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As atenções do mercado voltaram-se ao noticiário político e às movimentações envolvendo a reforma
"Olha aí, meu bem/ prudência e dinheiro no bolso/ canja de galinha não faz mal a ninguém".
Essa é a abertura de Engenho de Dentro, um dos grandes clássicos de Jorge Ben Jor. Também é um resumo fiel do comportamento do Ibovespa nesta terça-feira.
O principal índice da bolsa brasileira até chegou a ensaiar um movimento de alta na abertura do dia, mas rapidamente perdeu fôlego e virou ao campo negativo — e ficou por lá mesmo até o fim da sessão: fechou em queda de 0,7%, aos 95.386,76 pontos, após tocar os 94.824,93 pontos na mínima (-1,28%).
E todo esse movimento teve como pano de fundo a reforma da Previdência, com o mercado mostrando certa apreensão com a possibilidade de enfraquecimento da proposta. Nesse cenário, é melhor mesmo ter cuidado para não cair da bicicleta.
"Os movimentos de desidratação da Previdência trouxeram um pouco de aversão ao risco ao mercado interno", diz Vinícius Andrade, analista da Toro investimentos. "Ainda estamos na fase de admissibilidade do texto, e ele já vai enfrentando resistência".
Esses movimentos envolvem os servidores públicos, que pretendem barrar o avanço de pontos da reforma que afetam diretamente a categoria: a cobrança de alíquotas maiores e diferenciadas pagas pelos trabalhadores e as alterações nas regras para quem entrou no serviço público antes de 2003.
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Além disso, os próprios partidos na Câmara já preparam sugestões de alterações na proposta — líderes partidários, inclusive do PSL já engatilham emendas para quando a proposta estiver na comissão especial, segundo informações do jornal O Estado de S. Paulo.
E até mesmo o governo dá sinais de que poderá reconsiderar alguns pontos da reforma. Mais cedo, o secretário especial de Previdência, Rogério Marinho, afirmou que o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e a aposentadoria rural serão suprimidos do projeto caso a maioria dos deputados assim deseje.
"Há essa preocupação de que a reforma poderá ficar 'aguada', já tem muita gente se mexendo para tirar coisas do texto", diz Pablo Spyer, diretor da corretora Mirae Asset. Ele ainda destaca que o posicionamento da agência de classificação de risco Fitch, afirmando que um eventual fracasso na aprovação da reforma não pode ser descartado, também mexeu com os brios do mercado.
Considerando tudo isso, o principal índice da bolsa brasileira enfrentou um movimento de correção dos ganhos recentes — vale lembrar que o Ibovespa vinha de três pregões em alta, saindo do nível de 91 mil pontos no fechamento da última quarta-feira (27) para o patamar dos 96 mil pontos no encerramento de ontem.
Em relatório de análise gráfica, o Itaú BBA diz que o comportamento do Ibovespa está indefinido no curto prazo. Segundo o banco, o índice possui resistências ao redor dos 95.500 pontos e dos 97.100 pontos. No lado oposto, o primeiro suporte está em 91 mil pontos — caso esse nível seja rompido, o índice perderá cair em direção aos 87.500 pontos.
Já o dólar à vista fechou o dia e queda de 0,46%, aos R$ 3,8567 — na mínima, chegou a R$ 3,8522 (-0,58%). Para Jefferson Luiz Rugik, diretor da Correparti, o mercado de câmbio não deu muita bola para os fantasmas da desidratação da reforma.
"O que pegou hoje no dólar foi a expectativa em relação ao Guedes e ao retorno do Bolsonaro, para avançar o diálogo entre Executivo e Legislativo", diz Rugik, refererindo-se à sabatina do ministro da Economia, Paulo Guedes, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, prevista para a tarde de amanhã.
A entrada de recursos externos também cooperou para o dia de tranquilidade do dólar à vista: mais cedo, a JBS anunciou a reabertura de um bônus de US$ 500 milhões e a captação de US$ 1 bilhão.
Acompanhando o dólar, as curvas de juros também tiveram um dia de maior tranquilidade. Os DIs com vencimento em janeiro de 2020 tiveram leve queda, de 6,495% para 6,485%, e os com vencimento em janeiro de 2021 recuaram de 7,05% para 7,02%. As curvas para janeiro de 2023 caíram de 8,13% para 8,12%, e as para janeiro de 2025 foram de 8,65% para 8,66%.
Os ventos favoráveis vindos lá de fora perderam força nesta terça-feira. As bolsas americanas tiveram um dia misto: o Dow Jones caiu 0,30%, mas o S&P 500 (+0,01%) e o Nasdaq (+0,25%) sustentaram leve alta. Já o mercado de commodities seguiu em firme tendência positiva: o minério de ferro subiu mais 1 ,35% na China, e o petróleo WTI avançou 1,61%.
As ações ON da Sabesp apresentaram um dos piores desempenhos do Ibovespa nesta terça-feira, com perda de 4,15%. O mercado segue castigando os papéis após o secretário de Fazenda e Planejamento de São Paulo, Henrique Meirelles, sinalizar que a venda ou capitalização da empresa não deve ser concluída neste ano.
Apesar dos ganhos do petróleo, os ativos da Petrobras passaram boa parte do dia no campo negativo. Mas tudo mudou na reta final: as ações da estatal ganharam força nos últimos minutos do pregão e fecharam em alta — os papéis ON subiram 0,42% e os PN tiveram alta de 1,04%.
E o que impulsionou essa virada? A cessão onerosa: no fim da tarde, o Valor Econômico noticiou que o governo e a Petrobras chegaram a um consenso sobre a revisão do contrato — agora, os termos serão enviados para análise do Tribunal de Contas da União (TCU).
Mais sensíveis ao noticiário local, os papéis dos bancos caíram em bloco e pressionaram o Ibovespa. As ações PN do Bradesco recuaram 1,29%, as PN do Itaú Unibanco tiveram queda de 1,58% e as ON do Banco do Brasil tiveram baixa de 0,87%.
Mesmo com o preço do minério de ferro subindo sem parar, as ações de empresas de mineração e siderurgia tiveram um dia negativo hoje, com o mercado aproveitando a cautela local para realizar parte dos ganhos acumulados nos últimos dias.
Os ganhos da commodity deram força aos papéis desse setor na abertura, mas conforme a cautela local ganhou força, o mercado virou a mão. Os papéis ON da CSN fecharam em queda de 0,24%, as ações ON da Vale caíram 1,84% e os ativos PNA da Usiminas recuaram 5,09%.
"O quadro ainda é positivo para o setor, dada a expectativa de aumento no preço do minério. Hoje foi apenas um dia normal de correção", diz um analista.
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