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Campos Neto descarta intervenção exagerada no câmbio; saiba o que o presidente do BC diz sobre o uso do dólar como proteção

Segundo ele, intervenção cambial deve ser usada para eliminar problemas de liquidez, e exagero pode forçar investidores a buscar outros instrumentos de hedge

14 de dezembro de 2021
17:03 - atualizado às 16:25
Barquinho feito com nota de dólar navegando no mar
Imagem: Shutterstock

Se você tem investimentos em dólar ou usa a moeda norte-americana para se proteger, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, manda um recado: o câmbio segue flutuante. 

Segundo ele, a autarquia acredita no princípio de separação das políticas monetária e cambial, com o uso da Selic, como é conhecida a taxa de juros, para a política monetária

"A intervenção cambial é para eliminar problemas de liquidez. Se existe a percepção de que a intervenção está indo além, as pessoas procuram outro instrumento de hedge. Vemos claramente que intervenção cambial exagerada causa danos no mercado de juros, porque as pessoas deixam de se proteger no dólar e vão se proteger nos juros longos", afirmou Campos Neto, em debate sobre política monetária realizado pelo Tribunal de Contas da União (TCU).

O presidente do Banco Central reconheceu que os depósitos voluntários não têm a capacidade de substituir as operações compromissadas em maior medida.

"O depósito remunerado tem limitação, porque no fim das contas grande parte da liquidez do que a gente gira no sistema financeiro, é fundos. Os bancos precisam de lastro para tomar dinheiro dos fundos nessa operação e nós não conseguimos atingir a indústria de fundos. Estamos pensando em evoluções que temos que fazer para que instrumento tenha alcance maior ", adiantou Campos Neto.

Juros: para o alto e avante

O presidente do Banco Central lembrou ainda que o Brasil foi um dos países que mais aumentou os juros neste ano. 

Com a alta de 1,50 ponto percentual decretada na semana passada, o BC cumpriu com o prometido na reunião de setembro e deu continuidade a um dos programas de aperto monetário mais intensos do mundo — ao todo, a taxa básica de juros brasileiras deu um salto de 7,25 pontos apenas em 2021, para os atuais 9,25%. 

"Depois do início da alta da Selic, a curva inclinou um pouco para baixo, juros longos caíram. Começamos a ver um realinhamento na estrutura de juros a termo", afirmou Campos Neto. 

Secando a liquidez

O presidente do BC mostrou um gráfico com os países que estão subindo os juros e afirmou que esse aperto monetário no mundo vai "secar a liquidez" ainda mais para emergentes. Ele lembrou que Brasil precisa desse investimento externo para gerar crescimento, uma vez que a parte fiscal está exaurida.

"Há claramente movimento de aperto monetário no mundo. A Turquia tem inflação alta e resolveu baixar os juros, a moeda já desvalorizou 100% depois dessa empreitada. Não acho que é uma política recomendável, foi uma perda de credibilidade total", avalia Campos Neto.

Inflação descolada

Campos Neto reforçou que a inflação brasileira está claramente descolando, com elementos de disseminação bastante ampliada. "Partes mais voláteis do IPCA começaram a mostrar alguma estabilidade, como alimentação no domicílio. Precisamos esperar como isso vai se comportar para frente", disse.

O presidente do BC argumentou ainda que se a inflação de energia no Brasil fosse a média de outros países, o IPCA estaria na média mundial. "A inflação de energia mais combustíveis é a mais alta da nossa história", afirma.

Campos Neto apontou que a inflação ao produtor tem sido muito alta em diversos países. "Estamos vendo números que não eram vistos em 30 ou 40 anos. Mas o repasse de inflação de produtor para consumidor tem sido diferente em cada país. A China tem uma passagem mais baixa, mas no geral vemos um movimento de inflação global bastante elevado", afirmou.

Ele destacou que o Brasil tem sido destaque no aumento de inflação ao consumidor (IPC) no mundo, mas que o País está na média em preços de serviços. "Quando olhamos os núcleos sem alimentação e sem energia o Brasil está subindo também, e isso é uma fonte de preocupação. Mas uma situação bem melhor do que quando você olha o índice cheio", completou.

Mercado de energia

O presidente do Banco Central destacou ainda que, pela primeira vez, há um descolamento entre os preços de energia e os investimentos no setor. "Há falta de interesse de empresas em investir em energia e dos bancos em dar crédito. Esse desequilíbrio no mercado de energia parece mais persistente", afirmou.

