Inflação abaixo do esperado e a cautela do Banco Central
IPCA comportado e atividade fraca devem impulsionar debate sobre a existência de espaço ou não para novas reduções da Selic

Nesta semana, o Banco Central (BC) reiterou a cautela, a serenidade e a perseverança na condução da política monetária ao manter a Selic em 6,5% e ver um balanço de risco ainda assimétrico para o lado negativo.
E nesta sexta-feira, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou em 0,32% na primeira leitura do ano, abaixo da mediana das projeções do mercado que estava em 0,37% (Projeções Broadcast), acumulando 3,78% em 12 meses.
Por outro lado, os núcleos, que tentam captar a tendência de preço, apresentaram comportamento diverso, subindo 0,3% na média de 12 meses, para 3,14%, segundo os cálculos da CM Capital Markets. Mas parecem seguir em patamares confortáveis, segundo o próprio BC.
Os dados, aliados a números pouco animadores do lado da atividade e renovada preocupações com uma desaceleração global, devem continuar impulsionando uma interessante discussão sobre a atuação do BC: haveria ou não espaço para mais reduções da taxa Selic? O BC perdeu uma a oportunidade de dar contribuir ainda maior na retomada da atividade sem colocar sua missão em risco? Ou diante de quadro ainda incerto por aqui (reformas) e nebuloso no âmbito global, o tradicional conservadorismo da autoridade monetária é o caminho mais adequado?
O debate começou no fim do ano passado (e participamos dele aqui), quando a preocupação eleitoral se dissipou e se cristalizou um quadro de mais um ano de IPCA abaixo da meta, e ganhou novo fôlego agora em janeiro com artigos de especialistas no “Blog do Ibre” da Fundação Getulio Vargas (FGV), e artigos em diferentes jornais.
Em artigo, o chefe do Centro de Estudos Monetários do Ibre, professor José Júlio Senna, avalia que as argumentações favoráveis a uma atuação mais ousada do BC são válidas, mas não fazem parte da essência do regime de metas para a inflação.
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De acordo com Senna, o BC tem duas opções. A primeira seria respeitar o arcabouço teórico vigente, mirando projeções e expectativas na meta, representado pelo regime. Ou passar a agir de maneira discricionária, postura que a atual diretoria do BC não mostra nenhum apreço.
Para o professor, a situação atual representa uma boa ilustração prática do recado dado e reiterado de “cautela, serenidade e perseverança”, pois no caso de as reformas internas decepcionarem, as condições financeiras inviabilizariam qualquer redução adicional de juros. Por outro lado, com resultados bons, o BC não se precipitaria, pois estaria aberto o espaço para que os efeitos da redução de quase 800 pontos da Selic desde o fim de 2016 se consumassem plenamente, ampliando-se assim os estímulos à economia.
Em resposta ao artigo de Senna, o professor da UFRJ, Ricardo de Menezes Barboza, também foi ao “Blog do Ibre”. Para Barboza, advogar por novas reduções não necessariamente é pregar contra o regime de metas.
Para o economista, apesar de alguns choques de preços ficarem completamente fora do controle do BC, há bons indícios de que o IPCA de 2018 e 2019 abaixo da meta carregue algo mais estrutural.
Barboza argumenta sobre o modelo de projeção do BC e mostra como a autoridade tem superestimado a inflação de forma sistemática. Depois, o especialista discute fatores que podem ter tirado potência da política monetária, tornado sua transmissão ao lado real da economia menos eficiente.
Ainda de acordo com Barboza, uma queda adicional de meio ponto percentual na Selic não seria uma panaceia para a economia brasileira. Mas novos estímulos iriam no sentido de estimular o PIB na direção do potencial e a inflação na direção da meta, o que é absolutamente desejável.
Alguma conclusão?
Difícil contra argumentar mestres e PhDs em economia, mas meu modesto palpite é que o BC preferiu não tomar risco, indo até o limite do que toma por razoável na redução do juro diante de grandes incógnitas locais e externas.
Por aqui, temos um cenário que se configura cada vez mais binário. Ou resolvemos a questão fiscal ou caímos do abismo econômico e social. Lá fora, a economia parece desacelerar e os bancos centrais voltam a liberar liquidez promovendo condições financeiras que podem engendrar a próxima crise devastadora.
Quem poderia trazer maior clareza ao debate é o próprio presidente do BC, Ilan Goldfajn. Mas ele está de saída da instituição e terá de cumprir uma longa quarentena até poder voltar ao debate público sobre seu trabalho no comando da instituição.
Por ora, creio que nos resta aguardar, primeiro a ata da última reunião do Copom (terça-feira) e alguma indicação de como Roberto Campos Neto encara todas essas questões. Ele deve chegar ao BC em março e sua sabatina na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado e seu discurso de posse devem mostrar de que lado vai se posicionar.
Veja aqui o artigo de José Júlio Senna
Veja aqui o artigo de Ricardo Menezes Barboza
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