O futuro da Cabernet Sauvignon: os desafios e oportunidades no caminho da variedade mais plantada do mundo
Como a Cabernet Sauvignon vai envelhecer daqui para frente? Conversamos com especialistas para entender os efeitos das alterações climáticas e novos padrões de consumo sobre a variedade considerada a “rainha” das uvas

A Cabernet Sauvignon dispensa apresentação. Estruturada, tânica, de casca espessa e maturação lenta, ela é a uva mais plantada do planeta. Atualmente, são mais de 341 mil hectares, ou 5% de todos os vinhedos do mundo, de acordo com a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV). Fruto de um cruzamento incidental de Cabernet Franc com Sauvignon Blanc, ela carrega um paradoxo: uma casta que nasceu por acidente e se tornou a "rainha" das uvas, sinônimo de tradição.
Hoje, porém, a tradição é questionada em dois fronts ao mesmo. De um lado, há o consumo jovem, que pesa a balança para rótulos leves e frutados, na contramão do histórico da Cabernet. De outro, o clima que moldou seus territórios consagrados, de Bordeaux a Napa Valley, hoje começa a se comportar de um jeito de que a própria uva nunca viu.
É com essa dupla pressão como pano de fundo que procuramos três especialistas neste dia 3 de setembro, quando se comemora o Cabernet Day em 2026. Ao Seu Dinheiro, Daniel Colli, fundador da Vinícola Urbana, Thamirys Schneider, sommelier especialista em produto do Grupo Wine, e Marcelo Papa, enólogo e diretor técnico da Viña Concha y Toro, enumeram as oportunidades, expectativas e desafios para a variedade daqui para frente. De frente para o futuro, comentam o estado da uva hoje e respondem se a rainha está em xeque.
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Questão de tempo: a Cabernet Sauvignon e o consumo jovem
Em um artigo do Wine & Spirit Education Trust, Lauren Denyer, educadora da WSET School em Londres, brinca que a uva é como a "Helen Mirren ou Morgan Freeman" do mundo do vinho: uma bebida de performance estruturada que até performa bem quando jovem, mas que brilha com o passar do tempo.

Isso porque sua potência, descrita acima, é historicamente associada ao processo de evolução, ou envelhecimento de um vinho. O que, durante algum tempo foi apontado como um sinônimo de um grande rótulo. Como relembra a revista Food & Wine, o padrão reflete muito da era Robert Parker, uma referência ao lendário crítico de vinhos e sua preferência pelos tintos encorpados.
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Porém uma mudança começa a ocorrer na segunda metade da última década. Como descreve a publicação, o mercado passa a abraçar rótulos mais leves e frescos. Hoje, a preferência aparece na popularização dos tintos leves, os chillable reds, mas também no aumento do consumo dos vinhos com baixo ou nenhum teor alcoólico - uma tendência entre o público jovem, segundo report de 2025 do International Wines and Spirits Record (IWSR).
E aí voltamos à Cabernet Sauvignon. Estruturada, potente, intensa, comumente associada a vinhos de guarda, influência de carvalho e aos grandes rótulos bordaleses. Uma aparente antítese para as tendências do mercado, correto?

Não exatamente. Reduzir o Cabernet Sauvignon a um perfil pode ser um equívoco. Primeiro, há a questão da adaptabilidade, que trataremos adiante. Mas mesmo um olhar sobre as características da uva pode revelar diferentes perfis, como esclarece Thamirys Schneider, da Wine:
"É importante entender que estrutura não necessariamente significa peso. Um vinho com Cabernet Sauvignon pode ser estruturado e, ao mesmo tempo, ter frescor, elegância e bastante expressão de fruta", pondera. Para ela, tão central quando as características da uva é o estilo de produção de um enólogo ou enóloga – o que abre um leque de possibilidades imenso ao que vai para a taça.
Daniel Colli, da Vinícola Urbana, concorda. "Estrutura e frescor não são opostos, são camadas do mesmo vinho. O que mudou foi a forma de tratar a Cabernet Sauvignon: colher no ponto certo, extrair com delicadeza, dosar a madeira", diz. "A Cabernet não precisa mudar de natureza. O que precisa mudar, e vem mudando, é o cuidado com ela no vinhedo e na vinícola."
Um clima de mudança: os desafios climáticos da Cabernet Sauvignon
Olhar para a vinícola é essencial para qualquer variedade. Mas ainda mais importante quando falamos de Cabernet Sauvignon. Hoje, ela está presente em lugares tão distintos quanto a Campana Gaúcha e o Vale do McLaren, na Austrália.

"Cabernet Sauvignon sempre demonstrou uma capacidade notável de adaptação, que é uma das razões para ter se tornado uma das variedades de uva mais bem-sucedidas do mundo", explica Marcelo Papa, enólogo da Concha y Toro.
E aí a pergunta muda: como a uva mais plantada do mundo vai ser (ou já vem sendo) afetada por um cenário de transformação climática?
Um estudo de 2026 da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, buscou responder a essa questão de forma local. Nele, os pesquisadores partem de um cenário de calor extremo na Califórnia para entender como eventos climáticos extremos influenciam a qualidade, a produção e os preços de Cabernet Sauvignon em Napa Valley.
Entre as conclusões, um cenário com menor prejuízo financeiro seria o de introduzir diferentes variedades, mais suscetíveis às intempéries, àquela região, como a Carignan, por exemplo. Outra alternativa seria a mudança da área da plantação para regiões menos afetadas por variações extremas - uma proposta que já tem sido estudada por produtores de algumas regiões da França (via The Drinks Business).

