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BALANÇO ARTÍSTICO

Inhotim completa 20 anos, mais visitado e representativo do que nunca: como chegamos até aqui?

O maior museu a céu aberto do mundo, instituto em Brumadinho completa 20 anos celebrando o valor da arte, com Dalton Paula e davi de jesus do nascimento e Laís Myrrha na programação

Instituto Inhotim
Instituto Inhotim - Imagem: istock/Tati Campelo

Em 2026, o Instituto Inhotim completa 20 anos. E o faz em ascensão, com recorde de público registrado ainda ano passado, superando 350 mil visitantes.

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Trata-se de um número superlativo, justificado, talvez, pelas dimensões do próprio empreendimento: localizado em Brumadinho, Minas Gerais, o instituto combina arte contemporânea e um vasto jardim botânico, abrigando mais de 700 obras de artistas renomados em 140 hectares de visitação.

Pensado como parque, ainda que estruturado como museu, possui mais de 20 galerias de arte contemporânea e obras ao ar livre, integradas a um jardim botânico com mais de 4.300 espécies de plantas. Seu acervo conta com obras de mais de 280 artistas de 43 países.

Grande em quantidade, expressivo em relevância: num país como o Brasil, acervos desse tamanho abertos ao público e articulados junto a uma programação de lazer, bem-estar e ecologia oferecem uma forma mais eficiente de educação arte, através da experiencia, da vivência.

Em última instancia, além de gerar identificação e senso de comunidade, a iniciativa, idealizada nos anos 1980 pelo empresário Bernardo Paz, também gera emprego, fomenta talentos e educa um colecionismo local. Longe de um roteiro cultural como o de São Paulo, exerce o trabalho formativo de compreensão da arte como algo acessível, possivel.

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É então que, se tratando de uma entidade privada e sem fins lucrativos, o papel da bilheteria junto ao patrocínio torna-se fundamental. Trata-se de entender a arte como espaço de reflexão, em constante transformação, e que se valoriza quando o maior numero de pessoas participa dessa discussão.

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Instituto Inhotim
Instituto Inhotim

Quanto vale e quanto custa

Talvez umas das discussões mais pertinentes e difíceis dentro do campo das artes é discutir valor. Numa sociedade pautada pelo lucro, quando não se fomenta uma educação crítica, o entendimento de valor subjetivo acaba sendo através do material. Quando não se sabe quanto vale, entende-se valor por quanto custa.

Empreendimentos como Inhotim acabam no centro dessa discussão. Idealizado inicialmente como uma forma de abrigar uma coleção particular em um projeto robusto de paisagismo, o Inhotim recebe obras, artista e instalações icônicas no mundo das artes, vira instituto e abre ao público pela primeira vez em 2006.

O movimento não é incomum no mundo das artes, grandes coleções se institucionalizando como forma de patrimônio privado aberto ao público. Veja, arte como herança pode parecer maravilhoso, mas ela só permanece e mantém o seu valor se for cuidada, gerida, restaurada. Nesse sentido, institucionalizar uma coleção permite com que as obras recebam o cuidado e atenção necessárias para a manutenção deste patrimônio.

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O pacto artístico

Além disso, arte só acontece quando participa de uma experiencia social e compartilhada. Isto é, existe um pacto social que entende algo como arte, que valoriza como tal. É isso que atribui valor simbólico a um objeto que pode ou não ter um elevado valor material. É justamente a construção social e uma articulação mercadológica que valoriza uma obra de arte a ponto de ir para o museu, movimentar feiras e ser vendida por milhões em leilões.

Claro que nem sempre fica claro como isso acontece porque não existe uma formula certa. Cada artista, afinal, tem uma trajetória. Mas é a percepção de valor cultural que define o valor financeiro que uma arte vai ter. E aí, propostas como o Inhotim interferem na construção desse valor cultural, a partir do seu acervo e de suas novas aquisições. Construir valor cultural com foco ativo na educação não só fomenta impacto social, mas também valoriza as obras individualmente e a carreira desses artistas, justamente por reforçar seu entendimento social como arte.

