Um mercador e workaholic de 78 anos
A época em que mais trabalhei em minha vida foi durante o bull market de ações ocorrido no Brasil de 1969 a 1971. Eu chegava no escritório às seis da manhã (não podia ser antes pois o prédio só abria às seis) e saía tarde da noite.

Caro leitor,
De vez em quando, um dos leitores de minhas newsletters escreve perguntando: “Como é que você tem disposição para o trabalho aos 78 anos de idade?”
Acho que posso dar uma resposta abrangente para todos que questionam isso: “Se não gostasse tanto de trabalhar, acho que não teria chegado aos 78. São trinta e sete anos de cigarros (parei em 1990) , toneis e mais toneis de Jack Daniel’s, diabetes, arritmia cardíaca, hipertensão arterial...”
Aos domingos, escrevo esta coluna Os Mercadores da Noite. Na segunda, terça e quarta-feira, a Warm Up PRO. Na quinta e na sexta, trabalho em uma ficção, ainda sem nome, ambientada no mercado financeiro do Brasil. No sábado, colaboro com o Trading Journal que sai às segundas.
Cada um desses escritos é precedido de uma série de pesquisas. Às vezes opto por temas atuais. Em outras, por assuntos não casuísticos, como o de hoje. Também leio. Leio muito. Ficções, não-ficções, biografias. Mais de 50 livros por ano, boa parte deles tijolaços.
Acontece que no mercado financeiro quase todo mundo é obcecado pelo trabalho. O dia é curto para a gente. Basta dar um pulo às dez horas da noite no escritório da Inversa, ou na trading desk de alguma instituição financeira. Vai encontrar gente trabalhando.
Leia Também
Às vezes, envio à meia-noite um texto para a Inversa. Sempre peço para que alguém acuse o recebimento. E não raro a resposta chega na hora:
“Recebido, Ivan. Bom trabalho. Estamos aqui programando o schedule da semana que vem.”
Tenho um amigo, Antonio Carlos de Andrade, que trabalhou comigo na corretora Fator e na financeira Decred no final dos anos 1960. Não é que ele me enviou um WhatsApp outro dia me “acusando” de ser workaholic desde aquela ocasião.
O bull market de 1969
A época em que mais trabalhei em minha vida foi durante o bull market de ações ocorrido no Brasil de 1969 a 1971. Eu chegava no escritório às seis da manhã (não podia ser antes pois o prédio só abria às seis) e saía tarde da noite.
Em maio de 1970, voltando para casa, desmaiei ao volante, no Aterro do Flamengo. Felizmente, antes, ao começar a me sentir tonto, deu para parar o carro. Depois, só fui abrir os olhos no setor de emergência de um hospital.
“Estafa, pura estafa, nada mais do que estafa”, diagnosticou o médico. Como tratamento, impôs um mês de férias. Fui então para o México, assistir à Copa do Mundo, achando que a Fator, da qual eu era sócio, diretor operacional e floor trader, iria falir sem a minha presença.
Não é que quando voltei, após o tricampeonato, os negócios haviam melhorado. Eu não era tão imprescindível assim.
Quando o bull market terminou, no inverno de 1971, passei a trabalhar no open. Foi a época em que mais se lucrou no mercado e, ao mesmo tempo, se trabalhou menos. Entre 9 e meio-dia, se negociava dinheiro. De 16 às 17 horas, comprávamos e vendíamos papéis do Tesouro. E só.
Éramos conhecidos pejorativamente pelo colunista Zózimo Barrozo do Amaral como “gravatinhas”. Fortunas surgiram da noite para o dia.
Algumas prevalecem até hoje.
E como se esbanjava dinheiro.
Pegar um avião na noite de sexta-feira para ver o Fluminense jogar um amistoso em Sevilha, na Espanha, ou assistir a um Grand Prix de Fórmula 1 em Johanesburgo, na África do Sul, sempre voando de primeira classe, era rotina em minha vida.
No meu caso, a esbórnia acabou no final da tarde de 11 de maio de 1977, quando o Banco Central decretou intervenção no Banco Independência. Paguei do meu bolso o prejuízo das pessoas que haviam comprado, da Fator, CDBs do banco.
Fiquei sem praticamente um centavo. Vivia do salário de minha primeira mulher.
Após um período sabático, ou sorumbático, que durou um ano, comecei a operar nos mercados internacionais de futuros e commodities. Atuava como broker e como trader. Só aceitava clientes altamente especulativos, gente que arriscava 100 ou 200 mil dólares para ganhar no mínimo um milhão.
Para outros, ainda mais audaciosos, eu vendia o tempo. Explicando melhor: shorteava calls e puts, operação na qual o ganho é limitado e o prejuízo, infinito.
Não vou citar nomes (os caras podem não gostar), mas entre meus especuladores havia gente conhecida, muitos famosos até hoje.
Só larguei o mercado quando me apaixonei por duas pessoas, dois homens. Seus nomes: Julius Clarence e Clive Maugh. Quem leu o livro Os Mercadores da Noite sabe de quem estou falando. Por eles, troquei os números pelas letras.
