Política externa de Bolsonaro deve mirar EUA e Israel
Na via contrária à aproximação com os países ditos "bolivarianos" e ao projeto sul-sul, Bolsonaro já deixou clara sua admiração pelos americanos e israelenses

A política externa do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) será uma espécie de imagem invertida do que foi feito nos governos do PT, no entendimento de colaboradores. Na via contrária à aproximação com os países ditos "bolivarianos" e ao projeto sul-sul, que pretendia criar um núcleo de poder alternativo aos EUA, Bolsonaro já deixou clara sua admiração pelo presidente americano, Donald Trump, e por Israel. Também mostrou restrições à China. E afirmou que não pretende se relacionar com "ditaduras" como a Venezuela.
Toda essa retórica, porém, terá um balizador: a economia. Colaboradores do presidente eleito têm repetido que a atividade econômica e os empregos não poderão se recuperar se o Brasil fechar as portas para novos negócios com outros países. Por isso, Bolsonaro já recuou de sua ideia de mudar a embaixada brasileira em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém, segundo interlocutores. Ele foi advertido que a medida, embora alinhada com o eleitorado evangélico, criaria problemas para as exportações do Brasil para países muçulmanos. Só de carne, são US$ 13 bilhões por ano.
Pela mesma razão, Bolsonaro deixou de lado a ideia de sair do Acordo de Paris, que trata do corte na produção dos gases do efeito estufa, ou de deixar a Organização das Nações Unidas (ONU).
A avaliação dos colaboradores do presidente eleito é que o País abdicou de ter uma política externa dedicada a dinamizar a economia. E é aí que está o centro das propostas em formulação. Bolsonaro já disse que quer acordos bilaterais, trilaterais e multilaterais para fazer mais comércio. E não hesitará em propor mudanças no perfil do Mercosul se esse se mostrar um obstáculo a novos acordos.
Não está descartada, por exemplo, a negociação de um acordo de livre-comércio com os EUA, como sugerida em entrevista ao jornal "O Estado de S. Paulo" pelo ex-conselheiro da Casa Branca Fernando Cutz. Também em entrevista ao jornal, um dos colaboradores de Bolsonaro, o professor de Columbia Marcos Troyjo, disse que não existe "deseconomia" maior do que o baixo volume de trocas entre os dois países.
'Trump tropical'
A ideia da equipe de Bolsonaro é se aproximar dos EUA tendo como porta de entrada o fato de o presidente eleito ter sido apresentado como "Trump tropical" na imprensa internacional. A forma de fazer isso, entretanto, ainda causa discordância. Em 2017, Bolsonaro esteve em Nova York em visitas a agentes do mercado financeiro - no que foi posteriormente reconhecido por sua equipe como uma estratégia eficiente. Já em 2018, em agosto, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente eleito, esteve no país e se encontrou com o ex-estrategista de campanha de Trump, Steve Bannon.
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No Brasil, conselheiros avaliam que é preciso mostrar autonomia e anunciar em 2019 um calendário de visitas aos principais parceiros, e não só à Casa Branca.
Um ex-integrante do governo americano ponderou que Trump é um homem aberto a acordos de comércio, mas não necessariamente de livre acordo. É por isso que a equipe do novo presidente deve perseguir concordâncias pontuais com o americano, em setores com mais chance de que isso dê resultado rápido, como acordos para acabar com casos de bitributação, facilitar o fluxo de pessoas para negócios e sinalizar com o fim das ameaças sobre cotas de importação de aço brasileiro, além de acordos de facilitação de comércio pontuais.
No campo político, os planos são de promover uma mudança. A estrutura do Itamaraty, na avaliação dos colaboradores, está "aparelhada". Diplomatas que ocuparam lugar de destaque nos governos do PT, como o ex-chanceler Celso Amorim e o ex-ministro da Defesa José Viegas são alvos da equipe do PSL. Há também planos para reduzir o número de embaixadas.
De certa forma, o governo de Michel Temer já fez a inflexão agora ambicionada por Bolsonaro. O primeiro chanceler de Temer, o senador José Serra (PSDB-SP), chegou ao posto falando numa modificação do perfil do Mercosul e em abrir novas frentes de negociação. Esse trabalho foi impulsionado pelo atual chanceler Aloysio Nunes (PSDB), que na semana passada estava no Canadá tratando do acordo com o Mercosul.
Foram iniciadas também negociações com Cingapura, Coreia do Sul, Efta (Suíça, Noruega, Luxemburgo e Liechtenstein) e um início de tratativas com o Japão. Foi concluída uma atualização do acordo do Brasil com o Chile e, em 2019, o comércio brasileiro com quase toda a América do Sul terá tarifa zero.
A expectativa na equipe é que Bolsonaro exerça uma diplomacia presidencial mais enfática para fortalecer o combate ao crime na fronteira. Hoje, o combate ao tráfico de drogas e de armas, ao contrabando e à lavagem de dinheiro é feito na forma de cooperação.
Apesar da retórica de campanha, uma ação militar na Venezuela está descartada. Há preocupação com a crise dos refugiados, mas as medidas não deverão ir além do que já vem sendo feito pelo governo, com apoio do Exército: receber os migrantes, cadastrá-los e interiorizá-los.
Ainda se recuperando do atentado sofrido em setembro e com uma cirurgia planejada, Bolsonaro não deverá ter condições de ir ao exterior por alguns meses, mas já faz contatos telefônicos com presidentes.
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