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2019-08-07T12:36:05-03:00
Eduardo Campos
Eduardo Campos
Jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo e Master In Business Economics (Ceabe) pela FGV. Cobre mercado financeiro desde 2003, com passagens pelo InvestNews/Gazeta Mercantil e Valor Econômico cobrindo mercados de juros, câmbio e bolsa de valores. Há 6 anos em Brasília, cobre Banco Central e Ministério da Fazenda.
O império do meio

Na disputa entre EUA e China, aposte nos dois cavalos, diz Ray Dalio

Gestor da Bridgewater faz uma avaliação histórica da ascensão e declínio dos impérios econômicos e diz que guerra comercial é sintoma de um conflito maior

7 de agosto de 2019
12:36
Cavalos Corrida – EUA e China
Imagem: Montagem Andrei Morais / Shutterstock

A última vez que falei de Ray Dalio, trouxe sua avaliação sobre uma mudança de paradigma na economia mundial e como o investimento em ouro seria algo interessante dentro desse novo mundo. Agora, Dalio nos apresenta sua leitura do contexto histórico dessa guerra comercial entre China e Estados Unidos. O que ele nos diz é que todo portfólio de investimento tem que ter alguma posição em China.

De fato, ao ver sua última entrevista, a frase que mais chama atenção e que está sendo destacada nos sites de finanças ao redor do mundo é: “Aposte nos dois cavalos”, ou seja, tenha posições tanto nos EUA quanto na China, pois a diversificação é ponto mais relevante dentro de qualquer estratégia de investimento.

Mas ao ouvir seus argumentos e principalmente os dados trazidos por ele, que tem contato com a China há décadas, podemos inferir que Dalio teria mais fichas no cavalo chinês. O “império do meio” vai tomar, se já não tomou, o lugar da América.

Ray Dalio, gestor da Bridgewater, uma das maiores gestoras do mundo com US$ 160 bilhões em ativos - Imagem: Print youtube

“Quero que as pessoas vejam a China de forma objetiva. Sei que nos últimos anos estou muito pró-China e as pessoas questionam meu otimismo. Sei que é algo controverso. Mas quero que entendam que estou sendo sincero. Eu estive lá e espero que saibam que meu objetivo é ser o mais apurado o possível. Eu realmente admiro o que está sendo feito. Quero fazer parte disso e penso que nossos investidores devem fazer parte disso”, diz Dalio.

Ascensão e declínio

Dalio explica que essa guerra comercial, que está caminhando para guerra cambial, entre os EUA e a China faz muito sentido dentro um contexto histórico.

Ele estudou o surgimento e declínio de grandes impérios econômicos e suas moedas de reserva em espaços de 100, 500 e 1.000 anos e afirma que sempre que há um poder nascente desafiando um poder estabelecido, há um conflito.

Em grandes linhas, há uma guerra entre os poderes nascentes e estabelecidos, depois segue-se um período de paz, até que surja um novo desafiante. Segundo Dalio, essa dinâmica se repetiu 16 vezes ao longo dos últimos 500 anos e em 12 delas tivemos guerras no sentido clássico. A questão é como lidar com isso.

Objetivamente, Dalio criou seis quesitos para mensurar o “poder” das nações ao longo do tempo:

  1.  tecnologia e educação
  2. Crescimento econômico
  3. Comércio
  4. Força militar
  5. Relevância do setor financeiro
  6. Status de moeda de reserva

Definidos os parâmetros, Dalio criou uma medida objetiva para fazer avaliações ao longo do tempo. Exemplo: Holanda nos anos 1600. Tecnologia de navegação permitiu acumulação de recursos, aumento do comércio (eles respondiam por 50% do comércio mundial com a Companhia das Índias), depois ampliaram o poder militar, criaram sofisticados mecanismos financeiros (bolsa de valores, derivativos e seguros), com Amsterdam sendo o centro financeiro do mundo, e sua moeda virou reserva.