Nunca mais tive moleza, como nos tempos do open, nem quis ter. Passei a achar ver televisão, ir ao cinema, almoçar ou jantar fora, dormir..., um desperdício de tempo. Essas atividades me davam sensação de culpa.
A Os Mercadores... seguiram-se Rapina, Armadilha para Mkamba, Caixa-preta, Plano de ataque, 1929 e mais outros doze livros.
No início de 2017, comecei a trabalhar para a Inversa. Além desta coluna, não por coincidência chamada Os Mercadores da Noite, colaboro com o Trading Journal e escrevo artigos para a Warm Up PRO. Como se não bastasse, participo, sempre na Inversa, de cursos e aulas presenciais.
Em todas essas oportunidades procuro transmitir minhas experiências, falando sobre as grandes tacadas que dei e as tamancadas desmoralizantes que levei no lombo.
Este ano, a Inversa irá lançar um projeto inédito meu, e não reedições de livros como Os Mercadores da Noite e 1929. Só que, como já está concluído e entregue, estou trabalhando no próximo projeto. Depois emendarei com outro e ainda mais um outro.
Talvez mais. Vai depender do coração, não no sentido sentimental, mas do comportamento da víscera (que era como o poeta João Cabral de Melo Neto o chamava). Nós, os mercadores do dinheiro, somos assim.
Como escreveram Ataulfo Alves e Mário Lago, em Ai que Saudades da Amélia, "...o que se há de fazer.”
(Esta coluna foi publicada na Inversa Publicações. Para acompanhar os conteúdos gratuitos do Ivan Sant'Anna na Inversa, entre aqui. Ele também escreve uma newsletter matinal chamada Warm Up Pro, para experimentar, acesse aqui.)
DEPOIS DA BONANÇA, A TEMPESTADE
Ibovespa em choque: várias ações derretem mais de 40% após virada de Lula no segundo turno, apenas 6 sobem
26 de outubro de 2026 - 12:10BOTÃO DE PÂNICO
‘Circuit breaker’: o que é botão do pânico da bolsa, acionado após a reeleição de Lula
26 de outubro de 2026 - 10:48MODO DEFESA
Salve-se quem puder: Ibovespa pode tombar 17% após reeleição de Lula, avalia BTG; quais ações podem escapar?
26 de outubro de 2026 - 10:17NA CONTRAMÃO
Gavekal, importante casa de análise gringa, recomenda compra de ativos no Brasil após vitória de Lula; ações caem 30% lá fora
26 de outubro de 2026 - 10:01REPORTAGEM ESPECIAL
Lula venceu, e a festa da bolsa pode acabar: o que esperar dos investimentos agora?
25 de outubro de 2026 - 22:48MERCADOS
Petrobras despenca 12%, Vale cai 4% e EWZ tomba 19%: a reação imediata à vitória de Lula — e o que vem por aí
25 de outubro de 2026 - 22:28Conteúdo Empiricus
O teto do INSS hoje é de R$ 8.475,55, mas grupo de investidores recebeu o dobro com esse sistema; entenda
25 de outubro de 2026 - 11:00TOUROS E URSOS #293
Eleições podem destravar IPOs e novas emissões de dívida no Brasil? CEO da Nero Capital responde
23 de outubro de 2026 - 18:56O EFEITO DAS URNAS
Depois de lucrar com a alta do Ibovespa, tubarões se protegem no mercado, de olho em eleição mais acirrada
23 de outubro de 2026 - 17:53MERCADO DE FIIs
Fundo imobiliário ALZR11 vai ao mercado em busca de até R$ 530,5 milhões; veja os detalhes
23 de outubro de 2026 - 14:28SMALL CAPS EM ALTA
10 small caps que saltaram mais de 50% em outubro e lideram rali histórico na bolsa
23 de outubro de 2026 - 13:13NOVAS VITRINES
Allos (ALOS3) mira gestão de fundos imobiliários e vende fatias de shoppings à Kinea; confira os detalhes da parceria
23 de outubro de 2026 - 12:30AS 3 ESTAÇÕES
Ganho de até 50% em dólares: as ações que florescem na primavera da bolsa brasileira
22 de outubro de 2026 - 19:45MUDOU A META?
Meta (META) cai mais de 7% após balanço; veja 3 pontos para prestar atenção, segundo o Safra
22 de outubro de 2026 - 14:32PODCAST TOUROS E URSOS
Crescimento à vista? As oportunidades que podem surgir na bolsa e na renda fixa após as eleições
22 de outubro de 2026 - 11:00ENTRE CHIPS E TIJOLOS
A corrida da IA precisa de imóveis para data centers. E isso pode abrir espaço — e riscos — para os FIIs
21 de outubro de 2026 - 15:30ORGANIZANDO A CASA
Gigante à vista: Patria fica a um passo de unir quatro fundos imobiliários (FIIs) em um só
21 de outubro de 2026 - 11:20DECOLOU
SpaceX salta 10% após balanço, mas duas linhas do resultado servem para manter investidores ‘com os pés no chão’, diz BTG
21 de outubro de 2026 - 11:17É COMPRA
XP dá sinal verde para fundo imobiliário e recomenda compra — mas com uma ressalva
20 de outubro de 2026 - 15:07ESG