Tóquio em 24 horas: como aproveitar um dia na capital japonesa, entre o atum e a katana
Café no antigo mercado de peixes, aula espada samurai, templos sagrados e becos profanos: o que cabe em apenas 24 horas em Tóquio?

Tóquio não parece uma cidade. Parece várias cidades que decidiram se juntar. E é exatamente isso que esse Godzilla de concreto é: um conjunto de 23 distritos especiais — quase cidades independentes — que formam o coração da metrópole. Cada um tem sua própria administração, identidade e atmosfera. Shinjuku, Shibuya, Asakusa e Ginza não são apenas bairros, mas pequenos universos dentro da mesma capital.
Existe a Tóquio dos arranha-céus, dos trens que chegam no segundo exato e dos cruzamentos atravessados por milhares de pessoas. (Preguiça, inclusive. Não tem lógica, numa cidade com tanta coisa para conhecer, ir ver um cruzamento. Fala sério.)
Mas há também uma cidade enfeitada por templos, mercados e pequenas casas de madeira que sobreviveram a terremotos, guerras e ao avanço impiedoso da modernidade.
Sempre falo que ir ao Japão é uma chance de sentir-se em outro planeta. Em poucos lugares do mundo o passado e o futuro convivem de forma tão íntima. Às vezes, estão separados por uma estação de metrô. Em outras, dividem a mesma calçada. É algo que se percebe em tudo, como nas senhoras de quimono que passam ao lado das jovens vestidas em cosplay de Pikachu.
Foi essa Tóquio que procurei conhecer durante um dia que começou com sushi no café da manhã e terminou entre as lanternas de um dos becos mais famosos de Shinjuku. No intervalo, ainda encontrei tempo para empunhar uma katana – por sinal, um sonho de infância realizado.
O café da manhã dos campeões
O dia começa cedo em Tsukiji, sonho de consumo de qualquer chef. Durante décadas o nome foi sinônimo do maior mercado de peixes do mundo. Se você quiser ver os leilões de atuns gigantes hoje, é bom avisar que o mercado atacadista se mudou para Toyosu em 2018. Mas a alma do lugar continua ali.
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Na parte externa de Tsukiji, são centenas de lojas, bancas e pequenos restaurantes. À venda estão frutos do mar, facas, temperos e tudo aquilo que ajudou o lugar a conquistar o apelido de “cozinha de Tóquio”.

Aqui vão duas dicas de ouro. Confia em mim.
A primeira é contratar um guia. A experiência no mercado é completamente diferente quando você está com alguém que conhece bem o local. Eu tive a sorte de conhecer Daya Tutya, uma nipo-brasileira supergente fina que vive na Terra do Sol Nascente desde 2004. Além de saber muito sobre a história do Japão, ela conhece os lugares certos para comer sem erro e os compartilha em seu perfil no Instagram, o @exploreojapao.
A outra dica é chegar cedo. Isso não é apenas uma recomendação, mas parte da experiência.
Enquanto boa parte da cidade ainda desperta, Tsukiji já está em plena atividade. Seus corredores estreitos, porém, ainda não foram completamente tomados pelos visitantes à procura de alguma coisa gostosa para comer.
No meu caso, a escolha foi certeira: sushi de atum gordo.
A parada foi no Maguroya Kurogin, casa especializada no peixe que se transformou em uma das grandes obsessões gastronômicas japonesas. Ali, o atum aparece em diferentes cortes: o akami, mais magro e de sabor profundo; o chutoro, com uma quantidade intermediária de gordura; e o otoro, tão marmorizado que quase se desfaz antes mesmo de ser mastigado. Uma espécie de manteiga do mar.
Talvez esse seja um dos primeiros ensinamentos de Tóquio: nossos horários convencionais não têm muita importância diante de um bom pedaço de atum.

A peregrinação continuou no Kouragumi, onde provei enguia, talvez o item mais obrigatório de se comer no Japão, pelo menos na minha opinião. Depois, no Tsukiji Ihachi Honten, foi a vez do king crab, o caranguejo-real.
Tsukiji tem justamente esse encanto. Produtos que normalmente associamos a restaurantes luxuosos aparecem em balcões diminutos, muitas vezes consumidos em pé, no meio do movimento do mercado. O luxo não está no tamanho da sala nem na quantidade de garçons. Está no ingrediente.
O turista vira samurai
Depois de começar o dia devorando boa parte da fauna marinha do oceano Pacífico, chegou o momento de uma experiência um pouco mais marcial.
No BUB Activity Center, em Asakusa, participei de um treinamento inspirado nas artes dos samurais, com princípios básicos de arco e katana.

É evidente que ninguém se transforma em samurai durante uma aula para turistas. Foram séculos de tradição militar, códigos de conduta e treinamento. Seria otimista demais imaginar que algumas horas transformariam um chef fora de forma no Jiraiya.
Mas a experiência ensina muito sobre a cultura japonesa. A repetição de um movimento não busca apenas eficiência. Existe concentração, disciplina e uma atenção quase obsessiva ao gesto.
Isso sempre foi uma meta para mim na cozinha. Como diria meu “sensei” francês, Laurent Suaudeau, o gesto talvez seja uma das coisas mais importantes na cozinha.
Empunhar a katana e repetir um golpe aparentemente simples revela o abismo que existe entre brincar com uma espada e realmente dominar uma técnica. O samurai amador sai dali com algumas fotografias e uma certeza: nos filmes, tudo é muito mais fácil.
O tempurá que atravessou três séculos
O almoço foi no Daikokuya, em Asakusa, restaurante histórico reconhecido por seu tempurá. A casa foi fundada em 1887. Naquela época, o Japão atravessava uma metamorfose radical. O país deixava para trás séculos de isolamento e corria para se modernizar.

