Bia Haddad explica pausa na carreira: “Meu corpo estava colapsando dentro da quadra”
Afastada do circuito profissional, tenista fala sensação de "dívida constante” no esporte e descreve superação: “ontem consegui jogar baralho com a minha avó”

Durante anos, Bia Haddad Maia se acostumou a lidar com a alta performance. A rotina de uma das principais tenistas brasileiras envolve passar cerca de nove meses por ano longe de casa, atravessar países, hotéis e aeroportos e encontrar disposição física e mental para competir em nível internacional.
Em agosto, porém, a tenista decidiu interromper esse ciclo. Afastada das quadras desde Wimbledon, Bia anunciou uma pausa temporária na carreira para cuidar de sua saúde mental, e não voltará a competir no segundo semestre de 2026.
Nesta quarta-feira (2), durante um encontro promovido pelo Wellhub e mediado pela jornalista Ana Paula Padrão, em São Paulo, a tenista brasileira falou abertamente sobre o processo que a levou a tomar a decisão.
“Não foram as derrotas que me levaram a fazer essa escolha. Foi eu não estar conseguindo desfrutar do meu dia a dia, do processo e do trabalho duro. A verdade é que eu já estava carregando esse esgotamento há um tempo”, explica Bia.
Mesmo depois de mudanças na equipe, períodos de treinamento no exterior e meses seguidos longe de casa, a sensação da tenista não desapareceu. Até que começaram as crises durante as partidas. E em Seul, por exemplo, Bia sentiu tremores nas mãos, falta de ar e mal-estar no próprio jogo. “E aí já não era uma questão de escolha. Era o meu corpo colapsando dentro da quadra”, diz.
O preço do tênis profissional
Bia começou a jogar tênis aos quatro anos de idade. Aos 14, se tornou profissional. E de lá até hoje, aos 30 anos, competiu de torneio em torneio, com uma rotina pesada de um atleta de alto rendimento.
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“Faz 15 anos que eu saio de casa e viajo nove meses por ano. No caminho, abro mão de aniversários, Natais, Páscoas e momentos com a família”, contou. A cobrança, porém, continua.
Para Bia, a lógica do WTA cria uma sensação permanente de cobrança. “O tênis tem um sistema de ranking que não é muito saudável mentalmente. Você sempre tem aquela sensação de que, para manter o seu ranking, tem que fazer igual. Para melhorar, você tem que fazer igual ou melhor. É uma sensação de dívida constante”, comenta.
A pressão não vem apenas do ranking. Patrocinadores, equipe e redes sociais também entram nessa equação. Por isso, Bia tentou levar o corpo e a rotina até o limite antes de tomar a decisão de parar.
A própria tenista relembrou que, em 2024, chegou às quartas de final do US Open e conquistou um torneio WTA 500 em Seul em um período em que, internamente, já não se sentia bem. Os resultados, no entanto, chegaram a levá-la novamente ao top 10 do ranking mundial, o que também ofuscou o estresse que estava sentindo.
Cerâmica, pilates e baralho com a avó

Longe da rotina do circuito, a agenda ganhou atividades bem menos competitivas. Bia voltou a fazer cerâmica, começou pilates, mantém sessões de fisioterapia e acompanhamento psicológico e tem aproveitado o tempo com a família. “Ontem consegui jogar baralho com a minha avó”, contou.
Também está organizando o casamento com seu noivo, o neurocirurgião Alex Daoud, previsto para o próximo ano.
O objetivo, porém, não é simplesmente substituir uma rotina intensa por outra. Pela primeira vez, diz ela, a ideia é não definir imediatamente o próximo passo.
“Tenho aproveitado esse momento para refletir e entender o que é melhor para mim daqui para frente. Pela primeira vez, estou tentando não ter que fazer alguma coisa, não ter que tomar uma decisão ou cumprir uma obrigação que me afaste do que estou sentindo. Estou aprendendo que preciso me ouvir mais, em vez de ser tão racional e entrar naquele pragmatismo do dia a dia”, conta.
E quando Bia Haddad volta às quadras?
Por enquanto, não há uma data definida. E isso, para a tenista, faz parte do próprio processo.
“Esse momento está me ajudando a conseguir me acalmar um pouco para quando eu voltar. E, quando eu tiver certeza, eu vou voltar pronta, corpo e mente.”
A tenista também fez as pazes com as críticas externas. “Tem gente que vai me julgar porque estou jogando muito tênis seguido e deveria descansar. Tem gente que vai me julgar porque estou parando. [...] A real é que vão julgar. Sendo mulher, vão julgar mais.”
Wellhub assume naming rights das quadras do Villa-Lobos
O encontro também marcou o anúncio de uma novidade fora da carreira da tenista.
Ao final do evento, o Wellhub anunciou que passa a deter os naming rights das quadras de tênis do Parque Villa-Lobos, em São Paulo. O espaço passa a se chamar Wellhub Tennis Center.
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