Menu
2019-07-26T10:29:18-03:00
Eduardo Campos
Eduardo Campos
Jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo e Master In Business Economics (Ceabe) pela FGV. Cobre mercado financeiro desde 2003, com passagens pelo InvestNews/Gazeta Mercantil e Valor Econômico cobrindo mercados de juros, câmbio e bolsa de valores. Há 6 anos em Brasília, cobre Banco Central e Ministério da Fazenda.
Entrevista

Dólar mais estável faz parte do ‘novo normal’ do Brasil, diz Persevera Asset

Juros baixos e inflação controlada desenham um período de estabilidade cambial, com impacto positivo no ambiente econômico

26 de julho de 2019
5:26 - atualizado às 10:29
Persevera Asset Nicolas Saad
Para Nicolas Saad, gestor da Persevera, dinâmica de juro e inflação baixas vieram para ficar e isso vai se refletir em fluxos mais estáveis de dólar - Imagem: Assessoria

O real não é mais o mesmo de antigamente. Ao ler essa avaliação na carta de gestão da Persevera Asset Management, seguida da estimativa de um período de surpreendente estabilidade cambial, resolvi procurar a gestora para entender melhor do que se tratava.

Quem explicou a visão da casa foi o gestor de juros e moeda da Persevera, Nicolas Saad. A questão passa pela agenda de reformas, taxa de juros e mudança no tipo de dólares que atraímos para o país.

O juro alto sempre foi um vetor de atração de capital ao Brasil, que vinha atrás das operações de carry trade, que consistem em pegar dinheiro barato no mercado externo, trazer para o Brasil e ganhar o diferencial de juro.

Mas Saad explica que existe uma fragilidade nessa estrutura na qual o fluxo de dólares é atraído pelo juro, valorizando a taxa de câmbio e trazendo uma sensação temporária de bem-estar, tanto pela inflação baixa como na relativa melhora de poder de compra.

“Por outro lado, ficamos muito sujeitos à mudança de percepção desses investidores. Qualquer situação de risco, seja por cenário externo ou crise doméstica, esses investidores se assustam e vemos uma corrida para saída”, explica.

Usando um termo da casa, o carry trade, que sempre foi regra por aqui, “plantava as sementes” de uma forte desvalorização posterior do real.

Exemplo da volatilidade que não devemos mais ver: a nossa crise política e econômica de 2015 resultou em uma valorização de 49% do dólar, algo não visto desde 2002. Já em 2016, com alguma melhora e manutenção de juros alto, o dólar caiu 18%.

Nova dinâmica

A visão da Persevera é que a nova dinâmica de inflação e juro baixo é algo que veio para ficar. A reforma da Previdência desenha uma nova dinâmica para o endividamento público e outros pontos da agenda de reformas apontam para um menor juro real (juro nominal descontado da inflação).

Quanto menor o juro real por aqui, em comparação com os mercados internacionais, menor o incentivo para o ingresso de capital especulativo ou “smart money/hot money”.

“Juro real mais baixo canaliza fluxo de investimento externo mais estrutural, como investimento direto e renda variável. Não vai ser um fluxo que vai se reverter no primeiro sinal de aversão ao risco”, explica Saad.

De fato, esse é um movimento que estamos observando faz algum tempo por aqui. Mesmo em períodos de acentuada crise, matemos um patamar robusto de Investimento Direto do País (IDP) na faixa de 4% a 5% do PIB.

Ilustra também essa dinâmica, a constatação do Instituto Internacional de Finanças (IIF), de que o Brasil tem sido o emergente com maior capacidade de atração de IDP, mas ocupa a última colocação entre aqueles que recebem o “hot money”.

Nossos dados de fluxo cambial também contam um pouco dessa história. Nos últimos 12 meses até junho, a saída líquida de dólar foi de US$ 28,643 bilhões, a maior desde em 1999. Aqui também entra a dinâmica de troca de dívidas externas por internas, que já comentamos outras vezes (links abaixo).

Quer nossas melhores dicas de investimentos de graça em seu e-mail? Cadastre-se agora em nossa newsletter
Quer nossas melhores dicas de investimentos de graça em seu e-mail? Cadastre-se agora em nossa newsletter

O que esperar?

Saad explica que maior estabilidade cambial melhora o ambiente econômico, pois ajuda no planejamento dos agentes. É algo que sempre ouvi na cobertura das notícias no mercado de câmbio, que o nível de taxa não importa tanto quanto a sua previsibilidade.

Estabilidade cambial também não significa que o dólar não vai mais flutuar. Mas para dar um parâmetro ao leitor, a Persevera avalia que é possível que a taxa de câmbio não caia abaixo de R$ 3,50 nem rompa os R$ 4,50 ao longo dos próximos anos.

Saad não descarta melhoras adicionais no câmbio em 2019. Mas o ponto principal é que a Persevera não acredita mais em movimentos muitos fortes que sejam determinados pelo diferencial de taxa de juros.

