Da pele ao osso: o que cada procedimento estético consegue tratar e até onde eles chegam
Especialistas explicam como botox, lifting e outros funcionam, para quem são indicados e em que momento aparelhos e injetáveis deixam de dar resultado

Muita gente chega ao consultório pedindo um procedimento pelo nome, seja ele botox, bioestimulação, laser ou tantos outros. Só que cada um deles age em uma camada diferente da face, e o que suaviza uma ruga de expressão pouco faz por um rosto que perdeu volume ou sustentação. É que o envelhecimento acontece em várias camadas ao mesmo tempo, da superfície da pele até o osso, e saber onde cada procedimento atua ajuda a entender por que alguns deles funcionam, e outros nem tanto.
A pele propriamente dita tem quatro camadas, explica a dermatologista Mônica Aribi, sócia efetiva da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD). São a epiderme, a derme papilar, a derme reticular e a hipoderme, formada por gordura. Abaixo delas ficam músculos, ligamentos e osso, que também se transformam com a idade. “Entender essa arquitetura é o que separa um tratamento preciso de um tratamento genérico”, afirma Érika de Paula Godinho, ortodontista e CEO da CULT, clínica paulistana de estética e bem-estar.
Com os anos, a epiderme fica mais fina e as papilas dérmicas, pequenas ondulações que prendem a epiderme à derme, se achatam. “As células da derme se tornam menos ativas, o que significa que a fisiologia da pele fica comprometida quanto às trocas entre elas”, diz Mônica.
Os efeitos aparecem no espelho de formas diferentes. “Na epiderme, a renovação desacelera e surgem opacidade e manchas. Na derme, perdemos colágeno com o tempo, e é daí que vem a flacidez”, afirma Érika. Segundo a profissional, pele opaca, textura irregular, poros aparentes, manchas superficiais, desidratação e linhas muito finas costumam indicar alterações na epiderme. Perda de firmeza, flacidez leve a moderada, pele mais fina, rugas estáticas, cicatrizes de acne e estrias estão mais ligadas à derme.
Raramente é só a pele
A perda de volume no rosto quase sempre começa abaixo da pele. Érika conta que a gordura facial não forma uma camada contínua e se divide em compartimentos, dos superficiais aos mais profundos. Com o tempo, os profundos, que servem de apoio, perdem volume, e a gordura de cima desce sem essa base. É esse deslocamento que aprofunda o bigode chinês, o sulco que vai do nariz ao canto da boca, e acentua as olheiras.
O osso também muda. Ele se renova o tempo todo, com células que retiram o tecido velho e outras que formam tecido novo, e com a idade e a queda hormonal a reabsorção passa a superar a formação. “Consequentemente, a cavidade dos olhos se alarga, a maxila recua e a mandíbula perde definição, fazendo com que a pele e a gordura percam sua principal plataforma de sustentação”, afirma a ortodontista.
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Esse diagnóstico muda o tratamento. Para Érika, aparelhos de laser, ultrassom e radiofrequência firmam a pele, mas não devolvem o volume perdido. “Essa distinção é essencial para não gerar expectativa errada.”
Volume se repõe com preenchimento de ácido hialurônico, aplicado em pontos como malar, mandíbula, queixo e olheiras, e a ideia, segundo Érika, é “restaurar a estrutura, nunca transformar o rosto”.
Para evitar o exagero que virou queixa comum nos consultórios, Mônica trabalha com um limite. “Na minha opinião, a colocação do preenchimento deve ser sempre feita com ácido hialurônico, tendo, como volume máximo a ser colocado em todas as áreas da face, no máximo cinco ampolas ou 5 ml. Mais que isso é exagero.”
Cada camada, uma tecnologia

Os bioestimuladores ativam o fibroblasto, a célula da derme que produz colágeno. O estímulo pode vir de substâncias injetadas, como o ácido polilático e a hidroxiapatita de cálcio, ou de aparelhos que aquecem a pele em profundidades controladas. Nos aparelhos, de acordo com Érika, o calor contrai o colágeno que já existe e ativa a produção de colágeno novo, em um resultado que continua evoluindo por 60 a 90 dias.
Cada tecnologia alcança uma camada. O laser de CO2 fracionado abre microcolunas de renovação na epiderme e na derme e preserva a pele entre elas, o que acelera a cicatrização, e é indicado para textura, poros, cicatrizes de acne e rugas finas.
Para manchas, a clínica de Érika usa o Fotona StarWalker (laser Q-switched), com pulsos ultracurtos que fragmentam o pigmento em partículas eliminadas pelo próprio organismo. Radiofrequências monopolares como Volnewmer e Coolfase aquecem a derme profunda e resfriam a superfície ao mesmo tempo, com foco em firmeza e espessura da pele.
Já o ultrassom microfocado, usado em aparelhos como o Ultraformer, vai mais fundo. Ele concentra energia em pontos milimétricos de calor, e cada ponteira trabalha uma profundidade. As mais superficiais atuam na derme, e a de 4,5 mm chega à gordura profunda e ao SMAS, uma camada de tecido fibroso e muscular que fica abaixo da gordura superficial e sustenta o rosto. “O resultado vem em duas fases, a contração imediata dos tecidos e a produção de colágeno novo nos meses seguintes”, explica Érika.
Injetável ou aparelho?

