Quem é John Galliano e por que o Met cancelou a exposição do estilista após polêmica
Homenagem ao designer britânico estava prevista para 2027 e o colocaria no seleto grupo de estilistas vivos com uma retrospectiva no museu

O que deveria ser uma das maiores homenagens da carreira de John Galliano terminou antes mesmo de começar. O Metropolitan Museum of Art, o Met, de Nova York, anunciou nesta segunda-feira (31) que não realizará a exposição John Galliano: Horizons, prevista para a primavera de 2027.
O projeto, anunciado apenas um mês antes, percorreria quatro décadas da trajetória do estilista britânico, da coleção de formatura na Central Saint Martins, em 1984, aos trabalhos para Givenchy, Dior e Maison Margiela.
A exposição também colocaria Galliano em um grupo extremamente restrito: seria apenas o terceiro estilista vivo a ganhar uma retrospectiva individual no Costume Institute, depois de Yves Saint Laurent, em 1983, e Rei Kawakubo, da Comme des Garçons, em 2017.
A decisão veio depois de semanas de críticas à escolha do designer, que carrega um histórico de declarações antissemitas e racistas. Galliano, por sua vez, afirmou que decidiu desistir da exposição após conversar com o Met e outras pessoas envolvidas no projeto.
“Após muita reflexão e discussão com todos os envolvidos, decidi, com grande tristeza, que o melhor é que a exposição não aconteça neste momento”, afirmou o estilista em comunicado. Ele ainda pediu desculpas: "Permaneço totalmente responsável pela dor causada pelas minhas palavras no passado, particularmente pela mágoa que causei às comunidades judaica e asiática, e continuo profundamente arrependido."

O que aconteceu com John Galliano
O episódio que voltou ao centro da discussão ocorreu em 2011, quando vídeos do designer fazendo comentários antissemitas e racistas à frequentadores de um bar em Paris vieram a público. Em uma das gravações, Galliano aparece dizendo “I love Hitler” e fazendo referências ofensivas a pessoas judias.
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O caso levou à sua demissão da Dior e, posteriormente, a uma condenação pela Justiça francesa por insultos públicos relacionados a raça, religião, etnia ou origem. Na época, Galliano pediu desculpas e afirmou que estava procurando ajuda. Durante o processo judicial, também falou sobre sua dependência de álcool e medicamentos. A Justiça francesa determinou uma multa de 6 mil euros.
A queda ganhou ainda mais peso porque Galliano estava no auge da carreira. Seus desfiles teatrais misturavam referências históricas, personagens e narrativas. Com esse estilo, o designer se consolidou como um dos nomes mais influentes da alta-costura contemporânea.
Depois do escândalo, ele passou por tratamento contra a dependência química e iniciou um longo processo de reconstrução profissional. Em 2014, retornou à alta moda como diretor criativo da Maison Margiela. A passagem pela marca marcou uma espécie de renascimento profissional para Galliano. O processo culminou no desfile de alta-costura de 2024, seu último trabalho para a grife, amplamente elogiado pela crítica.

Por que a exposição gerou tanta resistência
Quando John Galliano: Horizons foi anunciada, em 31 de julho, o Met deixou claro que a exposição não ignoraria o episódio de 2011.
O projeto seria dividido em três partes. A primeira, chamada “Bearings”, abordaria a ruptura provocada pelas declarações antissemitas, racistas e anti-asiáticas de Galliano, além de seu tratamento contra a dependência e do processo de reconstrução de sua imagem pública. As outras duas partes seriam dedicadas às referências criativas e ao processo de criação do estilista.
Mesmo assim, a escolha provocou reação. Entre os críticos estava Dana Thomas, jornalista de moda e autora da biografia Gods and Kings: The Rise and Fall of Alexander McQueen and John Galliano. Em artigo publicado no New York Times, ela questionou a decisão do Met de transformar Galliano em protagonista de uma de suas mais importantes exposições.
A controvérsia, aliás, mobilizou líderes da comunidade judaica, políticos de Nova York e doadores do museu. Um dos principais pontos de tensão envolveu o calendário. O Met planejava abrir a exposição em maio de 2027, próximo ao Met Gala, em um período que coincidiria com o Yom HaShoah, o Dia da Lembrança do Holocausto. Para os críticos, a escolha tornava a homenagem especialmente problemática.
A pressão aumentou a ponto de envolver Jonathan Greenblatt, CEO da Anti-Defamation League (ADL), organização americana dedicada ao combate ao antissemitismo e ao preconceito. O Met já havia consultado líderes judeus antes de anunciar a exposição, para discutir como abordar o passado de Galliano.
A reação mudou, porém, após o anúncio público do projeto. Segundo relatos, Greenblatt conversou com representantes do museu em meio à pressão crescente para rever a homenagem.
Galliano reconhece que a obra não apaga o passado
Em seu comunicado sobre o cancelamento, o estilista afirmou que continua responsável pela dor provocada por suas palavras, especialmente às comunidades judaica e asiática. Também disse entender que uma exposição, um reconhecimento institucional ou um único gesto público não são suficientes para representar uma reparação.
Além disso, Galliano mencionou os 15 anos de sobriedade e recuperação do alcoolismo e da dependência química e agradeceu às pessoas que o acompanharam durante esse período. A decisão, portanto, não representa uma nova expulsão de Galliano da moda. O estilista continua sendo reconhecido por sua influência criativa e por seu trabalho, especialmente na Maison Margiela.
O Met terá de encontrar uma nova exposição para o Costume Institute na primavera de 2027. O cancelamento também exige a definição de um novo tema para o Met Gala, previsto para maio do ano que vem. Segundo o museu, os detalhes serão divulgados posteriormente.
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