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Luciana Seabra
Advogada do Investidor
Luciana Seabra
É CFP®, especialista em fundos de investimento e sócia da Empiricus

Resposta pública à notificação de Mu Hak You a este portal, sobre Gafisa: não vamos nos calar na defesa do investidor

Reafirmamos nosso compromisso de denunciar ameaças aos ganhos dos minoritários na Bolsa (e recomendamos que você leia este conteúdo enquanto é tempo)

26 de novembro de 2018
16:54 - atualizado às 16:06

Fomos surpreendidos nesta segunda-feira por uma notificação extrajudicial a este portal em nome de Mu Hak You e sua gestora GWI. Nela, os advogados do discreto gestor coreano nos acusam de construir "uma verdadeira empreitada no sentido de desmoralizar, colocar em cheque [sic] e verdadeiramente atingir a figura, imagem e condutas adotadas" por Mu Hak You e pela GWI.

O documento faz referência ao conteúdo publicado no Seu Dinheiro com o intuito de alertar o investidor minoritário de Gafisa sobre os absurdos que têm acontecido na companhia, em especial a duas reportagens.

Não pretendemos atender ao pedido do investidor coreano de retirá-las do ar, mas sugiro que você leia logo para o caso de sofrermos algum revés na justiça: "Como o desrespeitado gestor Mu Hak You tomou o poder na Gafisa" e "Gafisa: por que você deve manter distância desta ação".

A primeira é uma reportagem escrita pela jornalista Ana Ragazzi, com a propriedade de quem cobre o mercado de capitais brasileiro há 20 anos. E a segunda, uma coluna de Daniel Malheiros, CFA e especialista em mercado imobiliário.

Sobre razoabilidade

Mu Hak You e seus advogados alegam que o tom das matérias produzidas extrapolam totalmente os padrões de razoabilidade aplicáveis à atividade jornalística. No nosso entendimento, é o comportamento do gestor que extrapola os padrões de razoabilidade aplicáveis à atuação no mercado de capitais. E, por isso, cumprimos nosso papel de jogar luz sobre ele.

No dia 25 de setembro, Mu Hak You tomou o controle da Gafisa, destituiu o conselho de administração da empresa e elegeu um novo, em que ocupa cinco das sete cadeiras.

Do dia para a noite, as 10 mil pessoas físicas que investiram na empresa passaram de acionistas de uma companhia de capital pulverizado a minoritários, sem direito de escolha, conforme destacou a Ana Ragazzi em sua reportagem. Isso porque, em janeiro de 2018, com 27% das ações da Gafisa, a GWI chamou uma assembleia para alterar uma cláusula do estatuto da empresa, o que claramente viria a prejudicar os minoritários em seguida.

Em companhias sem a figura de um controlador, essa cláusula costuma definir que se um acionista alcançar um percentual relevante de ações, que na prática lhe dê a capacidade de definir os rumos do negócio, ele deve fazer uma oferta por toda a companhia, acrescida de um prêmio. A GWI conseguiu elevar de 30% para 50% esse percentual, se eximindo de ter que recompensar o minoritário pelo rearranjo inesperado.

Jogo de datas

A "condenável atuação" deste portal, segundo a notificação, veio a atingir seu auge com a publicação da matéria "Na (imprudente) recompra de ações da Gafisa, quem vende é Mu Hak You".

De acordo com o documento, o material publicado no Seu Dinheiro parte de acusações precipitadas e falsas, já que "a GWI não apenas manteve sua posição relevante na Gafisa ao longo dos últimos meses, como veio à [sic] adquirir novas ações ao longo do mês de novembro, chegando ao percentual atual de 42,47% das ações ordinárias da Companhia".

De fato, uma pesquisa no site da B3 mostra a posição de 42,27% para a GWI, declarada em 12 de novembro. Quando a reportagem foi escrita, entretanto, no dia 6 de novembro, o site mostrava uma posição acionária na empresa, atualizada em primeiro de novembro, de 32,07%. Um pouco antes, em 23 de setembro, a GWI havida declarado, em comunicado, deter 37,32% da Gafisa. Ou seja, houve sim uma venda de ações ao longo de outubro por parte da gestora, conforme publicado.