Para Mônica, a escolha entre injetável e aparelho tem a ver com segurança. “Os bioestimuladores injetáveis têm várias contraindicações, como doenças autoimunes, doenças oncológicas, entre outros problemas.” Aplicados no lugar errado, podem formar nódulos que duram anos ou nunca desaparecem. “O mais seguro é fazer estímulos por tecnologias, pois o estímulo se dá na própria pele, sem nada artificial agindo nela.”
A toxina botulínica, conhecida pela famosa marca Botox, trabalha em outra camada. Érika explica que ela relaxa a contração do músculo e suaviza as rugas de expressão, e o bioestimulador age na estrutura, produzindo colágeno. “São ferramentas complementares, e uma não substitui a outra.”
Mônica defende o uso preventivo a partir dos 20 anos. “A aplicação de toxina botulínica deve ser feita de maneira preventiva para evitar que as rugas de expressão frisem a pele e deixem marcas que, com o envelhecimento, ficam difíceis de se apagar.” A exceção são pacientes com muita flacidez ou com rugas de expressão antigas e muito profundas, porque nesses casos a toxina pode comprometer a abertura do olhar.

O caso da cirurgia
A sigla SMAS vem de Sistema Músculo-Aponeurótico Superficial, e a camada inclui parte da musculatura do rosto. “Quando o SMAS perde firmeza, o rosto cai como um todo”, diz Érika.
Para o cirurgião plástico Paolo Rubez, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), nenhum rejuvenescimento fica completo sem tratar essa camada. “Rejuvenescer o rosto sem focar no SMAS é um tratamento muito incompleto e que não irá trazer resultados duradouros e satisfatórios.” Na cirurgia, é a estrutura tratada pelas técnicas mais recentes, como o Deep Plane Facelift, e onde ele vê a maior evolução dos últimos cinco anos.
Os fios de sustentação funcionam para um perfil específico de paciente. “São indicados para pessoas com flacidez sem gordura, pois não funcionam em rostos pesados”, afirma Mônica. A principal ação deles, para a dermatologista, é estimular o colágeno, mais do que puxar os tecidos. O paciente ideal tem entre 40 e 50 anos, rosto fino e flacidez. Mas o efeito de tração é temporário e não melhora a qualidade da pele, lembra Érika. “Quando a flacidez é acentuada, a resposta honesta é a cirurgia.”

A evolução do lifting
O lifting facial mudou nos últimos anos. As técnicas que mais evoluíram, segundo Paolo, são as que reposicionam os planos profundos do rosto, como o SMAS e a musculatura. “Isso se dá através da liberação dos ligamentos da face e mobilização das estruturas para a posição que elas ocupavam na juventude.” A cirurgia também retira o excesso de pele do rosto e do pescoço.
A indicação costuma surgir quando os procedimentos menos invasivos deixam de dar resposta, o que acontece, em geral, por volta dos 45 anos, de acordo com o cirurgião. “Normalmente, as queixas principais são de excesso de flacidez, perda de definição e acúmulo de tecido na região da mandíbula e pescoço”, completa o cirurgião.
Uma combinação de sucesso
Combinar tratamentos é comum e, para Mônica, ajuda a evitar excessos. A ordem começa pelas tecnologias, e os injetáveis vêm depois, com a pele já resfriada. Respeitar a camada certa também evita complicações. A dermatologista explica que um produto aplicado na profundidade errada pode causar nódulos visíveis ou palpáveis, granulomas de corpo estranho, infecções e até reações inflamatórias graves, com febre e mal-estar.
Na avaliação individual, Érika define o que faz sentido, em que sequência e com qual intervalo, “para que cada tratamento potencialize o seguinte”. Para ela, a escolha não começa pelo procedimento. “A mesma queixa pode ter causas diferentes, e quase sempre envolve mais de uma camada. A camada orienta a escolha, mas quem decide é o diagnóstico.”
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