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RIO DE SABOR

Do Centro à Barra, um raio-x da boa mesa do Rio de Janeiro em 2026

Percorremos o Rio de Janeiro atrás dos sabores e histórias que roubaram olhares do Brasil e do mundo para a vibrante cena fluminense

Lilia, no Rio de Janeiro
Lilia, no Rio de Janeiro - Imagem: Reprodução/Instagram

Existem alguns clichês sobre comer no Rio de Janeiro: praia, caipirinha, frutos do mar e a sensação de que a alta gastronomia mora a 400 quilômetros dali, em São Paulo. Os rankings inclusive alimentam a tese, com a capital paulista somando mais casas premiadas há mais tempo.

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Bastam cinco dias comendo pela cidade, no entanto, para descobrir que o clichê envelheceu. Entre um balcão que o mundo inteiro disputa e uma rua eleita a mais cool do planeta, o Rio deixou de ser coadjuvante. Fomos conferir de perto, do Centro à Ilha da Gigoia.

Centro And The City

Começando pelo centro, onde fica endereço mais descolado da cidade – ou melhor, do mundo. A Rua do Senado, na Lapa, foi eleita em 2025 pela revista inglesa Time Out a rua mais cool do planeta. Foi a primeira vez, aliás, que um endereço sul-americano chegou ao topo, à frente de vias de Osaka, Porto e Nova York. E não à toa. Em poucas quadras convivem casarões do século 19, antiquários, roda de samba, arte e uma cena gastronômica que nasceu quase por acidente.

Um dos responsáveis por este reconhecimento, aliás, é o restaurateur Lucio Vieira, que em 2017, sem dinheiro para os aluguéis da Zona Sul, abriu o Lilia num sobrado do fim do século 19. Com cozinha focada nos ingrediente, mas também na sazonalidade, trabalham tanto com menu degustação (R$410) quanto com as mesmas opções deste menu no à la carte.

Em 2020, Vieira abriu o Labuta Bar. Depois viria o Braseiro Labuta, que no último mês de fevereiro ganhou as redes sociais quando Sarah Jessica Parker sentou ali numa quinta de Carnaval. Por lá, a atriz de Sex And The City pediu bife ancho com farofa e pastel. Em vez do Cosmopolitan, no entanto, optou pela Caipirinha.

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Sarah Jessica Parker no Braseiro Labuta
Sarah Jessica Parker no Braseiro Labuta

Os melhores – do mundo

Do Centro seguimos em direção à Zona Sul, com parada obrigatória no Humaitá. onde a poucas quadras de distância, ficam os dois representantes cariocas do Latin America's 50 Best Restaurants: Oteque e Lasai.

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O primeiro é fruto da inquietação do paranaense Alberto Landgraf, que abriu o Oteque, em 2018, num salão de cozinha aberta na Rua Conde de Irajá. A primeira estrela Michelin veio em um ano, a segunda em dois. Landgraf chama o que faz de cozinha naturalista brasileira. Seu menu degustação (R$ 1.250) é guiado pela sazonalidade e a harmonização é uma das mais elogiadas do país.

O segundo é o projeto de vida de Rafa Costa e Silva. Com dez lugares num balcão de frente para a cozinha, é apresentado o menu de quinze tempos (R$ 1.380). Em 2025, aliás, foi o único brasileiro entre os 50 melhores do mundo, em 28º lugar. E o capítulo seguinte já está escrito: o Lasai se prepara para deixar o Humaitá e ocupar o topo do novo Sofitel de Ipanema, de frente para a praia.

O local e o internacional

Logo ali do lado está o Jardim Botânico, bairro residencial de atmosfera tranquila onde a cena gastronômica vive seu melhor momento. Começamos pelo Sud, o pássaro verde, da veterana Roberta Sudbrack. A casa não tem placa na fachada, e a explicação da chef é de que casa de verdade não tem letreiro na porta.

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A visita, de fato, tem ares domésticos e o cardápio segue a mesma lógica: boa parte dos pratos carrega relação afetiva com a história de Roberta, a começar pelo forno a lenha de onde sai quase tudo.

Poucas quadras adiante, o Jojö Café Bistrô inverte a planta tradicional de um restaurante: a cozinha ocupa todo o espaço do imóvel, e as portas são suas únicas aberturas. As mesas, à luz de velas, ficam todas na calçada. De lá sai uma carta de arrozes que vale ser compartilhada e experimentada em sua totalidade.

