A crise da Boeing com o 737 MAX pode afetar a Embraer depois da fusão?
Ainda vejo valor escondido nas ações da Embraer, que deve aparecer mais claramente conforme a combinação das duas empresas for amadurecendo, e a posição é uma boa proteção contra uma forte escalada do dólar no curto prazo

Me lembro até hoje da primeira vez que voei – tinha menos de dez anos e o passeio com meu pai me manteve acordado por uns dias antes e depois da aventura. No meio do voo, entre o barulho das turbinas e o frio na barriga a cada balançada (“são só umas lombadas nas nuvens, filhão”), uma das aeromoças (era o nome, não me julgue), que percebeu ser minha primeira vez nos ares, fez o convite: “quer conhecer a cabine?”.
Estava decidido, ia ser piloto de avião. De preferência, do F-14, por influência de Maverick e Goose, claro.
Mesmo sem ter levado o sonho adiante, continuo fascinado por aviões e aeroportos, acho boa até a comida de bordo. Por ironia, depois de velho, fiquei um pouco mais covarde e, confesso, difícil ficar 100% tranquilo durante o voo. Qualquer turbulência, por mais leve que seja, já me deixa preocupado.
Tento vencer o medo pelo estudo: leio muita coisa sobre acidentes e segurança e, a cada decolagem, repito para mim mesmo que que corri mais riscos no trajeto até o aeroporto do que correrei entre as nuvens.
“As chances de morrer em um acidente aéreo são as mesmas de ganhar na loteria”. Bem, quase toda semana tem gente levando a Mega Sena...
Li as primeiras notícias sobre o acidente do 737 MAX em meio às férias na Argentina e gelei até confirmar que que meu voo de volta seria em um 777. Mesmo que todos os problemas sejam resolvidos e o modelo se torne a aeronave mais segura da história da aviação mundial, pessoas vão embarcar com desconfiança por bastante tempo – alguém aí se lembra do Fokker 100?
Leia Também
As investigações oficiais ainda estão em andamento, mas vários países proibiram voos com o 737 MAX até segunda ordem. Com 376 unidades entregues e um backlog (cateira de pedidos) de 5.012 unidades, avaliadas em mais de US$ 600 bilhões, o modelo é (era?) considerado o principal vetor de crescimento da Boeing.
Desde o acidente no Egito, a americana perdeu quase 11% de seu valor de mercado, o que equivale a pouco mais de US$ 26 bilhões. Com as notícias de que todo o processo de aprovação do modelo será investigado, o caso pode ser muito mais profundo do que “apenas” um erro de projeto – a desconfiança começa a respingar na FAA (Federal Aviation Administration), agência responsável pela regulação da aviação civil nos EUA.
E a Embraer?
Ainda é impossível quantificar o tamanho do estrago: pode ser apenas um ruído, pode ser algo com consequências permanentes. De toda forma, depois de anunciar a fusão com a gigante norte-americana, tudo que afeta a Boeing pode afetar a Embraer, já que boa parte da geração de valor na combinação dos negócios vem das sinergias comerciais entre as duas empresas.
Minha visão é que os eventos recentes terão pouco impacto sobre a companhia brasileira e, até o momento, a brasileira não sofreu com a Boeing. Pelo contrário: por incrível que pareça, a divulgação de fracos resultados foi bem recebida e o papel subiu mais de 5%, mostrando mais uma vez que, no mercado, o que importa é bater as expectativas (que eram bem pessimistas).
Em 2018, a Embraer entregou 90 aeronaves comerciais e 91 executivas (os famosos jatinhos). Com isso, o resultado antes de juros e impostos (Ebit) ficou em R$ 103 milhões, uma queda de 90% em comparação com 2017. O ano fechou com prejuízo de R$ 224 milhões (frente lucro de R$ 995 milhões no ano anterior).
A geração de caixa também sofreu – o fluxo de caixa livre (medido pela geração de caixa operacional descontada do investimento em ativos fixos) caiu de R$ 1,3 bilhão para R$ 249 milhões – a piora operacional e o aumento do volume de estoques prejudicaram bastante o fluxo de caixa da companhia.
Vida de casado
Mas a verdade é que o mercado tem dado pouca atenção à situação operacional da companhia – todo mundo quer saber de como vai ser a “vida de casado” com a Boeing e quanto valor isso vai gerar.
Do jeito que ficou desenhada a transação, a Embraer ainda tem 20% da Joint Venture, com opção de venda da participação por cerca US$ 1 bilhão à Boeing (já após impostos) nos próximos dez anos. Isso implica que o valor a receber pela venda de 80% da divisão de aviação comercial mais a opção de venda dos 20% restante tem potencial de gerar R$ 20,5 para cada EMBR3 que existe na Bolsa.
