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BRINDE À BRASILEIRA

A vez da borbulha brasileira: entre Prosecco e Champagne, espumante nacional vive auge – e novos desafios

No Dia do Espumante Brasileiro, Seu Dinheiro conversou com cinco especialistas do mercado de vinhos para entender como a bebida nacional superou parâmetros estrangeiros para firmar-se entre as mais celebradas do mundo

Espumante com Altos de Pinto Bandeira ao fundo
No Dia do Espumante Brasileiro, um dossiê sobre as borbulhas nacionais - Imagem: Reprodução/Pexels

De cada dez garrafas de vinho fino vendidas no Brasil, só uma é nacional. No espumante, o placar vira: 83% das borbulhas consumidas no país saem de vinícolas brasileiras, de acordo com dados da consultoria Ideal.BI. É o único segmento além do vinho de mesa em que o produtor local ganha do importado dentro de casa.

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Agora esse domínio entra em teste. Desde maio, o acordo Mercosul-União Europeia zerou o imposto de importação de espumantes europeus de faixa premium, que chegam ao consumidor por cerca de R$ 150, como alguns cavas e crémants. Em 2027, começa a cobrança do Imposto Seletivo sobre bebidas alcoólicas, com alíquota ainda indefinida.

A pressão chega no auge do prestígio. Em 2025, a indústria nacional somou 730 prêmios, segundo a Associação Brasileira de Enologia (ABE). No primeiro semestre de 2026, o mercado de vinhos e espumantes movimentou R$ 9,8 bilhões, alta de 9% sobre o mesmo período de 2025, de acordo com a Ideal.BI. O desafio agora é outro: transformar prestígio em preço, em consumo fora do Réveillon e em espaço no exterior.

Para o Dia do Espumante Brasileiro, celebrado nesta quinta-feira (22) junto com o Dia do Enólogo, o Seu Dinheiro ouviu cinco especialistas: Maurício Salton, diretor-presidente da Vinícola Salton; André Valduga, sócio da Otto Vinhos & Espumantes; Aline Mabel, diretora da Anprovin/ABE e CEO da vinícola Rio Manso; Rodrigo Valerio, diretor de marketing e vendas da Cooperativa Aurora; e Joana Bronze, educadora na Eno Cultura e embaixadora da vinícola chilena Casas del Bosque.

Entre a medalha e o ouro

Em junho, o Salton Ouro Moscatel levou ouro no Decanter World Wine Awards 2026. Antes disso, em dezembro, ele e o Amitié Moscatel Premium, de Garibaldi, já tinham somado conquistas no concurso francês Effervescents du Monde. Feitos que se repetem em outros torneios pelo mundo.

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“O espumante brasileiro vive seu melhor momento histórico”, defende Rodrigo Valerio, da Aurora. “A evolução é comprovada tanto pelo desempenho em concursos internacionais quanto pela sofisticação do portfólio nacional.

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Garrafas de espumante
Espumante nacional vive momento de prestígio internacional

Medalha, porém, não vira preço sozinha. "Uma medalha não se transforma automaticamente em maior valor percebido, maior preço ou presença permanente nas cartas de vinho", diz Valduga. Para ele, o desafio é passar do consumidor que se surpreende com o espumante brasileiro para o que "o escolhe conscientemente, reconhece seu valor e aceita pagar o preço correspondente".

Joana Bronze vê a categoria numa fase mais exigente. "Se, durante muito tempo, precisávamos convencer o consumidor de que o Brasil era capaz de produzir bons espumantes, hoje a discussão é outra", afirma. Segundo ela, a conversa agora é sobre consistência, diversidade de estilos e capacidade técnica.

Uma bebida sazonal?

Parte do desafio está, justamente, no calendário. O último trimestre concentra 60% das vendas de espumante do ano, explica Aline Mabel, da Anprovin. Ainda que o espumante seja, segundo ela, a categoria em que o brasileiro mais confia no produto nacional, “no topo, muitas vezes o consumidor ainda escolhe o importado, mesmo tendo um brasileiro equivalente”.

