“Não é a inflação nem a guerra”: Stuhlberger revela o risco que realmente ameaça os mercados globais
Gestor do lendário fundo Verde vê pressão fiscal crescente no mundo e diz que a dívida pública deve continuar no centro das atenções

Não é a inflação, tampouco a guerra. Para Luis Stuhlberger, um dos gestores mais respeitados do mercado brasileiro, o maior risco para a economia global hoje atende por outro nome: fiscal.
Enquanto investidores acompanham os desdobramentos dos conflitos internacionais e tentam antecipar os próximos passos dos bancos centrais, o fundador da Verde Asset e gestor do lendário fundo Verde vê um problema mais profundo ganhando força nos bastidores.
Para ele, a grande ameaça está no cenário de governos cada vez mais endividados, déficits persistentes e uma pressão fiscal capaz de manter os juros elevados por muito mais tempo do que o mercado gostaria.
"O grande problema que o mundo vai enfrentar não é inflação, guerra ou crise. É dívida pública", disse Stuhlberger, em evento online da Avenue nesta terça-feira (2).
Para Stuhlberger, governos ao redor do mundo vêm ampliando gastos de forma consistente, pressionando as contas públicas e dificultando uma queda mais relevante dos juros de longo prazo.
Na visão do gestor, esse fenômeno ajuda a explicar por que, mesmo após o arrefecimento da inflação em várias economias, os mercados continuam exigindo prêmios elevados para financiar governos por prazos mais longos.
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O problema fiscal do Brasil
Segundo Stuhlberger, o Brasil enfrenta um quadro delicado de crescimento da dívida pública, resultado da combinação entre gastos elevados e dificuldades para gerar superávits consistentes.
"Temos um problema fiscal gravíssimo e uma dívida que cresce muito no Brasil", afirmou.
O gestor destaca que, com despesas equivalentes a cerca de 38% do Produto Interno Bruto (PIB), desconsiderando os juros da dívida, e arrecadação em patamar semelhante, a trajetória fiscal continua pressionada.
Segundo ele, mesmo com aumento de receitas, o governo precisaria buscar aproximadamente R$ 40 bilhões adicionais por ano para estabilizar as contas públicas.
Eleições brasileiras no radar
Com eleições presidenciais já batendo à porta, Stuhlberger prevê que a continuidade da atual política fiscal poderia prolongar esse quadro nos próximos anos.
"O que o Lula está fazendo agora é uma barbaridade inacreditável com nosso dinheiro", afirmou, criticando a estratégia econômica do governo.
Na visão do gestor, a percepção de fragilidade fiscal também ajuda a explicar o nível elevado dos juros brasileiros.
As apostas do Fundo Verde hoje
Questionado sobre o posicionamento do Fundo Verde diante desse cenário, Stuhlberger afirmou que a maior parte da carteira permanece atrelada ao CDI.
Segundo o gestor, o fundo evita estratégias excessivamente concentradas ou altamente alavancadas em apostas direcionais de juros e moedas. "O que não fazemos no Verde é play alavancado em juro e câmbio", disse.
Já em relação ao patrimônio pessoal, o gestor afirmou manter aproximadamente 70% dos recursos investidos no exterior e 30% em ativos brasileiros.
Stuhlberger aposta em trégua no Oriente Médio
Além das preocupações fiscais, Stuhlberger também comentou o cenário geopolítico. O gestor afirmou acreditar na possibilidade de uma trégua no conflito no Oriente Médio pelo menos até a realização da Copa do Mundo de 2026, cuja abertura está marcada para 11 de junho nos Estados Unidos.
Segundo ele, o período de menor tensão poderia se estender até as eleições legislativas de meio de mandato nos EUA, previstas para novembro.
A avaliação está ligada ao impacto político do conflito sobre a popularidade do presidente dos EUA, Donald Trump.
Na leitura do gestor, diferentemente de outros episódios militares que fortaleceram governos norte-americanos, o atual conflito tem produzido desgaste político para a Casa Branca.
"Se algo não for feito, o Partido Republicano corre o risco de perder a Câmara dos Deputados e o Senado", afirmou.
Guerra, inflação e juros
Apesar da atenção dada ao conflito, Stuhlberger considera que os impactos econômicos da guerra foram mais relevantes para os preços do que para a atividade econômica global.
Segundo ele, houve pressão sobre commodities energéticas e alguns bens industriais, mas não uma disseminação inflacionária suficientemente forte para alterar estruturalmente o cenário global.
"Há inflação de petróleo e bens industriais, mas salários e aluguéis estão sob controle", afirmou.
Para o gestor, a economia mundial continua contando com um importante fator desinflacionário. "Vivemos em um mundo em que a Ásia continua sendo uma grande exportadora de deflação", diz.
*Com informaões do Estadão Conteúdo.
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