É possível encontrar, no site da CVM, as informações do formulário de referência da Gafisa. Tanto no dia primeiro de novembro quanto no dia 5 de novembro, houve atualizações que destacam a fatia de 32,07% (a que estava informada no site da B3, atualizada em primeiro de novembro e que foi usada na reportagem) para a GWI.

O período de venda coincide com o de recompra pela companhia, constatou a reportagem, fruto de um trabalho competente da jornalista Ana Ragazzi. Para chegar a tal conclusão, ela observou o relatório de negociações com valores mobiliários da construtora realizados por pessoas ligadas à companhia, tais como controladores, conselheiros e diretores. Esse documento é obrigatoriamente divulgado mensalmente pelas companhias abertas, conforme determina a Instrução CVM 358.

A Gafisa, nesse formulário, divulgou apenas as informações referentes às ações em tesouraria da empresa. Houve um aumento bastante relevante nessa posição no mês de outubro. Em setembro, a Gafisa possuía 1,94% de ações em tesouraria; em outubro, essa fatia subiu para 8,98%. A alta seria possivelmente explicada pela recompra de ações anunciada pela empresa. Essa recompra foi uma das primeiras medidas anunciadas pela gestora GWI ao assumir o controle da companhia.

A recompra foi questionada pelo mercado porque a Gafisa e o setor de construção no Brasil não vivem um bom momento e, dias depois, a empresa anunciou que iria suspender pagamentos a fornecedores. Se não havia dinheiro para fornecedores, como seria possível haver dinheiro para recomprar as próprias ações?

A recompra poderia ser útil para manter as cotações das ações da Gafisa e o maior interessados nisso seria o fundo GWI, principal acionista da empresa.

Direito de resposta

Ao longo do processo, a jornalista ligou mais de uma vez para a assessoria de imprensa da Gafisa e enviou e-mails explicando todas as informações disponíveis e dúvidas. Ela ressaltou que queria entender se a GWI havia ou não vendido ações durante a recompra – pois esta era uma grande dúvida do mercado.

A assessoria retornou informando que a empresa não iria se manifestar porque estava em período de silêncio pela divulgação do balanço.

Logo, a reportagem usou informações públicas disponíveis e procurou a empresa informando com toda a clareza quais eram as dúvidas do mercado e a necessidade de esclarecimento, por se tratar de assunto bastante sensível.

Quero registrar aqui que mantemos o canal aberto para Mu Hak You e seus sócios na GWI caso ainda queiram nos contar os planos para o futuro da Gafisa.

O que diz o passado

A notificação recebida defende uma tentativa reiterada do Seu Dinheiro de tachar Mu Hak You como "indivíduo supostamente de trajetória negativa". Reiteramos: o investidor coreano tem uma reputação bastante negativa no mercado, tanto nas tentativas de tomar o controle de uma empresa brasileira, quanto na própria gestão de fundos.

No mercado de fundos, Mu Hak You e sua gestora já trouxeram prejuízos a investidores ao alavancar posições em Bolsa, tornando-se um emblemático e raro caso em que o cotista do fundo não somente perdeu o dinheiro investido como foi chamado a aportar mais para cobrir o prejuízo com a operação irresponsável.

Veja abaixo o gráfico que mostra a derrocada. O fundo chegou a ter patrimônio de R$ 391,82 milhões.

Como diretora de conteúdo do Seu Dinheiro, informo nesta carta pública a Mu Hak You e aos gestores da GWI que manteremos o conteúdo no ar, ao menos enquanto nos for permitido judicialmente, sem retratação.

Aproveito para reforçar aqui nosso compromisso em denunciar comportamentos que colocam em risco os ganhos do investidor pessoa física em Bolsa. E destaco que usaremos a linguagem necessária para alertar o minoritário sobre tais ameaças.

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