Menu
Angela Bittencourt
Blog da Angela
Angela Bittencourt
é jornalista e editora da Empiricus
2019-07-26T15:58:13-03:00
taxa de juros no centro das discussões

O dilema de Tostines dos bancos centrais: o juro cai porque a economia não cresce ou ela não cresce porque o juro não cai?

BC e Fed decidem juro na quarta-feira. Mercados esperam corte para frear desaceleração econômica, mas instrumento taxa de juro revela esgotamento

26 de julho de 2019
15:06 - atualizado às 15:58
Frame de campanha publicitária da Tostines nos anos 80
Frame de campanha publicitária da Tostines nos anos 80 - Imagem: Reprodução/YouTube

Tostines é fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é fresquinho? Esse era o mote de uma propaganda que encantava as crianças alucinadas por biscoitos anos atrás e, de quebra, levava os pais a refletirem sobre a origem de tudo. Eu e meu marido sempre voltávamos às histórias do nosso passado quando algum dos meninos disparava a frase que, penso, se aplica aos principais eventos previstos para a virada do mês: as reuniões de política monetária do Banco Central do Brasil e do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos.

Na próxima quarta-feira (31), o Copom cortará a taxa de juro porque a economia não cresce ou a economia não cresce porque o juro não cai, embora em recorde de baixa, 6,50%, há um ano e meio? Às vésperas da reunião de política monetária, 98,2% ou 54 economistas -- da amostra de 55 ouvidos pela Broadcast/Agência Estado -- dão como certo o corte da taxa Selic. Praticamente meio a meio projetam queda de 0,25 ponto percentual e de 0,50 ponto. Parece improvável que o comitê mantenha a taxa inalterada por mais tempo. Desde março do ano passado, a Selic não sai do lugar.

O BC deve aproveitar a grande oportunidade que inflação tão comportada proporciona e colocar a taxa básica brasileira em outro patamar. Embora Selic mais e mais baixa não se traduza em custo de crédito proporcionalmente mais barato, juro menor sempre funciona. É uma questão de tempo. Contudo, supor que a redução da Selic vai fazer milagre e puxar o crescimento, a mim parece insensato. Em quase três anos do último ciclo de baixa, a Selic caiu à metade e não fez cócegas no ritmo de atividade. O baixo crescimento da economia brasileira tornou-se estrutural.

Agenda reformista

Daí a importância da agenda reformista do governo Bolsonaro e a necessidade de que ela se aprofunde como pretende o ministro da Economia, Paulo Guedes, que certamente sabe da velocidade em que corre o calendário. Na semana que vem, Jair Bolsonaro dá partida ao sétimo mês do seu mandato e a reforma da Previdência em breve será questão superada. Iniciativas importantes, talvez até mais relevantes no curto prazo, não podem ficar para depois, inclusive, porque o capital político de um novo governo tende a encolher a partir do segundo ano.

Na próxima semana, terminam as férias de deputados e senadores. A reforma da Previdência já passou na votação em primeiro turno na Câmara, voltará à pauta para votação em segundo turno – em 6 de agosto – e seguirá para o Senado. No fim de setembro, essa reforma poderá ser conjugada no passado. A redução da Selic – ainda que apenas em 0,25 ponto – pelo Banco Central de Roberto Campos Neto será um incentivo para o Congresso tocar a bola adiante, dando um upgrade na reforma tributária que provocará, sem dúvida, grandes embates nas duas Casas do Congresso.

Também na quarta-feira, o Federal Reserve, o BC dos EUA, cortará a taxa de juro, embora desaceleração do Produto Interno Bruto (PIB) anualizado de 3,1% no primeiro trimestre para 2,1% na primeira estimativa para o segundo trimestre – como anunciado na sexta-feira – não seja exatamente um tombo.

O prólogo das próximas decisões do BC do B e do Fed é o mesmo, você notou? Ambos poderão, inclusive, reduzir suas taxas básicas na mesma batida: 0,25 ponto percentual. Mas será que essa aparada no custo do dinheiro será suficiente para aplacar as pressões dos mercados que veem espaço maior para o balizamento dos juros, na torcida de que só assim nossa economia avançaria e a dos EUA permaneceria em céu de brigadeiro? Porque, nos EUA, 2,1% de PIB não é algo ruim, já nós com 0,8%...

Para baixo ninguém segura

Os bancos centrais vêm mostrando, porém, que taxa de juro não é remédio para fraqueza econômica. Rodadas sucessivas de afrouxamento monetário prometem esquentar, sim, os debates sobre o papel dos BCs e questionar cada vez mais a eficiência da  taxa de juro para impulsionar ou frear a atividade. Num mundo cada vez mais tecnológico, a disputa entre as economias não se estabelecerá sobretudo pela produtividade? Num mundo desinflacionário, as metas de inflação ajudam ou atrapalham?