Instituto Inhotim
Instituto Inhotim

2020 e nova proposta curatorial

Instituições de arte, sejam museus, galerias, feiras ou institutos, são responsáveis pela construção e manutenção de um entendimento sobre arte. Se está no museu, é arte. Se tem exposição, deve ser importante. Mas será mesmo?

Grande parte da discussão em arte dos últimos 10 anos, no mínimo, tem sido a falta de representatividade e diversidade nas artes visuais. A própria historia da arte é majoritariamente branca, masculina, heterossexual. Nesse sentido, resgatar outras perspectivas não foi apenas o correto a se fazer moralmente, como também foi rentável, comercialmente.

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E aí entram artistas indígenas, pretos, LGBTQIAPN+, há um aumento expressivo de mulheres com pautas femininas e feministas e representantes da arte popular passam a ser exibidos ao lados de mestres clássicos. O que já era claro para todo setor cultural e artístico, agora, ganha aderência no mercado. E isso faz toda diferença.

No Inhotim, isso fica mais claro a partir de 2021, com o projeto expositivo de longa duração em homenagem ao poeta, escritor, dramaturgo, curador, artista plástico, professor universitário, pan-africanista e parlamentar Abdias Nascimento (1914 - 2011). Essa nova proposta abre espaço não só para novas pesquisas, como artistas e profissionais que visavam reduzir as lacunas de acessos entre artes e minorias.

A doação total do acervo e a criação de uma nova governança em 2022 também foram passos importantes na emancipação do espaço e a possibilidade de abraçar propostas com um sentido mais amplo, a nível institucional. Isto é, fomentar valor naquilo que faz sentido junto a missão do Inhotim e não ao que seria pertinente apenas como valorização da sua coleção.

Longe de um movimento individual, é também uma escolha reforçada com os artistas e obras selecionados para a celebração de 20 anos do Inhotim.

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Aniversário de 20 anos celebrando Dalton Paula e davi de jesus do nascimento e Laís Myrrha

Grandes artistas, poéticas potentes, trabalhos valorizados no mercado. Mesmo assim, escolher esses trabalhos nesse momento não deixa de ser um statement.

A prática multidisciplinar de Dalton Paula atravessa pintura, instalação, fotografia e vídeo. Ela investiga a construção e a presença de sujeitos negros na história brasileira e na diáspora africana. Articulando referências como quilombos, terreiros e tradições afro-brasileiras, sua obra reimagina narrativas e cria espaços de transformação simbólica.

Na exposição Dupla Cura, esses interesses se organizam em torno de eixos como corpo negro, sagrado, território, história e cura. A mostra reúne obras de diferentes períodos, trabalhos inéditos e inclusive diálogos com comunidades quilombolas. A ideia é propor novas leituras históricas e a reconstrução de memórias apagadas por meio da arte. Um gesto de cuidado, mas também de pertencimento e resistência.

Tororoma, de davi de jesus do nascimento (a grafia correta é tudo em minúscula), é uma instalação composta por três pinturas, um vídeo gravado nas Cavernas do Peruaçu, Minas Gerais, e carrancas produzidas pelo Mestre Expedito. Juntos, eles articulam diferentes linguagens em um ambiente contínuo que evoca fluxo e transformação, inspirados nas águas e paisagens do sertão mineiro, especialmente o Rio São Francisco. Comissionada pelo Inhotim, a obra resulta de pesquisas realizadas em locais como Ilha do Ferro e Piranhas (Alagoas), por exemplo, e conta com patrocínio da Vale via Lei Rouanet.

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Já em Contraplano, Lais Myrrha apresenta uma escultura monumental comissionada que articula arquitetura e paisagem. A referência é ao edifício de Oscar Niemeyer na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte. Ao deslocar essa estrutura para Inhotim, a artista reconfigura a percepção do território, aproximando a linguagem da arquitetura moderna de uma paisagem marcada pela mineração. Da mesma forma, evidencia o uso de materiais como concreto e aço como elo entre construção civil, indústria e meio ambiente. A obra integra um contexto institucional sustentado por parcerias e patrocínios via Lei Rouanet, com destaque para Vale, Nubank, Shell, Itaú, entre outros apoiadores.

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