Visão geral e posições

Ampliando um pouco o assunto da conversa, Saad avalia que estamos passando por um prolongado processo de desalavancagem. O mundo largou na frente e estamos vivendo esse processo de redução de endividamento de empresas e famílias com certo atraso em função da política econômica focada em estímulos fiscais que tivemos até 2016. O Brasil em desalavancagem é um país deflacionário.

No cenário doméstico, especificamente, Saad avalia que ainda não digerimos por completo o processo de redução do endividamento das famílias. A melhora que temos é algo superficial, pois o desemprego segue elevado, não há demanda firme por crédito e a retomada da atividade segue decepcionando.

Por isso, a casa está posicionada, faz algum tempo, para uma retomada no ciclo de corte de juros. A dúvida é quanto à extensão e profundidade do afrouxamento adicional, assunto que tem dominado as discussões no mercado, onde há apostas de Selic abaixo de 5%.

A visão da Persevera é construtiva com relação à bolsa, apesar da avaliação mais cautelosa com relação à atividade. Saad explica que a crise levou as empresas listadas a um processo de ganho de eficiência, que impacta nas margens de lucros. Além disso, a queda dos juros reduz gastos financeiros.

“O cenário seria melhor em um ambiente de retomada forte. Mas mesmo com retomada gradual, essa melhora de margens vai se materializar de forma importante”

Sobre a casa

A Persevera foi fundada em 2018, explica Saad, juntando profissionais de larga experiência do mercado, sendo que vários já trabalharam juntos em outros bancos e assets. A casa é capitaneada por Guilherme Abbud, que já passou pela Bradesco Asset Management e conduziu o processo de integração com o HSBC.

O produto da casa é um fundo multimercado, o Persevera Compass FIC FIM, com patrimônio de R$ 85 milhões e valorização acumulada de 6,29% no ano.

Comentários
Leia também
Um self service diferente

Como ganhar uma ‘gorjeta’ da sua corretora

A Pi devolve o valor economizado com comissões de autônomos na forma de Pontos Pi. Você pode trocar pelo que quiser, inclusive, dinheiro

ECONOMIA

‘Recessão profunda torna retomada lenta’, diz economista do Insper

“Um ponto a se considerar é que, somando com os resultados de 2018, já são quase 1,2 milhão de empregos desde a crise. O mercado de trabalho demorou para responder, porque a recessão foi muito profunda, mas está respondendo”, falou Sergio Fripo

AINDA SOBRE A 'CAIXA-PRETA'

TCU dá 20 dias para BNDES explicar auditoria milionária da ‘caixa-preta’

Após um ano e dez meses focado em oito operações com as empresas JBS, Bertin, Eldorado Brasil Celulose, a auditoria não apontou nenhuma irregularidade

DE OLHO NA VALE

Vale paga multas ao governo mineiro, mas questiona cobranças do Ibama

De acordo com dados da Semad, foram aplicados até o momento 11 autos de infração em decorrência do rompimento da barragem no dia 25 de janeiro de 2019

OLHO NAS STARTUPS

Volume de aportes em startups do País cresce 80% e atinge US$ 2,7 bi em 2019

O número de aportes, por sua vez, cresceu 8,3% na comparação com 2018, mas não bateu recordes – em 2017, foram 263 investimentos no País, mas com valor individual menor, totalizando US$ 905 milhões

ACORDOS

Bolsonaro assina 15 acordos com a Índia e fala que comércio poderá superar US$ 50 bilhões até 2022

O principal acordo assinado é o de cooperação e facilitação de investimentos (ACFI), segundo o jornal Folha de S.Paulo

MAIS LIDAS DO SEU DINHEIRO

MAIS LIDAS: O sonho da aposentadoria rápida

Caro leitor, O que te assusta mais: o coronavírus ou a fila do INSS? Não tenho dúvidas de que a nova doença foi o assunto da semana no mundo todo, mas o desejo de se aposentar rápido – e sem depender do governo – foi o que bombou aqui no Seu Dinheiro.  O projeto Aposente-se aos […]

DE OLHO NA TECNOLOGIA

Toyota investe US$ 394 milhões em companhia de táxi aéreo elétrico, Joby Aviation

Parecida a um drone, a aeronave tem capacidade para quatro passageiros mais o piloto, possui seis hélices, um alcance de 150 milhas (aproximadamente 240 km) e pode voar até 200 milhas por hora (cerca de 320 km/h)

POLÍTICA

Em Davos, Doria se ‘afasta’ de Bolsonaro

Nesses 12 meses de intervalo, o clima entre os dois não apenas esfriou como houve troca de farpas tendo como pano de fundo o cenário político de 2022

EMPREGO

Em 1º ano, Bolsonaro gera mais vagas que Temer, mas fica atrás de Lula e Dilma

Com a economia ganhando tração a partir do segundo semestre do ano passado, o Caged registrou saldo positivo de 644.079 vagas com carteira assinada em 2019

COLUNA DO PAI RICO PAI POBRE

Ter um emprego versus empreender

Veja como avaliar se é melhor ter um próprio negócio, ser autônomo ou arrumar um emprego.

Carregar mais notícias
Carregar mais notícias
Fechar
Menu
Advertisements