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2018-10-11T11:11:38+00:00
Eduardo Campos
Eduardo Campos
Jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo e Master In Business Economics (Ceabe) pela FGV. Cobre mercado financeiro desde 2003, com passagens pelo InvestNews/Gazeta Mercantil e Valor Econômico cobrindo mercados de juros, câmbio e bolsa de valores. Há 6 anos em Brasília, cobre Banco Central e Ministério da Fazenda.
Câmbio

Dólar espera o próximo grito de “corra!”

Do pessimismo, a R$ 4,20, ao otimismo, a R$ 3,70, moeda busca acomodação. Isso se o cenário externo deixar

11 de outubro de 2018
6:01 - atualizado às 11:11
corrida largada
Atletas em corrida de 100 metros e, Chelyabinsk, na Russia - Imagem: Shutterstock

Mas e o dólar, hein? Será que cai mais? Sendo sincero, não sei e dificilmente alguém sabe com certeza. O que se pode falar com alguma humildade, pois o câmbio humilha a todos sem dó, é que do pessimismo, a R$ 4,20, ao alívio, na linha de R$ 3,70, o dólar parece buscar um ponto de acomodação, mesmo que breve.

Com o que se tem de informação até o momento será difícil observar algum movimento como a queda de quase 12% das últimas semanas. Salvo, claro, algo muito fora do script. O dólar está esperando alguém gritar: “corre para entrada” ou “corre para saída”. (Hedge do autor: Se o terror visto no mercado externo ontem se repetir hoje esse grito pode ficar mais próximo de acontecer)

O dólar a R$ 4,20 carregava um prêmio de incerteza chamado Fernando Haddad. Esse prêmio saiu do preço com o resultado das eleições. Agora, segundo o economista-chefe da Quantitas Asset Management, Ivo Chermont, novas informações precisam ser incorporadas para um novo movimento de preço.

A cotação atual, ao redor de R$ 3,75, carrega a probabilidade atribuída à vitória de Jair Bolsonaro no segundo turno. Digamos que essa probabilidade esteja na faixa dos 80%. Assim, a confirmação do evento até poderia trazer o dólar um pouco mais para baixo. Só que essa é sempre uma questão relativa. Pois saindo de cena a eleição em si, entra com maior peso a questão política, que também já se reflete na formação de preço.

É o que Chermont chama de probabilidade de o governo dar certo. Dentro dessa análise estão as avaliações sobre composição de ministérios, condução da política econômica e lideranças que incorporem a agenda liberal do candidato.

O economista da 4E Consultoria Bruno Lavieri também avalia que, neste momento, o mercado enxerga uma chance aumentada de Bolsonaro vencer e tem dado voto de confiança no desempenho econômico do candidato.

Para Lavieri, no entanto, esse otimismo já está um pouco além do que se imaginaria em condições normais. Por isso o especialista acredita que o dólar tem espaço para voltar para a linha dos R$ 3,90 até o fim do ano, caso um quadro positivo para o governo não se materialize.

“Talvez seja muito cedo para fazer apostas mais agressivas. Apesar da relativa euforia, o mercado não quer colocar as fichas em um cenário de apreciação do real. Faz sentido que isso aconteça de forma gradual”, diz Lavieri.

O freio de mão externo

O responsável pela mesa institucional de futuros da Genial Investimentos, Roberto Motta, acredita que reposicionamento dos agentes locais e externos em função do cenário eleitoral ainda não acabou. O que está freando o movimento de alta da Bolsa e queda do dólar é essa acentuada piora externa.

Os últimos dias têm sido de revés internacional, com queda acentuada das bolsas em Wall Street e elevação dos juros americanos. O mercado ainda tenta entender se a alta do Treasury capta a solidez da economia, se são credores pedindo mais prêmio para financiar a dívida americana ou se é um prenúncio do fim do mundo.

O que sobe nesses momentos é o VIX, que ficou conhecido como “índice do medo”. O indicador disparou mais de 40% ontem, e voltou para patamares não vistos desde o começo do ano.

Segundo Motta, o ambiente externo está “sombrio” de uma forma que há tempos não se via. Se esse quadro se perpetuar, o dólar deve voltar para o intervalo de R$ 3,8 a R$ 3,9.

Agora, se o quadro externo permitir, e o mercado receber bem as notícias com relação à equipe e ocorrer uma melhora de comunicação com relação às reformas, notadamente Previdência, Motta acredita que o dólar poderia recuar até a linha dos R$ 3,6.

O especialista lembra que o investidor estrangeiro está “pouco aplicado” em Brasil e que a configuração de um quadro positivo seria gatilho para um realinhamento de portfólio, com bolsa rapidamente a 100 mil pontos e dólar a R$ 3,6.

Follow the money

Essa história de maior cautela ou cenário de acomodação de preço também é contada pelas posições no mercado futuro. É lá que a mágica da formação de preço acontece, pois o dinheiro grosso está lá.

Depois de uma firme movimentação nos primeiros dias da semana passada, bancos, estrangeiros e fundos de investimento estavam com posições praticamente estacionadas em contratos de dólar futuro e cupom cambial (DDI, juro em dólar no mercado local).

Os estrangeiros seguiam comprados em cerca de US$ 38 bilhões. Os bancos e fundos estão vendidos em US$ 19 bilhões e US$ 21 bilhões, respectivamente. Podemos falar em aposta de alta (comprado) e de queda (vendido), mas sempre fazendo ressalva, pois não sabemos a que preço a posição foi montada e nem se esses agentes têm posições à vista e em derivativos de balcão.

É dessa posição cautelosa do estrangeiro que se extrai a perspectiva de queda do dólar em caso de cenário positivo tanto aqui quanto lá fora.

O que podemos deixar de lado sem medo de errar é a movimentação do dólar à vista, pois o volume de entradas e saídas pela conta comercial e financeira no momento atual é ínfima perto do que se movimenta nos futuros da B3.

Mas e o Banco Central?

Por mais que se pense o contrário, não é o patamar de preço que promove intervenção cambial. É claro que o BC observa a cotação, mas não pode e nem consegue determinar pisos e tetos. É a dinâmica de formação de preço que faz o BC entrar para tentar acalmar os ânimos.

Em alguns momentos, por variadas razões, compradores e vendedores deixam de se entender e o mercado fica disfuncional. Vimos isso acontecer em junho, quando greve dos caminhoneiros, problemas na Argentina e em outros emergentes levaram o BC a fazer leilões de swap cambial, que equivalem à venda de dólar futuro, pela primeira vez desde o “Joesley day”, em maio de 2017.

Um dos indicadores que podem sugerir pontos de entrada do BC é a volatilidade do mercado, ou seja, quanto e em que em velocidade os preços estão oscilando. Considerando uma média de cinco dias, essa medida está na casa dos 20 pontos, ainda distante dos 50 vistos na última intervenção. Mesmo quando o dólar foi a R$ 4,20 não houve uma disparada de volatilidade, o preço foi subindo "devagar e sempre".

No momento atual, o BC continua rolando os contratos de swap que ofereceu ao mercado. Está com atuação neutra, não coloca nem tira liquidez. No caso de queda acentuada do dólar, a primeira coisa que o BC pode fazer é abandonar as rolagens e deixar os contratos vencerem. Se não for suficiente, pode fazer o swap reverso, comprando dólar no mercado futuro. Em caso extremo pode até comprar dólar à vista, algo que não se vê desde abril de 2009. Agora, se a situação externa azedar de vez, basta aliar as rolagens com a venda de novos contratos de swap e, no limite, vender dólar à vista.

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