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Olivia Bulla
Olivia Bulla
Olívia Bulla é jornalista, formada pela PUC Minas, e especialista em mercado financeiro e Economia, com mais de 10 anos de experiência e longa passagem pela Agência Estado/Broadcast. É mestre em Comunicação pela ECA-USP e tem conhecimento avançado em mandarim (chinês simplificado).
A Bula do Mercado

Mercado dividido entre estímulo e crescimento

10 de janeiro de 2019
5:42
Fracasso nas negociações comerciais prejudica atividade global e ofusca tom suave do Federal Reserve

O mercado financeiro ainda não sabe qual caminho trilhar em 2019. De um lado, os investidores redobram a cautela em relação ao impacto da guerra comercial na atividade econômica global, após a declaração decepcionante sobre a questão comercial sino-americana e dos dados fracos sobre a inflação na China.

De outro, os ativos de riscos - emergentes, principalmente - tentam tirar proveito da retórica mais suave (“dovish”) do Federal Reserve em relação à condução da taxa de juros norte-americana neste ano, após a ata da reunião de dezembro, divulgada ontem, mostrar insegurança quanto à necessidade de novos apertos.

Nessa encruzilhada, os investidores ficam sem rumo. Afinal, a ausência de progresso em temas delicados nas negociações entre Washington e Pequim mostra que as expectativas por um desfecho comercial rápido estavam sendo construídas “no vazio” e as duas maiores economias do mundo seguem em embate.

Ainda se espera avanços em áreas problemáticas, como os subsídios chineses às empresas e a proteção à propriedade intelectual. Além disso, o presidente Donald Trump enfrenta dificuldades internas para encerrar a paralisação do governo (shutdown), que entra hoje no vigésimo dia e pode impactar a economia.

O republicano deixou ontem um encontro na Casa Branca com líderes da oposição, alegando que a discussão era uma total “perda de tempo”. Ele culpou os democratas de não estarem dispostos em negociar, enquanto insistia na verba para a construção de um muro. Para Nancy Pelosi, a abordagem de Trump foi “patética”.

Risco em baixa

Diante de tantos reveses, o mercado financeiro não consegue se escorar apenas na possibilidade de manutenção da política monetária do Fed neste ano, sob a égide de menor escassez de recursos. O receio com a desaceleração econômica pesa e inibe o apetite por risco entre os investidores, aguçando a volatilidade.

As principais bolsas asiáticas fecharam em queda, sendo que as perdas foram lideradas por Tóquio (-1,3%), após Xangai e Hong Kong diminuírem a desvalorização e encerrarem com leves baixas. Além da falta de detalhes sobre os próximos passos entre Estados Unidos e China, pesaram os dados chineses.

O índice de preços ao produtor chinês (PPI) desacelerou fortemente em dezembro, a +0,9%, ante alta de 2,7% em novembro, em base anual, sugerindo uma demanda mais fraca no atacado em meio à perda de tração da atividade. A previsão era de alta de 1,5%.

Da mesma forma, a inflação ao consumidor chinês (CPI) subiu 1,9% no mês passado, menos que o avanço de 2,2% no mês anterior, no ritmo mais lento de alta dos preços no varejo em seis meses. O resultado ficou abaixo da estimativa de +2,1%.

Esse números mostram o desafio da China para impulsionar a demanda, em meio à perda de tração da atividade, e também ecoam no Ocidente. Os índices futuros das bolsas de Nova York amanheceram no vermelho, o que penaliza o desempenho das principais praças europeias.

As commodities também perdem força, com o petróleo devolvendo a alta recente, mas o WTI segue acima da faixa de US$ 50 e o Brent, de US$ 60. Os metais básicos estão pressionados. Já o dólar mede forças em relação às moedas rivais, como euro e iene, mas ganha terreno entre as de países emergentes.

Powell fecha o dia

Resta saber, agora, o que o presidente do Fed, Jerome Powell, tem a dizer, após a ata do último encontro do ano passado mostrar a necessidade de mais paciência e cautela na condução do ciclo de alta dos juros. “Jay” participa hoje (15h45) de um evento em Washington e o mercado irá observar se a fala dele seguirá dovish.

Por ora, o Fed ainda prevê mais duas altas em 2019. Mas o mercado financeiro acredita que essa previsão será revista, para baixo, já nas próximas reuniões e ventila até a chance de um corte nos juros, sob argumento da desaceleração global.

Ao longo do dia, nos EUA, serão conhecidos os pedidos semanais de auxílio-desemprego feitos no país (11h30) e os estoques no atacado em novembro (13h). No Brasil, saem dados sobre a safra de grãos neste ano (9h) e números preliminares do IGP-M neste mês (8h).

Terra brasilis

Mas foram os sinais relacionados à proposta de uma reforma da Previdência mais dura que animaram os ativos locais ontem. A combinação de idade mínima mais “adequada”, um ciclo mais curto de transição e um sistema de capitalização aliviaria a pressão de curto prazo na questão fiscal, encerrando a discussão sobre o tema.

Os investidores ainda aguardam medidas mais concretas, como o detalhamento da reforma em si, uma vez que o otimismo com o discurso já está precificado. Ainda assim, o mercado financeiro brasileiro está comprando a ideia de reformas econômicas profundas e antecipa um bom andamento dessa pauta no Congresso.

Com isso, a Bolsa brasileira renovou o recorde de pontuação pela quinta vez neste ano, já na faixa dos 93 mil pontos, enquanto o dólar caiu abaixo de R$ 3,70, no menor nível em mais de dois meses. Porém, esse movimento local só foi possível por causa da melhora do sentimento global.

Votação secreta

Como o Legislativo ainda está em recesso, só será possível medir o apoio às reformas econômicas em fevereiro, quando os protagonistas dessa pauta entram em cena. E antes de apreciarem as medidas propostas pelo governo, deputados e senadores terão de escolher seus presidentes.

Nesse sentido, merece atenção a decisão do Supremo Tribunal Federal contra o recurso que autorizou voto aberto para a eleição no Senado. O presidente da Suprema Corte, Dias Toffoli, derrubou a decisão do ministro Marco Aurélio Mello e manteve a votação secreta na Casa.

Toffoli também negou o pedido feito pelo deputado federal eleito Kim Kataguiri para que a eleição para a presidência na Câmara seja aberta, sob o argumento de que o regimento interno do Congresso prevê votação secreta.

A importância dessa questão é que, caso as votações para as presidências na Câmara e no Senado fossem abertas, os parlamentares poderiam se sentir menos confortáveis em apoiar outros nomes. Send agora fechada, deputados e senadores, principalmente os da “velha política”, podem optar por opositores ao governo.

Afinal, gerou controvérsia a decisão do PSL de apoiar a reeleição de Rodrigo Maia na Câmara. O fato foi bem explorado pelo MBL de Kim Kataguiri, que irá se candidatar ao cargo, e trouxe desconforto a nomes estrelados do partido, como a deputada estadual eleita Janaina Paschoal. Aos olhos dos investidores, porém, o apoio a Maia reforça as chances de aprovação da agenda liberal.

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