Acontece que, quando o assunto é vinho, as regiões e seus terroirs, a forma como se cultiva em um determinado local, é virtualmente irrepetível. E um dos casos mais emblemáticos é justamente o da Cabernet Sauvignon, tão associado à margem esquerda do rio Gironde, em Bordeaux, na França:
"Se o desafio climático não for adereçado, a Cabernet Sauvignon, antes exclusiva ao sul da Europa, poderá perseverar em regiões centrais ou ao norte [do continente] em 2100", apontou o primeiro relatório Fine Wines and Restaurants Market Monitor, publicado em 2025 pela Bain & Company em colaboração com a Altagama.

O cálculo do produtor e a força da Cabernet Sauvignon
Obviamente, este é apenas um dos cenários que se apresentam a uma cultura antiquíssima, que movimenta parte importante de uma indústria de US$ 566 bilhões por ano (via Fortune Business Insights, 2026). Talvez – ainda – não seja a hora de procurar Cabernet no norte gelado da Inglaterra.
Isso porque, do ponto de vista da viticultura, a Cabernet Sauvignon se beneficia de um longo ciclo de crescimento, que permite uma colheita gradual, como explica Marcelo Papa.
"Essa característica fornece uma vantagem importante em muitas regiões, enquanto temperaturas se tornam mais variáveis e eventos climáticos extremos são mais frequentes."

Daniel Colli explica que o desafio é lidar com a irregularidade das safras devido à imprevisibilidade climática - algo que afeta todas as variedades, não só a Cabernet. "No caso da Cabernet, o desafio é casar dois relógios. O açúcar da uva chega rápido com o calor, mas a maturação da casca e das sementes, que dá cor, tanino e capacidade de envelhecer, demora mais e não acompanha no mesmo ritmo", diz.
Ao produtor, o cálculo se traduz em colher cedo demais, o que deixa o vinho duro e verde, carregado de pirazinas que só se dissipam com o tempo na planta, ou esperar demais às custas de acidez e teor alcoólico mais elevado. A longevidade nasce quando esses dois momentos se encontram, diz Colli, e hoje isso exige muito mais atenção no vinhedo do que antes.
Thamirys Schneider, da Wine, ressalta ainda o dinamismo da variedade, que a permite manter uma assinatura de identidade, enquanto reflete diferentes terroirs.
"Em um cenário de temperaturas mais altas e maior irregularidade das safras, o desafio é alcançar maturação fenólica sem perder acidez e frescor, e sem ficar sobre maduras, chegando a níveis excessivos de álcool e concentração", diz a sommelier. Práticas de viticultura de precisão, escolha de parcelas, manejo de copa, controle de rendimento e definição cada vez mais cuidadosa do ponto de colheita ganham ainda mais importância diante do novo cenário.

Onde a taça gira hoje?
Mesmo frente aos desafios que clima e consumo apresentam, o trio de especialistas consultados pelo Seu Dinheiro são otimistas em reforçar o potencial do Cabernet, no tempo e no espaço, com locais onde hoje se cultiva a rainha das uvas com entusiasmo. "Acho que o futuro da Cabernet Sauvignon reside, precisamente, em sua habilidade de permanecer fiel à sua essência, enquanto expressa um forte senso de local”, diz Papa.

Entre as regiões, o enólogo da Concha y Toro reforça Bordeaux, na França, e Napa Valley, nos Estados Unidos, além do Alto Maipo, no Chile: "Na denominação de Puente Alto, Cabernet Sauvignon cresce em um mosaico único de solos aluviais, formados ao longo de milhares de anos por sedimentos trazidos dos Andes. Estes solos pedregosos e bem drenados colaboram com precisão, energia e taninos excepcionalmente finos".
Já Thamirys também cita o Alto Maipo, a Califórnia e Bordeaux, além de países como a Argentina e a Austrália. "Vou além para trazer o Uruguai, que definitivamente não se destaca pela produção de Cabernet Sauvignon, mas que merece uma atenção especial, oferece uma leitura muito interessante da variedade: menos baseada em potência e mais em frescor, tensão e expressão de origem. Devido à região, tem forte influência do Oceano Atlântico, resultando em um perfil mais fresco e mineral, com uma maturação bem equilibrada."
Já Daniel traz o ouro para casa: "O que mais nos entusiasma está no Brasil, nas regiões de dupla poda. Em vez de amadurecer no verão, com chuva e calor em excesso, a uva é conduzida para amadurecer no inverno seco e ensolarado. Para a Cabernet, é a combinação ideal: dias claros, noites frescas e ausência de chuva na reta final. Isso tem se mostrado safra após safra, com Cabernets que unem estrutura e frescor."

Do vinhedo à taça, a conta de Papa, Colli e Schneider pesa na mesma direção: a de que a Cabernet Sauvignon não deixará seu reinado tão cedo. O que pode influenciar sua evolução mais rapidamente nas próximas décadas é o onde e o como ela é cultivada. Ao consumidor, o efeito pode aparecer no preço, já que tanto regiões expostas a efeitos climáticos quanto técnicas de manejo refinadas podem afetar o tíquete final.
Enquanto a hora não chega, no entanto, talvez o melhor seja lembrar a dica da educadora do WSET Lauren Denyer, usar a longevidade a seu favor e guardar a garrafa por alguns anos, afinal a Cabernet Sauvignon é do tipo que “brilha com o passar do tempo”.
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