Na sequência dos holandeses, vieram os ingleses, que começaram tendo navios construídos na Holanda, aperfeiçoaram a tecnologia, entraram para o comércio mundial (conquista das Índias), montaram um exército duas vezes maior que o holandês e assim por diante.

Esses movimentos “são um clássico”, diz Dalio, que detalha essa mesma ‘linha do tempo’ em um gráfico destacando os EUA e a China. Note que até 1500 a China foi dominante, mas perdeu protagonismo para os EUA de 1800 em diante. Agora eles voltam a se encontrar.

“Pense nisso. Você não queria ter investido com os holandeses? Você não queria ter investido na Revolução Industrial e no Império Britânico? Ou nos EUA e seu império?”, argumenta Dalio.

Para o Gestor, a grande coisa a se fazer é ir onde o crescimento está e ter uma posição diversificada é a coisa mais inteligente a se fazer. Os mercados, diz Dalio, estão sempre antecipando coisas boas e ruins. Se você esperar as coisas boas se cristalizarem, você vai pagar um preço mais alto. Melhor, então, se adiantar.

A grande pergunta

Para Dalio, ‘the big question” é se vamos ter uma guerra entre EUA e China. Ele não crê em uma guerra clássica, mas sim em uma reestruturação mundial, que passa pelo domínio da tecnologia.

“Não acho que isso signifique que não teremos evolução da China ou dos EUA. Por isso acredito que essa diversificação é boa. Agora é o momento em que você pode se adiantar ou ficar atrasado”, resume.

Para Dalio é melhor se adiantar e como motivo prático, ele diz que a China terá participação cada vez mais relevante nos índices de ativos globais, como o MSCI, e essa participação vai continuar aumentando. O investimento pode ser feito, segundo ele, via fundos (venture capital e private equity) ou mesmo diretamente para quem tiver essa possibilidade.

Tá, mas e o risco?

Questionado sobre os riscos de se investir na China, Dalio afirma que todos os mercados têm seus riscos particulares. Então, essa é uma discussão de riscos relativos.

Para ele, a Europa é região mais arriscada, pois a política monetária não tem tração para lidar com o baixo crescimento, há maior fragmentação política e a região não participa da atual revolução tecnológica.

Os EUA também são “muito arriscados”, por uma combinação de disparidade de renda, sistema político, conflito entre socialismo e capitalismo e dúvidas sobre a potência da política monetária e sustentabilidade da política fiscal.

A China tem seus riscos particulares, mas Dalio acha que eles são menores do que os presentes em outros mercados. Nesse ponto, ele volta a dizer que: “o mais arriscado de tudo é não ter uma boa diversificação entre os mercados”.

Para Dalio, uma vantagem da China é a maior capacidade para lidar com as políticas fiscal e monetária em comparação com os EUA. É essa vantagem que deixa a relação risco/retorno mais favorável aos chineses.

Aliás, uma das grandes preocupações o gestor, como já sabemos pelo seu “novo paradigma”, é a falta de capacidade das economias ocidentais em fazer políticas monetárias que funcionem quando as taxas de juros estiverem em zero e as políticas de afrouxamento quatitativo e monetização de dívida deixarem de funcionar.

“Acho que não investir na China é muito arriscado. Pense nisso. Estamos tendo essa ascensão da China e você, realmente, quer tomar a decisão de não investir lá? De não estar lá no futuro?.”

“Mas a China é uma ditadura comunista”, o leitor que chegou até aqui pode argumentar, da mesma forma que eu me questionei. Sobre isso, Dalio diz apenas que a decisão de lidar com um sistema autocrático é uma escolha pessoal, mas que não se deve olhar isso como um impedimento, “tem que olhar o quadro geral”.

Perguntado sobre o que teremos em 10 ou 15 anos, Dalio disse que não é possível antecipar muitas coisas, além da inevitável demografia. Mas que fez alguns trabalhos de projeção que colocam a China como maior economia do mundo, líder de comércio mundial e maior mercado de ações em capitalização de mercado (veja abaixo).

A íntegra da entrevista está nesse link.

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