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UM NOVO EIXO

Sucesso da FARGO em Goiânia mostra que, na arte, descentralizar não é tendência – é sobrevivência

Em sua 8ª edição, Feira de Arte de Goiás confirma força do mercado de arte brasileiro fora do eixo Rio-São Paulo, bem como um colecionismo com suas próprias particularidades

FARGO 2026
FARGO 2026 - Imagem: Reprodução/Instagram

"Se a arte continuar dependendo de São Paulo, ela encolhe.” É algo que eu tenho escutado muito nos bastidores. Entre um mercado extremamente especializado e, por sua vez, igualmente saturado, o movimento de feiras de arte fora do tão conhecido eixo Rio-São Paulo era uma questão de tempo. E de sobrevivência.

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Grandes feiras, como a SP-Arte, são caras, exigem uma infraestrutura e um sistema de operações que muitas galerias menores não conseguem abraçar. Até para as maiores, que hoje investem em artistas emergentes cujo “ticket”, como se apelidou o preço de venda, é mais baixo, precisam pensar em quantidade pra que a participação seja financeiramente viável.

FARGO 2026
FARGO 2026

Isso gera um problema: conquistar novos colecionadores, gente que está começando a colecionar, entendendo como e o que gosta na arte a ponto de comprar. E muitos não vão gastar grandes cifras, agora no começo. E se feiras ficam cada vez mais caras de participar, como negócio, muitas galerias não vão levar artistas nessa faixa de preço.

É dessa necessidade que outras feiras surgem. E no caso de um país do tamanho do Brasil, a questão geográfica também. Articular e mobilizar outras capitais dentro de um mercado que já existe, não só é financeiramente viável, como permitiu uma participação mais ampla de outras artes, artistas e conceitos de arte. Isso faz o mercado mais inclusivo, mais representativo. E isso é bom para os negócios.

FARGO na sua 8ª edição

A Feira de Arte de Goiás abriu sua 8ª edição. Entre os dias 13 a 17 de maio, o Centro Cultural Oscar Niemeyer abrigou cerca de 50 expositores, entre galerias, espaços culturais e coletivos independentes.

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Mais que feira em si, é importante pensar no movimento que o evento cria, nas iniciativas, exposições, shows, etc. Em Goiânia não foi diferente. Entre a feira agropecuária, que coincide em data, a cidade esteve movimentada.

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São momentos como a abertura da exposição Essa Grande Liberdade no Centro Cultural da UFG, por exemplo.  Com a curadoria de Paulo Duarte-Feitoza, mostra reúne mais de 60 artistas LGBTQIAPN+ do Goiás em uma historiografia dos movimentos identitários e artísticos desde a parada LGBT de 1996, uma das primeiras no Brasil. Outra mostra notável é Espaço Íntimo, com fotografias de Alair Gomes. Uma colaboração da Galeria Tato com a Casa Jacobina.

A semana também marcou a inauguração do ateliê coletivo Jatobá Nascente. Constituído por seis artistas formados pelo Sertão Negro, projeto de vivencia e escola de arte idealizado por Dalton Paula, o espaço segue o trabalho a filosofia integrativa do Sertão. Localizados lado a lado, esse complexo é um visita obrigatória a quem tem pensado em outras formas de produzir ou vivenciar arte.

Mas o que tudo isso tem a ver com a feira, afinal? Tudo. Uma feira depende da formação de um mercado para que seja viável, atrativa e duradoura. Arte precisa de uma sustentação cultural que eduque seu valor pra um publico consumidor. Colecionismo depende de dinheiro, consumir arte depende de acesso. Um feira precisa dos dois.

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Ainda mais uma feira relativamente nova, numa capital afastada do centro do mercado. Atrair público, patrocinadores, galerias e comunicadores é criar um mercado financeiramente viável. De nada adianta criar oferta, sem formar quem vai suprir essa demanda.

A feira, em si

Com espaço expandido, essa edição se organizou em diferentes setores, separando galerias mais estabelecidas, galerias de pequeno porte e um espaço dedicado a coletivos independentes. Facilitando a circulação e o acesso aos estandes, a feira ficou mais agradável de visitar, ainda que a sinalização de cada espaço tenha deixado a desejar.

O trunfo maior é a entrada gratuita. Amplamente divulgada, uma feira que se pretende organizar um mercado precisa de todos os atrativos possíveis. Num país onde a cultura não é incentivada, voltamos ao ponto da formação de público como ponto essencial de sustentabilidade desse mercado que está sendo criado, ao mesmo tempo.

Outro ponto essencial, portanto, são falas e painéis onde caráter educativo se faz presente de fato. Toda feira tem. E, talvez, seja uma das iniciativas que realmente tem um impacto social: difundir e trocar conhecimento, percepções ou, inclusive, abrir um espaço de discussão de arte que nem sempre existe no mercado como prática.

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O papel dos coletivos

Um diferencial dessa edição foi a qualidade do setor de coletivos. Com trabalhos mais acessíveis, de diferentes tamanhos, linguagens e formatos, esse sucesso se concretizou inclusive em vendas: arte boa, feita em Goiás, para todo gosto e todo bolso.

Quando se fala em articulação de mercado em rede, as várias feiras com diferentes tamanhos e custos simboliza justamente a a inserção de novos talentos – neste caso, uma nova geração de artistas dando um baile em muitos espaços com nomes renomados. Curioso e positivo.

Novos talentos também marcaram a participação do curso de Artes Visuais da UFG, com estande próprio na feira. É, sobretudo, um pilar da profissionalização dos novos artistas: saber como uma feira funciona e como o mercado se organiza. Aprender a ler uma feira como termômetro do que se entende como arte atualmente, além de introduzir networking, precificação, relações públicas, tudo isso é formação.

FARGO 2026
FARGO 2026

Um novo mercado e um novo colecionador

Um novo mercado foi criado, isso não há dúvidas. O próprio aumento do tamanho da feira e uma maior participação de colecionadores na sua organização é prova disso. Mas outro termômetro foi as galerias de outros estados trazendo uma seleção mais pensada, buscando identificar o que faz sentido pro mercado goiano.

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Algumas, acertaram. Outras, acabaram caricatas. Mas houve esforço. Houve pensamento. Faltou pesquisa de mercado para entender que, ainda que um novo mercado exista, o novo colecionador goiano é diferente do novo colecionador do sudeste.

Quando se fala em novo colecionismo, se entende como um colecionador mais ligado a internet, muitos profissionais liberais que decidiram colecionar arte. É gente com acesso a informação, ainda que nem todos frequentem o meio das artes. E ainda que o perfil, como arquétipo, seja comum, cultura local e realidade social é um dado significativo.

Frequentar feiras, exposições e a própria oferta cultural de São Paulo moldam o gosto e o entendimento de valor de forma diferente de outros lugares. Goiânia é atravessada por esses fatores. Trata-se de um público que gosta de arte e reconhece os grandes nomes, mas que ainda se arrisca pouco em grandes compras. Que compra do artista que conhece. Resumindo, o novo colecionador goiano, ainda que tenha o mesmo perfil do paulista, tem um gosto diferente e um entendimento de custo beneficio também.

Com menos dependência geográfica de São Paulo, o mercado ficou mais diverso. Apesar da dependência financeira contínua da capital paulista, o que se viu foram novos artistas, novos trabalhos, o regionalismo sendo valorizado e uma circulação maior da arte tem fomentado muitas carreiras. E isso sim melhora o mercado da arte em todas as suas camadas.

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