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Para Salton, esse hábito começa a mudar. "Embora ainda exista uma concentração expressiva de vendas nos períodos festivos, percebemos, ano após ano, uma mudança importante nesse comportamento", diz.

O espaço para crescer é grande. De acordo com o executivo, o brasileiro consome cerca de 200 mililitros de espumante por ano, menos de um terço de uma garrafa. Para ele, isso demonstra, por exemplo, que a democratização da bebida "ainda está em um estágio inicial".

O preço de esperar na garrafa

Um espumante de método tradicional pode passar 36 meses sobre as leveduras antes de sair da vinícola, caso do célebre Cave Geisse Extra-Brut. Para quem produz, esse tempo tem preço. "A produção de espumantes pelo método tradicional exige tempo, espaço de armazenamento, capital imobilizado e planejamento", diz Valduga.

Salton dá a dimensão da conta. "Dependendo da estrutura de cada empresa, os estoques podem representar valores equivalentes a 30% de sua receita líquida anual", afirma. Esse dinheiro parado precisa ser financiado por longos períodos. "Em um país que historicamente convive com taxas de juros elevadas, esse custo financeiro representa uma desvantagem competitiva muito importante." De acordo com ele, o encargo acaba no preço final da garrafa. Além disso, faltam linhas de crédito desenhadas para o ciclo longo do vinho.

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Os impostos pesam do mesmo lado. De acordo com Salton, a carga tributária do setor encarece o produto e acaba "criando um ambiente mais favorável à informalidade e à comercialização de produtos irregulares ou falsificados". Ele compara o Brasil com a União Europeia, onde, segundo o executivo, programas de apoio ao setor somam mais de 1 bilhão de euros por ano. "No Brasil, não contamos com instrumentos de apoio setorial de abrangência e escala comparáveis."

Vinhedo
A compreensão da variedade de terroirs pode ser parte do futuro próximo do espumante brasileiro

O preço fora da adega

E essa conta tende a subir. A partir de janeiro de 2027, o Imposto Seletivo passa a incidir sobre bebidas alcoólicas. As alíquotas ainda não foram definidas, mas entidades do setor estimam que a carga total sobre o vinho pode chegar a cerca de 55% (via Economic News Brasil). Além do percentual, aliás, produtores temem o efeito no caixa: no novo sistema, a demora para recuperar créditos de insumos como garrafas importadas e rolhas pode apertar a liquidez de quem guarda o vinho por meses antes de vender.

Ao mesmo tempo, o concorrente importado ficou mais barato. Desde maio, espumantes europeus a partir de US$ 8 por litro entram no país sem imposto de importação. O Champagne é uma das exceções: atualmente taxado em 20%, ele terá redução gradual em oito anos. Os similares europeus de entrada devem chegar à tarifa zero em 12 anos, prazo conquistado pelo setor na negociação. Em entrevista à Bloomberg Línea, Felipe Galtaroça, da Ideal.BI, avaliou que essa proteção ao espumante foi acertada e que a pressão maior recai sobre os vinhos finos nacionais. Em fevereiro, o vice-presidente Geraldo Alckmin prometeu uma salvaguarda por decreto caso as importações disparem.

Para Valduga, porém, a saída não passa por baixar preço: "o produtor nacional precisa competir com inteligência, demonstrando seus diferenciais sem entrar necessariamente em uma disputa de preços", diz.

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Questão de gosto

Se a briga não pode ser por preço, o espumante nacional precisa entrar em campo com outra tática: a personalidade. O que, cada vez mais, se prova uma estratégia vencedora. Afinal, como define Valduga, “o espumante brasileiro não é simplesmente uma alternativa ao importado, ele pode ser uma escolha com personalidade própria”.

O consenso entre os especialistas consultados por Seu Dinheiro é o frescor: “Já existe, sim, uma assinatura reconhecível”, defende Rodrigo Valerio, da Aurora, citando a versatilidade, equilíbrio e vividez da bebida. Para Aline Mabel, aliás, o traço em comum é uma “acidez viva, fruta limpa, álcool moderado e uma leveza que conversa muito bem com nossa gastronomia”.