Campos Neto chamou a atenção para o consumo de energia necessário para a produção de bens, que é superior à energia necessária para o consumo de serviços.

"Ao mesmo tempo em que há essa demanda por energia, temos algumas restrições que chamamos de inflação verde. Para atingir metas de carbono, precisamos de metais, que começam a ter um enorme aumento de preços", alerta.

Ancoragem de expectativas

O presidente do Banco Central considerou "superimportante" que a autoridade monetária atue para ancorar as expectativas. "É muito importante agir de forma rápida, consistente e transparente para que a gente consiga abortar esse processo de desancoragem", afirma.

Campos Neto voltou a avaliar que há surpresas positivas sobre os dados fiscais, com ganhos de arrecadação devido à inflação, mas também por fatores estruturais. "Houve obviamente sensação de desarranjo em relação ao arcabouço fiscal, muita gente enfatiza isso", disse.

O presidente do BC apontou que os agentes de mercado têm considerado que o crescimento estrutural para frente é mais baixo do que se previa anteriormente.

"A grande fragilidade fiscal do momento não está relacionada a movimentos de curto prazo de melhora, mas sim à capacidade de o Brasil crescer. Quando eu coloco um crescimento mais baixo e uma taxa de juros mais alta, a minha trajetória da dívida explode", afirma

"Há uma parte da fragilidade que diz respeito a ruídos de curto prazo, com gastos. Se o País não crescer, pode haver ações de curto prazo, mas não atingiremos sustentabilidade fiscal", acrescenta.

Recuperação econômica

Campos Neto reconheceu que o Brasil tem tido uma queda no ritmo de recuperação da economia, enquanto outros países têm acelerado seu crescimento. 

"Os demais emergentes têm acelerado crescimento acima do Brasil, à exceção do México. O Brasil teve uma performance melhor em 2020, ficou na média dos emergentes em 2021, mas no pós-pandemia voltou ao problema de crescimento estrutural baixo e inferior à média de emergentes", afirma. 

E completou: "Temos diferenciação de mercados emergentes e avançados em atividade e fluxo."

O presidente do BC repetiu que o Brasil apresenta uma melhora expressiva em quantidade de casos e óbitos por covid-19. "A variante ômicron tem causado aumento de casos em diversos países, mas com baixa letalidade", disse

Pandemia

O presidente do Banco Central argumentou que os bancos centrais e os mercados se prepararam no ano passado para uma depressão econômica que não veio. 

"Veio uma recessão. Tivemos um conjunto robusto de medidas de enfrentamento à pandemia que foi muito coordenado. Houve um esforço fiscal (global) muito grande de US$ 9 trilhões em cima de um PIB de US$ 84 trilhões em 2020", afirma. 

Ele voltou a alegar que se esperava que a inflação de bens durante a pandemia fosse temporária, com o reequilíbrio da demanda de serviços a partir da reabertura das economias. 

"Com a reabertura, esperava-se que a inflação de bens caísse. A demanda por serviços de fato se reequilibrou, mas a demanda por bens continua, e mais forte", diz.

Campos Neto citou a demora na entrega de produtos para apontar a disrupção nas cadeias de produção ainda não se resolveu, sobretudo nos países avançados.

Autorização para QE

Campos Neto disse ainda que a autorização para que o órgão usasse o chamado Quantitative Easing (QE), como programas de compra de ativos por bancos centrais são conhecidos, durante a pandemia não tinha objetivo de expandir a base monetária, mas, sim, como estabilidade financeira. O BC não chegou a realizar esse tipo de intervenção no mercado de títulos em 2020.

"O BC é como uma caixa de ferramentas. Às vezes, o fato de ter uma arma ou uma ferramenta mais poderosa, faz com que o inimigo tenha um comportamento diferente. Algumas ferramentas têm esse poder de influenciar nas expectativas e você espera que elas nunca sejam usadas", afirmou o presidente do BC.

Campos Neto avaliou que as medidas de liquidez para que os bancos pudessem comprar instrumentos privados livrou o BC da necessidade de atuar por conta própria no mercado.

 "Os bancos passaram a precificar esse crédito privado de forma diferente e isso gerou um movimento de fomentar a securitização", diz.

*Com Estadão Conteúdo

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