Com o instrumento taxa de juro praticamente esgotado –  refinanciamento em 0% desde 2015 –, o Banco Central Europeu (BCE) decepcionou os mercados na última quinta-feira. A instituição não embarcou em território negativo, mas acenou com novos programas de compra de ativos em mercado. Em outras palavras, o BCE usará oferta de moeda como fizeram os principais bancos centrais na esteira da crise financeira de 2008/2009 – expandindo a liquidez – para afrouxar ainda mais a política monetária e, com sorte, dar um gás na zona do euro. De março de 2015 a dezembro de 2018, o BCE injetou 2,6 trilhões de euros na economia, informa o site CentralBankNews que faz o monitoramento de 90 bancos centrais em todos os continentes.

Informação relevante, principalmente pela sinalização, traz o CentralBankNews sobre a movimentação das autoridades monetárias. Nos últimos 12 meses até a semana passada, os bancos centrais promoveram 62 cortes em suas taxas básicas e 64 aumentos. Esse placar não retrata 62 ou 64 bancos centrais, mas movimentos que confirmam a tendência global de alívio monetário. O empate técnico de 62 reduções de juro e 64 altas é ilusório. Não pense, portanto, que está tudo no mesmo lugar. Neste ano, ocorreram 57 dos 62 cortes de taxas básicas observados nos últimos 12 meses e apenas 14 aumentos dos 64 contabilizados.

Quer nossas melhores dicas de investimentos de graça em seu e-mail? Cadastre-se agora em nossa newsletter
Quer nossas melhores dicas de investimentos de graça em seu e-mail? Cadastre-se agora em nossa newsletter
Comentários
Leia também
OS MELHORES INVESTIMENTOS NA PRATELEIRA

Garimpei a Pi toda e encontrei ouro

Escolhi dois produtos de renda fixa para aplicar em curto prazo e dois para investimentos mais duradouros. Você vai ver na prática – e com a translucidez da matemática – como seu dinheiro pode render mais do que nas aplicações similares dos bancos tradicionais.

A terceira onda. Um novo milagre econômico vem por aí?

Tudo indica que um novo bull market das commodities esteja começando. E, como das outras vezes, isso será extremamente benéfico para o Brasil

Oxford Economics eleva previsão de crescimento do PIB do Brasil em 2020 para 2%

Casa avalia que as recentes tarifas sobre o aço e alumínio brasileiro não devem atrapalhar a recuperação da atividade, que vem ganhando fôlego

Marfrig confirma oferta subsequente de ações que pode somar R$ 3,3 bi

A oferta será primária e inclui um lote secundário, para a venda de ações detidas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES)

BLACK WEEK

MAIS LIDAS: Quem bombou na Black Friday?

Meus vizinhos se empolgaram na Black Friday. E não foram só eles: os números do varejo mostram um crescimento considerável na edição deste ano

Ex-presidente da Bayer no Brasil cria startup de cannabis

Em voo solo, há quase um ano e meio, empresário prepara-se para voltar ao setor, desta vez em um segmento em franco crescimento

Calças curtas

Por que o bilionário Elon Musk tem “pouco” dinheiro

A maior parte do patrimônio do bilionário sul-africano está colocada nos mesmos cavalos. Entenda

E o ano nem acabou!

Fundos imobiliários e ações já têm captação recorde em 2019

Volumes captados por fundos imobiliários e ofertas de ações até novembro deste ano já são os maiores das suas séries históricas, segundo dados da Anbima

DE OLHO NA CARNE

Ministério da Agricultura diz que preço da carne caiu 9% desde início do mês

A ministra Tereza Cristina ressaltou que o preço da proteína está se ajustando e que deve se estabilizar

SEU DINHEIRO NA SUA NOITE

A segunda vida da bolsa

Entre as muitas histórias geniais de Machado de Assis, uma das minhas favoritas é um conto chamado “A Segunda Vida”, sobre um homem que diz ter morrido e voltado para uma nova existência aqui na Terra. O escritor se vale de uma premissa que parece sobrenatural para tratar de um tema bem próximo de todos […]

MARCO DO SANEAMENTO

Para BNDES, não faltam recursos para o Brasil investir no setor de saneamento

Montezano afirmou que o novo marco regulatório do saneamento, que está tramitando no Congresso, vai abrir uma nova fase no banco

Carregar mais notícias
Carregar mais notícias
Fechar
Menu
Advertisements