Casos mais emblemáticos dessa identidade são a aderência à Moscatel como casta de entrada e à criação da D.O. Altos de Pinto Bandeira - a primeira denominação de origem exclusiva para espumantes no Hemisfério Sul, aliás. Conquistada junto ao INPI em 2022, ela lista castas autorizadas que ajudam a definir a identidade regional, com destaque para variedades como Chardonnay, Pinot Noir e Riesling Itálico, por exemplo.

Placa da vinícola Aurora em Pinto Bandeira
Estabelecimento de D.O. Altos de Pinto Bandeira foi parte importante da construção da identidade do espumante nacional

Os Brasis em uma taça

Mas falar de Brasil é ir além de Pinto Bandeira: “nossos espumantes vão muito além dessa D.O.”, explica Joana Bronze. “O principal diferencial do espumante brasileiro está na combinação entre condições naturais pluralistas, conhecimento técnico e liberdade para explorar diferentes estilos.” Como exemplos, a educadora cita o charmat de Riesling itálico de Chandon Brasil, em Garibaldi, e um projeto sudestino da Raízes do Baú, na Serra da Mantiqueira, que tem uma das únicas plantações de Meunier, casta clássica em Champagne, do Brasil. “Há muito o que se explorar e provar.”

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Naturalmente, explica Salton, essa evolução não aconteceu apenas pelas condições favoráveis do terroir nacional. Ele cita investimentos expressivos em tecnologia, conhecimento vitícola, pesquisa e aperfeiçoamento dos processos de elaboração, tanto pelo método tradicional quanto pelo charmat – um movimento impulsionado, aliás, pela necessidade de encontrar alternativas competitivas diante da crescente participação dos importados no mercado brasileiro de vinhos finos.

“E acredito, sim, que já exista uma assinatura brasileira reconhecível”, pondera Maurício. “Não precisamos reproduzir os estilos das grandes regiões produtoras internacionais. O Brasil está demonstrando que tem competência e características suficientes para construir e valorizar sua própria expressão no mundo dos espumantes.”

Além da taça flute

Se 60% das vendas cabem em três meses, o crescimento do setor de espumantes brasileiros está nos outros nove: “o próximo salto é deixar de ser a bebida da virada do ano para ser a bebida do ano inteiro”, diz Aline Mabel.

Para Joana Bronze, isso envolve levar o espumante para além da taça flute: para a mesa, para o verão, para a coquetelaria e inclusive para o enoturismo, sem perder de vista para quem se vende cada garrafa. “É importante ter a clareza do que, para quem e como oferecer um espumante de R$ 30 e um de R$ 300”, diz.

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Esse consenso em torno da educação é partilhado também por André Valduga: “o primeiro desafio é ampliar o conhecimento sobre a categoria. Ainda existe espaço para explicar melhor as diferenças entre métodos de elaboração, estilos, níveis de açúcar, regiões produtoras e propostas gastronômicas. Quanto mais o consumidor compreender o produto, maior será sua capacidade de escolher para além do preço ou da origem”. 

E aí entram em cena tanto o enoturismo brasileiro, por exemplo, que já corresponde a quase 35% da receita das vinícolas, segundo estudo da Escola de Enoturismo, quanto a participação de diferentes regiões, que ajudam a expandir o interesse e a valorização das borbulhas nacionais. A expansão de novas denominações de origem, aliás, além de linhas desalcoolizadas, ajudariam a contemplar novas tendências de comportamento e bem-estar, segundo Rodrigo Valerio, da Aurora.

Vinícola Salton
Ampliação do enoturismo é uma das etapas que podem colaborar com a ampliação da presença do espumante brasileiro

“Hoje recebemos feedbacks de varejistas, formadores de opinião e especialistas que participam de concursos internacionais e consumidores que posicionam o Brasil entre as três principais referências mundiais em qualidade de espumantes, ao lado de França e Itália”, diz Maurício Salton. O que, cada vez mais, coloca o país em uma trilha independente dos clássicos europeus, com um espumante de DNA próprio, que não precisa referenciar Champagne a todo momento, defende Joana Bronze: “Que aprendamos com essas regiões, mas possamos construir nossa própria narrativa”.

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