Aposentadoria pública era ilusão. Agora é cada um por si
Para efeito de poupança privada, não dá mais para se confiar em renda fixa, por melhor que seja o fundo; só restou o mercado de ações

Ontem, um amigo de várias décadas (o conheci no início dos anos 1960, quando ambos morávamos em Belo Horizonte) pediu minha opinião sobre um investimento que fez em 31 de maio de 2017.
Antes de mais nada, se tivesse de classificá-lo por faixa de renda e padrão de vida, diria que é de classe média média com viés de classe média baixa e, se viver muitos anos mais (tem 75 no momento), fatalmente cairá na classe baixa alta, ou até na classe baixa média, se é que tais nomenclaturas existem. Não sendo este o caso, acabo de inventá-las.
Meu velho amigo é aposentado pelo INSS, do qual recebe R$ 5.120,00 mensais, R$ 720,00 abaixo do teto. Pode até parecer razoável, mas só de condomínio ele paga R$ 880,00. De plano de saúde, R$ 3.013,00. Sobram R$ 1.227,00 para todas as despesas. Ou seja, não sobra praticamente nada para quem, como ele, sempre teve uma vida confortável.
Até algumas semanas atrás, seu filho único, engenheiro, divorciado, que paga pensão para a ex-mulher, o ajudava com R$ 2 mil mensais. Só que perdeu o emprego e teve de cortar o auxílio para o pai.
Mas voltemos ao investimento, motivo principal da ligação. Naquele 31 de maio de 2017, ele ganhou uma indenização na Justiça, resultado de um atropelamento que sofreu, por parte de um motorista alcoolizado, havia vinte anos. Sim, 20. Não digitei errado. E já ia me esquecendo de dizer que o atropelador avançara a luz vermelha do semáforo.
O processo percorreu todas as instâncias até o STF. Só então, ele pôs a mão no dinheiro: R$ 150 mil.
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Prudente, procurou seu gerente no banco, que lhe indicou um fundo de renda fixa, onde ele aplicou as 150 milhas.
“E quanto você tem agora?", perguntei.
“R$ 170.013,28”, ele tinha os números à mão.
“Deixe-me estudar seu caso”, eu disse. “Volto a você em meia hora.”
HP 12C na mão, e sites do Banco Central e do IBGE na tela do computador, fui às contas. Precisei de apenas 15 minutos para fazer uma avaliação. Retornei ao amigo.
“Seu investimento foi uma bosta”, não economizei nas palavras. “A rentabilidade no período foi de 13,34%. A inflação, oito por cento. Ganhou pouco mais de 5% durante todo esse tempo. Mas, se resgatar o investimento, ainda terá de pagar imposto de renda, acho que 20% sobre o ganho.”
A mudez do outro lado da linha durou quase um minuto. E duraria mais se eu não acrescentasse:
“Quando você aplicou seu dinheiro, ele equivalia a 45.929,15 dólares. Hoje os 170 mil reais valem US$ 40.535,26."
“Quer dizer que teria sido melhor ir numa casa de câmbio, comprar dólares e guardar debaixo do colchão?”
“Não garanto”, respondi. “Fiz meus cálculos pelo dólar comercial. E você teria comprado pela cotação do dólar turismo. Seria penalizado pelo spread.”
“Spread”, meu amigo não entendeu direito.
“Sim, spread”, esclareci. E completei: “No dólar turismo, eles compram muito abaixo da cotação do comercial e vendem muito acima. Hoje, por exemplo, o dólar comercial está a R$ 4,2027 na ponta de compra e R$ 4,2033 na de venda. O turismo, olha que diferença, é comprado a R$ 4,07 e vendido a R$ 4,36”.
“Então só me resta sacar do fundo uns cinco mil por mês até o dinheiro acabar. Aí vendo meu apartamento e troco por um menor. Faço o mesmo com meu plano de saúde. Escolho um mais barato...”
“Que não vai te aceitar, por causa da idade”, arrematei. E concluí: “Além disso, o reajuste deles é muito maior do que a inflação. Pra expulsar os velhinhos, com certeza, apesar de usarem um monte de fórmulas quando justificam o aumento à Agência Nacional de Saúde”.
“Então é melhor eu ir gastando, sem desperdícios, até ficar zerado. Depois pulo pela janela. Moro no 9º andar”.
Eu quase disse que gás é melhor, mas me contive. Por um milagre dos céus, ou praga dos infernos, a lágrima que escorreu de um rosto em Belo Horizonte embaçou meus olhos aqui no Rio.
Você, caro amigo leitor, que tem menos de 50 anos, lembre-se de que, para efeito de poupança privada, não dá mais para se confiar em renda fixa, por melhor que seja o fundo. Os japoneses, suíços, dinamarqueses e cidadãos de outros países já perceberam isso há muito tempo.
Já bati muito nesta tecla, mas, para proteção futura, só restou o mercado de ações. Papéis que rendam dividendos. E se eles caírem, melhor. Dá pra comprar mais com o mesmo dinheiro.
Finalmente, há a opção que escolhi. Trabalhar até morrer, economizando todos os meses. Felizmente meu trabalho é escrever livros e artigos e protagonizar séries sobre investimentos. Se carregasse sacos de cimento ou quartos de boi nas costas, o corpo já teria se recusado a continuar.
Com exceção de alguns privilegiados que têm absurdos adquiridos por cláusulas pétreas, aos reles mortais, como a maioria de nós, só resta administrar seu próprio plano de previdência. Assine publicações de quem entende do assunto e seja disciplinado. Siga as instruções. A Inversa, por exemplo, só existe para isso.
Aposentadoria pública para quem não é público era apenas uma ilusão, ilusão barata que saiu cara e faliu. Um cambalacho que a sociedade levou daqueles que deveriam estar cuidando dela.
Meu amigo, aceite a verdade, por mais que ela doa. Agora é cada um por si. Não tem ninguém olhando por todos.
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