É interessante pensar que, enquanto ferrovias, fábricas e novas ideias ocidentais mudavam o Japão, o Daikokuya começava a servir seu tempurá em Asakusa.
O prato também ajuda a desmontar uma ideia muito comum sobre a gastronomia japonesa. Nem tudo é leve, cru ou minimalista. O tempurá pode ser generoso, untuoso e intensamente reconfortante. Na versão do Daikokuya, ele recebe um molho escuro e chega sobre o arroz, formando uma refeição que não tem a menor intenção de ser delicada demais.
Depois de uma manhã entre peixes e espadas, era exatamente o que eu precisava.
Um templo no meio da multidão
Bem perto do restaurante fica o Sensō-ji, o templo budista mais antigo de Tóquio.
Sua história começa no ano de 628. Segundo a lenda, dois pescadores encontraram em sua rede uma estátua de Kannon, a divindade da compaixão. Mesmo depois de devolverem a imagem ao rio, ela teria retornado às redes. O templo foi construído para abrigá-la.
Quase 1.400 anos depois, as pessoas ainda se espremem para ver o Kaminarimon, o Portão do Trovão, com sua monumental lanterna vermelha. Dali começa a Nakamise-dori, rua comercial que conduz ao templo e reúne lojas, lembranças e comidas de rua.

É um percurso espiritual cercado por tentações gastronômicas, algo que, para mim, parece uma representação bastante honesta da condição humana.
Nas barraquinhas, prove doces feitos com pasta de feijão, biscoitos salgados de arroz, bolinhos, sorvetes de matcha e outras especialidades. O caminho até o templo deixa de ser apenas uma travessia e se transforma numa sequência de pequenos desvios da sagrada dieta.
Em meio às fotografias, compras e multidões, pessoas acendem incensos, fazem suas preces e repetem gestos transmitidos por gerações.
Uma grande sacada de Tóquio foi preservar o passado sem isolá-lo do presente. A cidade permitiu que os dois continuassem convivendo, mesmo quando essa convivência parece um pouco caótica.
O Beco das Memórias
Quando anoitece, Tóquio muda novamente de rosto.
O destino final foi Omoide Yokocho, em Shinjuku. O nome significa algo como “Beco das Memórias”. É um conjunto de vielas estreitas que forma um ambiente saído de filme.

O local também ganhou no passado um apelido bem menos poético: “Beco da Urina”. O nome surgiu no pós-guerra, quando a região tinha bares improvisados e praticamente não havia banheiros. Aí já viu, né? Muito saquê e pouco banheiro nunca foi uma combinação muito promissora.
A região nasceu quando pequenos comerciantes começaram a vender comida perto da estação. Hoje, do lado de fora, Shinjuku parece uma visão de um futuro cyberpunk. Dentro dos becos, cozinheiros trabalham diante de pequenas grelhas, clientes se apertam nos balcões e a fumaça dos espetinhos toma conta do ar, criando uma atmosfera antiga e misteriosa.
Meu jantar foi no Yasube’e, uma casa especializada em pratos tradicionais de izakaya, uma espécie de boteco japonês.
Comecei com agedashi tofu, o tofu frito servido em caldo dashi, e nasu agedashi, sua versão preparada com berinjela. Depois chegaram os yakitoris: espetinhos de frango e de diferentes partes da enguia, incluindo a barbatana. Vieram também o polvo frito e outros pequenos pratos.

É uma refeição que parece pequena quando descrita prato por prato, mas vai crescendo à medida que as porções chegam, os espetinhos se acumulam e o jantar assume o ritmo sem cerimônia de um izakaya. Entre um copo e outro, fica também a curiosidade de descobrir o que as pessoas das mesas vizinhas estão falando com tanta empolgação, algo pouco comum entre os japoneses no dia a dia.
Ali, a cozinha nipônica mostra outra face, bem diferente daquela dos balcões silenciosos de sushi. É barulhenta, esfumaçada e banhada em álcool, sobretudo saquê, cerveja e uísque.
Uma coisa curiosa é o chamado nomikai, encontro entre colegas no qual beber funciona como uma extensão da vida profissional. E o pessoal bebe mesmo.
Não é estranho encontrar trabalhadores de terno e gravata dormindo perto das estações depois de uma noite de bebedeira. Alguns perdem o último trem; outros simplesmente apagam antes de chegar à plataforma.
O mais curioso é que, numa cidade extremamente segura, muitos permanecem ali com carteira, celular e pasta ao lado. Há até relatos de pessoas que deixam uma garrafa de água perto do sujeito para quando ele acordar. É uma cena ao mesmo tempo engraçada, triste e difícil de imaginar em quase qualquer outra grande cidade do mundo.
A cidade que cabe em um dia
Comecei a manhã diante de peixes que poucas horas antes estavam no oceano. Aprendi os movimentos básicos de uma espada usada por guerreiros de outro tempo. Almocei em um restaurante aberto no século 19 e visitei um templo cuja história começa no século 7. À noite, terminei sentado em um restaurante nascido da improvisação do pós-guerra.

Nenhuma dessas experiências parece pertencer à mesma cidade. Mas esse é justamente o segredo de Tóquio.
Talvez seja impossível conhecer Tóquio em um dia. Ou mesmo em uma vida. Mas, entre o primeiro sushi da manhã e o último espetinho de enguia em Omoide Yokocho, é possível ao menos entender a lógica de uma cidade onde o tempo se senta ao seu lado no balcão e pede mais uma rodada. Kanpai!
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