Os wearables inteligentes são úteis para a saúde ou estão nos deixando paranoicos? O que dizem os médicos
Smartwatches, pulseiras, anéis e até brincos inteligentes prometem transformar dados do corpo em aliados da saúde, mas especialistas alertam para os riscos de interpretar cada oscilação como sinal de doença

Você acorda e a primeira coisa que faz é checar os batimentos cardíacos da noite. Antes do café, já sabe quantas horas dormiu, qual foi sua frequência cardíaca média e como o aplicativo classificou sua recuperação.
Todos esses dados vieram de um wearable inteligente, que são dispositivos eletrônicos usados junto ao corpo como, por exemplo, os smartwatches, pulseiras e anéis, capazes de coletar e acompanhar informações sobre o funcionamento do organismo.
Por meio de sensores, eles podem medir dados como frequência cardíaca, atividade física, sono, temperatura corporal, saturação de oxigênio e, em alguns modelos, realizar até eletrocardiograma (ECG). Além disso, estimam a pressão arterial e podem até te avisar quando o seu corpo vai ficar doente antes mesmo de apresentar os sintomas.
Em algum momento da última década, monitorar o próprio corpo 24 horas por dia deixou de ser um hábito restrito a atletas ou pacientes com condições de saúde e se tornou rotina para milhões de pessoas. Mas será que essa vigilância constante está, de fato, cuidando da nossa saúde, ou está, aos poucos, nos tornando mais ansiosos?

Como o mercado de wearables se expandiu?
Tudo começou com os smartwatches. Depois vieram as pulseiras, os anéis e, mais recentemente, até brincos inteligentes. O apetite por esse tipo de dado não para de crescer. Segundo a Fortune Business Insights, o mercado global de tecnologia vestível, que reúne relógios, pulseiras e anéis inteligentes, deve chegar a US$ 493 bilhões até 2029, crescendo a um ritmo de quase 18% ao ano.
A Whoop, por exemplo, é uma das empresas que representam esse movimento. A marca aposta em pulseiras sem tela e funciona por meio de assinatura. O negócio vem ganhando espaço nos Estados Unidos e na Europa. Agora, a empresa planeja praticamente dobrar o número de funcionários e mira uma abertura de capital em 2027. O plano de entrada custa US$ 199 por ano.
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Do lado dos relógios, circula uma informação ainda não confirmada oficialmente de que a Apple estaria testando uma pulseira sem tela dedicada só ao monitoramento contínuo de saúde, para concorrer diretamente com Whoop e Oura.
Enquanto isso, os anéis inteligentes se consolidaram como a opção mais discreta da categoria. A Oura, pioneira no segmento, agora divide espaço com Samsung, RingConn e Ultrahuman. Os modelos seguem uma proposta semelhante: não têm tela, são equipados com sensores e oferecem bateria que dura dias, em vez de horas.

E o monitoramento pode ir muito além dos batimentos cardíacos e do sono. Sensores de glicose, por exemplo, antes voltados principalmente para pessoas com diabetes, também passaram a ser usados por atletas e adeptos do biohacking. A ideia é entender como o organismo reage a diferentes alimentos e hábitos. A prática, porém, ainda é vista com ressalvas pela comunidade médica porque não há consenso sobre como interpretar essas variações em pessoas que não têm diabetes.

O que realmente importa, segundo um médico
Para o médico cardiologista Carlos Eduardo Suaide Silva, da Dasa, dois dados se destacam pela utilidade clínica: a frequência cardíaca e o eletrocardiograma, presente na maioria dos smartwatches atuais.
"A frequência cardíaca pode avaliar tendência de repouso, resposta ao exercício e detectar taquicardias ou bradicardias persistentes", explica. Já o eletrocardiograma é, segundo ele, "clinicamente muito valioso para detectar fibrilação atrial e algumas arritmias mais simples" inclusive episódios que o próprio paciente nem percebe que teve.
Outros dados populares entre os wearables, como variabilidade da frequência cardíaca, saturação de oxigênio e qualidade do sono, têm utilidade mais limitada. “São altamente variáveis e difíceis de interpretar isoladamente”, explica o médico.

