‘Brasil sofre de doença industrial grave’, diz economista David Kupfer
Para especialista, há uma crise de demanda, com característica mais conjuntural - porque ela decorre da economia em geral e da política econômica

Isoladamente, a queda de 0,3% da produção da indústria em julho ante junho faz parte de uma volatilidade mensal associada às perdas durante a recessão, mas o fato de o nível atual da atividade estar no mesmo nível de 2009 mostra que a economia tem uma “doença industrial muito grave”.
A avaliação é do economista David Kupfer, professor do Instituto de Economia (IE) da UFRJ, especializado em economia industrial.
A seguir, os principais trechos da entrevista.
A queda da produção industrial interrompe o sinal um pouco mais positivo do PIB do 2º trimestre, que teve avanço da indústria?
O dado mensal tem oscilações que são usuais. Não acho que um dado de um mês vir alto ou baixo possa trazer indicações para meses seguintes. O que os dados mostram é que existe uma doença industrial no Brasil muito grave, que não foi descoberta por causa desses últimos dados, mas que se observa pela regularidade no desempenho muito fraco ao longo de tanto tempo. Retomamos o nível de produção de um ano de profunda crise, que foi o início de 2009.
O que explica essa ‘doença’?
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Sabemos que é uma crise que conjuga os dois lados do problema. É uma crise de demanda, primariamente, associada a uma crise de custos (elevados) e (de) competitividade muito baixa da indústria.
Em qual lado do problema está o principal entrave?
A crise de demanda tem uma característica mais conjuntural, porque ela decorre da economia em geral e da política econômica. No meu modo de ver, a política econômica é o principal gerador dessa crise de demanda. E a crise de oferta, que é a questão da perda crescente e contínua da capacidade de competir da indústria, reflete problemas estruturais.
Quais os principais motivos para essa perda de competitividade?
Destaco, em primeiro lugar, o nível insuficiente do investimento. O investimento sendo muito contraído limita o processo de modernização. É um problema de acúmulo de atraso tecnológico. Esse problema do investimento ainda se reflete na infraestrutura, que é um gerador de custos muito importante para a indústria. Depois, temos problemas antigos, permanentes, ligados ao chamado custo Brasil, como a questão tributária e das regulamentações, que sempre existiram. É claro que é um problema, mas não é a novidade.
Qual o principal risco para a indústria daqui para a frente?
O que pode agravar o quadro é a manutenção desse padrão de estagnação da atividade industrial por mais tempo ainda. Os efeitos cumulativos dessa anemia industrial vão matar o doente. A indústria vai morrer. E depois vai ser muito difícil reconstituir o tecido industrial, que ainda é relativamente grande no Brasil.
*Com informações do jornal O Estado de S. Paulo e Estadão Conteúdo.
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