities
Para o resto do mundo, o Brasil é uma economia de commodities. Afinal, produtos como o minério de ferro e soja estão entre os líderes na nossa pauta de exportações.
É normal, portanto, que o dólar suba em relação ao real quando as cotações das commodities caiam, e vice-versa. Foi o que aconteceu no auge do choque do coronavírus, que derrubou os preços do petróleo e outras matérias-primas.
Mas a recuperação nas últimas semanas em meio aos dados mais animadores da economia chinesa acabou servindo de combustível (sem trocadilho) para a retomada das apostas nos mercados emergentes, como o Brasil.
Ao longo de maio, o minério de ferro negociado no porto chinês de Qingdao — cotação que serve de referência para o mercado — acumulou ganhos de 24%. E grande parte desse salto se deve ao Brasil: temendo que o avanço da Covid-19 afete as operações da Vale, o mercado tem jogado o preço da commodity para o alto.
Seja como for, fato é que a valorização do minério deu força às ações de empresas como CSN, Usiminas e Gerdau, além da própria Vale: todas subiram forte ao longo de maio, dando impulso ao Ibovespa. O petróleo, com ganhos de cerca de 10% no mês passado, também deu suporte às ações da Petrobras, outro ativo de peso na composição do índice.
4 - Tirando o atraso
Entre os emergentes, o Brasil aparece na lanterna durante a crise do coronavírus. Mesmo com a recuperação recente, o real ainda tem o pior desempenho numa cesta com 24 ativos desse tipo:

Então podemos dizer que, com a queda recente do dólar, o real apenas tira o atraso em relação a seus pares. E, pelo menos com base no gráfico acima, ainda teria espaço para melhorar mais.
A disparada do dólar para perto dos R$ 6,00 nas máximas históricas foi um claro "overshooting" (exagero), segundo um experiente gestor de fundos. A melhora no saldo da conta corrente do país seria um sinal de que o câmbio já está ajustado à piora das condições econômicas.
A desvalorização do câmbio também tornou a bolsa brasileira extremamente barata para os estrangeiros. Em dólares, o Ibovespa chegou a registrar uma queda de 56,9% na mínima de 2020.
“Com tanto dinheiro queimando na mão e preços tão atrativos, a bolsa brasileira acaba entrando no rali dos mercados internacionais”, disse outro gestor.
5 - Fator Paulo Guedes
Além da crise de saúde e econômica provocada pelo coronavírus, o Brasil ainda foi capaz de fabricar uma crise política, com o aumento das tensões entre os poderes em Brasília.
No meio da turbulência, os investidores chegaram a temer pelo fim da pauta econômica liberal dentro do governo Bolsonaro e a saída do ministro Paulo Guedes.
Os sinais recentes de que o ministro vai seguir no comando da economia e que o governo segue comprometido com o controle fiscal também ajudaram a melhor o clima no mercado, ainda que o clima político em geral siga bastante inflamado.
Acabou a crise?
Os mesmos riscos que levaram a bolsa a beirar os 60 mil pontos no auge do choque provocado pela pandemia do coronavírus permanecem no radar. Então não se pode falar em fim da crise, apesar da euforia dos investidores no mercado financeiro.
Basta, por exemplo, o surgimento de um novo foco de coronavírus ou algum sinal de enfraquecimento da equipe econômica ou ruído político para a tendência se reverter.
Por isso, a palavra de ordem continua a ser "cautela" entre os gestores e analistas com os quais conversamos. De todo modo, a visão é que esses riscos hoje são menores do que há duas semanas, o que justifica o rali recente dos mercados.
"Não dá para dizer que a crise acabou, o ambiente ainda é muito incerto", diz Flavio Serrano, economista-sênior do Haitong. "Mas acho que, gradualmente, vamos caminhando para um cenário melhor".
Então a bolsa pode subir e o dólar cair ainda mais? Ninguém se arrisca a fazer previsões muito firmes neste momento. No caso do dólar, os níveis atuais entre R$ 5,00 e R$ 5,50 refletem melhor os fundamentos do país, na opinião de um gestor.
O cenário para a bolsa permanece mais nebuloso depois da correção das últimas semanas e dependerá principalmente das perspectivas para a economia na retomada após a quarentena.
O único consenso parece ser o de que a taxa básica de juros (Selic), atualmente em 3% ao ano, vai cair ainda mais e permanecer em níveis baixos por um bom tempo.
Serrano, inclusive, acredita que, a depender do comportamento dos indicadores econômicos, é possível que o ciclo de alívio monetário se estenda para além da reunião de junho. "Os mercados estão sujeitos a volatilidade ainda. De repente, poderemos ter uma segunda onda [do coronavírus], é preciso tomar cuidado."
Ou seja, o investidor que estiver em busca de mais retorno vai precisar tomar risco. Mas não espere vida fácil.
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