Segundo o médico, a saturação de oxigênio só merece atenção quando apresenta leituras consistentemente baixas, enquanto o monitoramento do sono pode ajudar a criar uma rotina mais disciplinada, mas não é suficiente para diagnosticar uma apneia do sono, por exemplo.
Já a pressão arterial medida por wearables exige ainda mais cautela: “não substitui o aparelho de pressão”, reforça. O maior ganho prático, na visão de Suaide, está mesmo na fibrilação atrial: "Wearables podem detectar episódios curtos que o paciente não sente. Isso é provavelmente o maior benefício clínico real."
Foi o que aconteceu com o gerente comercial Roberto Gallart, 52, de Niterói (RJ). No ano passado, ele descobriu obstruções significativas nas artérias após receber um alerta do relógio inteligente que usava durante um treino na academia. “Se eu tivesse ignorado aquele alerta, talvez não estivesse aqui hoje. O relógio foi o primeiro a me mostrar que algo estava errado”, afirmou em comunicado à imprensa na época.
Smartwatch pode ajudar a revelar arritmias silenciosas?
Um ensaio clínico publicado em janeiro no Journal of the American College of Cardiology ajuda a dimensionar onde os wearables podem, de fato, fazer diferença. Pesquisadores da Universidade de Amsterdã acompanharam por seis meses 437 pessoas com 65 anos ou mais e alto risco de AVC.
Metade recebeu um Apple Watch, enquanto a outra metade seguiu o acompanhamento médico convencional. Ao final do estudo, os médicos identificaram 21 casos de arritmia no grupo que usou o relógio, contra apenas cinco no grupo de cuidados padrão, uma taxa de detecção cerca de quatro vezes maior.
O dado mais relevante é que 57% dos participantes diagnosticados com o auxílio do smartwatch não apresentavam sintomas, o que reforça o potencial desses dispositivos para revelar episódios intermitentes de fibrilação atrial, uma arritmia que muitas vezes passa despercebida e aumenta significativamente o risco de AVC.
O reverso da moeda: quando o dado vira ansiedade
Se por um lado os wearables ajudam a flagrar algo que passaria despercebido, por outro, eles têm alimentado um novo tipo de preocupação nos consultórios. "Algumas pessoas acabam desenvolvendo hipervigilância sobre números, medo de variações normais, checagem compulsiva e interpretação catastrófica de dados imprecisos.", afirma o cardiologista.
Segundo ele, é cada vez mais frequente pacientes chegarem à consulta com prints do relógio: uma frequência que subiu para 120 depois do café, uma saturação que caiu para 92% por alguns segundos, um alerta de fibrilação atrial que pode ser real ou apenas um artefato de leitura.
Para a psiquiatra Camila Espínola, do Hospital Quali Ipanema (RJ), essa hipervigilância pode causar mais malefícios do que benefícios. "Em pessoas com ansiedade de saúde, o monitoramento pode aumentar a hipervigilância corporal e a preocupação com pequenas alterações fisiológicas", explica.
"O problema ocorre quando o dispositivo passa a ser utilizado como uma forma de buscar constantemente confirmação de que a pessoa está saudável. A checagem pode produzir alívio momentâneo da ansiedade e, consequentemente, reforçar a necessidade de verificar novamente", complementa.
Nem vilão, nem solução mágica
"Wearables são aliados valiosos, mas exigem interpretação cuidadosa", resume Suaide Silva. Eles ajudam a antecipar problemas que poderiam passar batido, sobretudo arritmias silenciosas. Mas também podem transformar qualquer oscilação normal do corpo em motivo de pânico quando usados sem orientação.
Com um mercado que deve continuar crescendo a dois dígitos nos próximos anos, cada vez mais empresas de tecnologia disputam espaço no pulso, no dedo e, agora, até na pele. A tendência é que esses dispositivos fiquem mais precisos. Ainda assim, segundo especialistas, a interpretação dos dados continua sendo responsabilidade humana. E, de preferência, com a ajuda de um médico.
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