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2019-01-04T10:30:14-02:00
Vinícius Pinheiro
Vinícius Pinheiro
Formado em jornalismo, com MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela FIA. Trabalhou por 18 anos nas principais redações do país, como Agência Estado/Broadcast, Gazeta Mercantil e Valor Econômico. É coautor do ensaio “Plínio Marcos, a crônica dos que não têm voz" (Boitempo) e escreveu os romances “O Roteirista” (Rocco), “Abandonado” (Geração) e "Os Jogadores" (Planeta).
Ações em queda

Débito ou crédito? Vale a pena investir nas donas das maquininhas de cartões?

Aumento da competição fez estrago na Cielo, que perdeu quase 60% do valor de mercado no ano passado. E as concorrentes Stone e PagSeguro, que abriram o capital em Nova York, também perderam o brilho na bolsa. Confira as recomendações dos analistas para as ações

4 de janeiro de 2019
6:05 - atualizado às 10:30
Maquininhas de cartão
Imagem: Montagem Andrei Morais

Toda vez que você faz uma compra no débito ou no crédito, uma disputa feroz acontece bem diante dos seus olhos. Para ser mais preciso, na escolha da maquininha na qual você vai inserir o seu cartão e vai processar a transação.

De um negócio lucrativo e com margens quase pornográficas de tão altas, as empresas de maquininhas de cartões se tornaram um problema para os investidores e para os grandes bancos, em particular. Eles são os donos das líderes de mercado - Cielo (Bradesco e Banco do Brasil) e Rede (Itaú Unibanco).

Para quem tem um comércio ou é profissional autônomo e precisa comprar ou alugar um equipamento, o aumento da concorrência é muito bem vindo. Para se ter uma ideia, as buscas no Google por "melhor maquininha" cresceram 242% nos últimos dois anos.

Mas para os acionistas das adquirentes de cartões, como também são conhecidas as empresas responsáveis pelas maquininhas, mais competição significa pressão sobre os resultados.

Que o diga a Cielo, que tem ações listadas na B3 e perdeu quase 60% do valor de mercado no ano passado. Foi a maior queda em 2018 entre as ações que compõem o Ibovespa, o principal índice da bolsa.

Guerra de preços

Toda vez que você paga suas compras no débito ou no crédito, um percentual do valor pago vai para empresa que faz a captura da transação. Para você ter uma noção do tamanho desse mercado, o volume de transações realizadas com cartões foi de R$ 1,36 trilhão em 2017, segundo a Abecs, a associação do setor.

A dona dos terminais que realizam as operações com cartões também ganha quando aluga as maquininhas ou antecipa os valores que os varejistas têm a receber nas compras feitas no crédito, que em geral levam um mês para cair na conta do lojista.

O aumento da competição começou com a decisão do Banco Central de quebrar o duopólio que Cielo e Rede exerciam no mercado, o que abriu espaço para a entrada de concorrentes.

A primeira a incomodar foi a Getnet, do Santander. Mas empresas independentes como PagSeguro e Stone também descobriram esse filão. E no ano passado ganharam musculatura para brigar pelo mercado depois de captarem alguns bilhões de dólares com a abertura de capital em Nova York.

A grande arena dessa disputa acontece nos pequenos e médios varejistas, onde os novos concorrentes surgiram oferecendo um melhor atendimento e cobrando mais barato no aluguel das maquininhas.

Nesse meio tempo, a PagSeguro, do grupo UOL, ainda descobriu um filão totalmente inexplorado pelas empresas de maquininhas dos bancos: os profissionais autônomos e microempreendedores. Em vez de alugar os terminais, como os concorrentes, a empresa adotou como estratégia a venda dos terminais para esse público.

Vão-se os anéis

Atordoados pelo duro ataque da concorrência, os bancões abriram mão dos anéis para ficar com os dedos. Na prática, isso significa que eles decidiram baixar os preços e derrubar as margens de lucro para estancar a sangria da perda de mercado.