Isso quer dizer que, ao preço atual, toda a divisão de defesa e de aviação executiva estão saindo “de graça”. É verdade que os dois segmentos ainda precisam provar o seu valor, mas o potencial de comercialização do cargueiro KC-390 em conjunto com a Boeing é enorme e, na minha visão, não faz sentido o preço de tela das ações.
Além disso, com a maturação do segmento de aviação executiva da Embraer, as receitas com manutenção de aeronaves vão aumentando e a rentabilidade da atividade tende a melhorar sensivelmente.
Desde que falei sobre Embraer por aqui, em outubro do ano passado, as ações da empresa caíram cerca de 3,5%, enquanto o Ibovespa andou quase 22% – não dá para dizer que fui bem nessa. Mas ainda vejo valor escondido nas ações, que deve aparecer mais claramente conforme a combinação das duas empresas for amadurecendo e, nada, nada, a posição é uma boa proteção contra uma forte escalada do dólar no curto prazo.
Conteúdo Empiricus
Enquanto muitos investidores focam nos dividendos, este mercado bilionário bate recordes de crescimento na B3 em 2026
29 de outubro de 2026 - 14:00DE OLHO NO GRINGO
Um fundo imobiliário, duas versões: o que falta para os FIIs ‘falarem a língua’ do investidor estrangeiro?
29 de outubro de 2026 - 7:30SANGRIA ESTANCOU?
Vale investir na Bolsa depois da ‘segunda-feira sangrenta’? Estrategista da Monte Bravo diz quais setores olhar, mas tem um ativo preferido
27 de outubro de 2026 - 18:40PECHINCHAS NA BOLSA
Tombo da Bolsa após as eleições abre oportunidades, e Itaú BBA lista 7 ações para incluir na carteira agora
27 de outubro de 2026 - 16:08A RAZÃO DA QUEDA
A derrocada da bolsa: estudo mostra que crises globais estão por trás dos maiores tombos do Ibovespa
26 de outubro de 2026 - 18:15RESSACA ELEITORAL
Fundos imobiliários sentem mudança de humor dos mercados com vitória de Lula e devolvem todo ganho desde o 1º turno
26 de outubro de 2026 - 16:04O QUE VEM POR AÍ
Tombo de 20% do Ibovespa e dólar acima de R$ 5,50 são os novos normais? JP Morgan diz o que o investidor deve esperar
26 de outubro de 2026 - 15:31DA PRIMAVERA AO OUTONO?
Dólar a R$ 6, bolsa em queda de até 30% e juros mais altos: o que Wall Street espera do Brasil após a reeleição de Lula
26 de outubro de 2026 - 13:51SANGRIA NA BOLSA
Ibovespa cai 14%, dólar sobe a R$ 5,40, mas nem todo mundo perdeu — entenda o caos nos mercados
26 de outubro de 2026 - 12:29DEPOIS DA BONANÇA, A TEMPESTADE
Ibovespa em choque: várias ações derretem mais de 40% após virada de Lula no segundo turno, apenas 6 sobem
26 de outubro de 2026 - 12:10BOTÃO DE PÂNICO
‘Circuit breaker’: o que é botão do pânico da bolsa, acionado após a reeleição de Lula
26 de outubro de 2026 - 10:48MODO DEFESA
Salve-se quem puder: Ibovespa pode tombar 17% após reeleição de Lula, avalia BTG; quais ações podem escapar?
26 de outubro de 2026 - 10:17NA CONTRAMÃO
Gavekal, importante casa de análise gringa, recomenda compra de ativos no Brasil após vitória de Lula; ações caem 30% lá fora
26 de outubro de 2026 - 10:01REPORTAGEM ESPECIAL
Lula venceu, e a festa da bolsa pode acabar: o que esperar dos investimentos agora?
25 de outubro de 2026 - 22:48MERCADOS
Petrobras despenca 12%, Vale cai 4% e EWZ tomba 19%: a reação imediata à vitória de Lula — e o que vem por aí
25 de outubro de 2026 - 22:28Conteúdo Empiricus
O teto do INSS hoje é de R$ 8.475,55, mas grupo de investidores recebeu o dobro com esse sistema; entenda
25 de outubro de 2026 - 11:00TOUROS E URSOS #293
Eleições podem destravar IPOs e novas emissões de dívida no Brasil? CEO da Nero Capital responde
23 de outubro de 2026 - 18:56O EFEITO DAS URNAS
Depois de lucrar com a alta do Ibovespa, tubarões se protegem no mercado, de olho em eleição mais acirrada
23 de outubro de 2026 - 17:53MERCADO DE FIIs
Fundo imobiliário ALZR11 vai ao mercado em busca de até R$ 530,5 milhões; veja os detalhes
23 de outubro de 2026 - 14:28SMALL CAPS EM ALTA