“O movimento de compressão de margens é determinado pelo mercado e continua. Não estou vendo esse movimento arrefecer tão cedo”, disse o presidente do Itaú, Candido Bracher, durante a teleconferência de resultados do terceiro trimestre do banco.

No caso do Itaú, o problema é menor porque a Rede, empresa de maquininhas do banco, não tem mais capital aberto. Ou seja, a perda de receita nesse negócio pode ser compensada em outras linhas do banco.

O mesmo não ocorre com a Cielo, por isso o grande receio dos investidores é que a empresa seja “sacrificada” por Bradesco e BB na disputa pelas receitas de conta corrente e outros serviços dos varejistas que alugam as maquininhas, me disse um gestor de fundos que acompanha a empresa.

Depois de vários anos defendendo a visão de que a rentabilidade era mais importante que a participação de mercado, a Cielo mudou claramente de estratégia. Na teleconferência de resultados do terceiro trimestre, a empresa anunciou que, inclusive, pode passar a liderar o movimento de derrubada de preços para preservar sua posição.

As declarações assustaram porque, mesmo antes da mudança de postura, a empresa já vinha perdendo rentabilidade. A margem Ebitda (medida de geração de caixa), que superava os 60% no auge dos tempos de exclusividade do mercado, recuou para 38,9% no terceiro trimestre.

“Ainda são margens muito boas, mas a empresa deixou claro que elas vão cair nos próximos trimestres, e ninguém sabe até quando ou quanto”, me disse um analista que acompanha a empresa.

Risco ou oportunidade?

Como o mercado financeiro costuma exagerar tanto nos momentos de euforia como nos de depressão, muita gente se pergunta (e me pergunta) se não estaria na hora de voltar a comprar as ações da Cielo depois do tombo de 2018.

A dúvida não é só sua. Os analistas que acompanham a companhia também se mostram bem divididos sobre as perspectivas para a empresa. Cinco deles recomendam a compra das ações, dez indicam a manutenção e outros quatro a venda, de acordo com informações da Bloomberg.

"Se a concorrência der sinais de que vai se estabilizar no curto prazo, as ações da Cielo estão baratas nos níveis atuais", me disse um gestor de fundos. O problema é justamente a falta de visibilidade sobre o fundo desse poço.

Havia a expectativa no mercado de que os bancos fechassem o capital da Cielo, assim como o Itaú fez com a Rede, o que poderia dar alguma sustentação às ações. Mas o presidente do Bradesco, Octavio de Lazari, descartou essa possibilidade em encontro com jornalistas no fim do ano.

A expectativa é que a visibilidade fique um pouco melhor a partir do dia 28 deste mês, quando a empresa publica o balanço de 2018. Será também a primeira divulgação de resultados da companhia sob o comando de Paulo Rogério Caffarelli, que assumiu a presidência da Cielo em novembro.

Na gringa

E quanto às ações de Stone e PagSeguro? Como ambas são negociadas fora do país, fica mais difícil para o pequeno investidor comprar diretamente os papéis. Mas nós fizemos um guia bem completo para quem tem interesse em desbravar a bolsa americana.

De todo modo, depois das badaladas ofertas públicas iniciais (IPO, na sigla em inglês), que atraíram pesos pesados como o megainvestidor Warren Buffett, a vida delas na bolsa também não anda fácil. As ações de ambas as companhias são negociadas hoje abaixo do preço da estreia.

Entre as duas, a PagSeguro aparece melhor nas recomendações dos analistas, segundo a Bloomberg. A empresa possui hoje oito indicações de compra, quatro de manutenção e uma de venda. Já a Stone três recomendações de compra, quatro de manutenção e uma de venda.

Para quem acredita nas companhias, a grande aposta é que as maquininhas de cartões serão apenas a porta de entrada para que elas ofereçam uma série de outros serviços aos varejistas - e lucrem com isso, é claro.

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