Há também, claro, o Elena Horto. Instalado num casarão restaurado com projeto do escritório Bernardes Arquitetura (um dos mais respeitados do país), com salão, varanda e rooftop, tem reservas disputadas. O chef é Itamar Araújo, ex-Mee (o japonês estrelado do Copacabana Palace). Aqui, no entanto, ele apresenta uma cozinha de influências que passeiam por Tailândia, Singapura, Japão e Coreia. A identidade singular levou a casa a receber inclusive o prêmio de melhor asiático do Rio pela Veja Comer & Beber por dois anos seguidos.

Herança e patrimônio

Do Horto seguimos para o Leme, onde um clássico encontra um moderninho na mesma calçada. Na Rua Gustavo Sampaio, o Shirley é uma instituição gastronômica da cidade. Aberta em 1954 por imigrantes galegos, aliás, teve o nome emprestado da atriz Shirley Temple. Agora, acaba de ser declarado patrimônio cultural do Rio. O salão pequeno guarda alguns dos melhores frutos do mar da cidade, escolhidos pelo cliente na vitrine da entrada. Mas a croqueta de Bacalhau (R$29) é a melhor da cidade.

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Poucas quadras adiante, na mesma rua, o Yayá Comidaria conta outra história do Brasil. A chef Andressa Cabral abriu a casa em 2021 inspirada nos tabuleiros de acarajé, e faz da herança africana o fio condutor do cardápio: carne de onça, frango com quiabo, moqueca para dividir e drinques com nome de romance de Jorge Amado.

Na cozinha do postal

Ipanema e Leblon dispensam apresentação. O difícil é escolher. Começamos pelo Bodegón, na Praça General Osório, onde se come a melhor milanesa da cidade em um ambiente que é basicamente uma adega. Por lá, janta-se, literalmente, em meio às garrafas de vinho.

Em outra praça do bairro, a Nossa Senhora da Paz, o restaurateur Leo Rezende montou o Pici, trattoria italiana prestes a completar dez anos e detentora do selo Bib Gourmand do Guia Michelin, e o Glória, bistrô de inspiração francesa, um cardápio com clássicos franceses e uma adega de mil garrafas.

Ainda na praça, o excelente bar Nosso, é presença constante nos rankings internacionais de bares, e distribui em três andares a coquetelaria de Daniel Estevan.

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E já que estamos falando de bares, vamos ao Leblon pelo Liz Cocktail e Wine, na Dias Ferreira. É um clássico contemporâneo, está entre os 500 melhores bares do mundo, com coquetéis impecáveis e um charme inigualável.

O Labuta Leblon, na Dias Ferreira, à primeira vista parece mais um boteco, mas bastam dois petiscos para perceber que o ambiente é só cenografia, e que ali dentro, sob o comando da chef Tita Martinuci, se pratica alta gastronomia disfarçada de botecagem.

Da barco na Barra

A última parada pede travessia até a Barra. Atrás do shopping Barra Point, um barco cruza o canal em direção ao arquipélago da Lagoa da Tijuca, onde o ritmo é de cidade do interior. É ali, numa casa azul de esquina na Ilha Primeira, vizinha de porta da Gigoia, que funciona o Ocyá, do chef e pescador Gerônimo Athuel. Pescador antes de ser chef, ele captura parte do que serve, matura na câmara fria e leva tudo à parrilla. O sucesso foi tanto, aliás, que o restaurante figura a 25º posição no ranking de 100 melhores do país da Exame.

Serviços

Bodegón. Rua Jangadeiros, 14, Ipanema. $$$

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Elena. Rua Pacheco Leão, 758, Horto. $$$

Glória Bistrô. Rua Barão da Torre, 340, Ipanema. $$$

JoJo Café Bistrô. Rua Pacheco Leão, 812, Jardim Botânico. $$

Labuta Bar e Braseiro Labuta. Rua do Senado, 65, Centro. $$

Labuta Leblon. Rua Dias Ferreira, 135, Leblon. $$

Lasai. Largo dos Leões 35, Humaitá. Reserva obrigatória. $$$$

Lilia. Rua do Senado, 45, Centro. $$$

Liz Cocktail & Co. Rua Dias Ferreira, 679A, Leblon. $$

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Nosso. Rua Maria Quitéria, 91, Ipanema. $$

Ocyá. Ilha Primeira, Barra da Tijuca. Acesso de barco pelos deques atrás do shopping Barra Point (cerca de R$7 por pessoa). Reserva essencial. $$$

ORO. Av. Gen. San Martin, 889, Leblon. $$$$

Oteque. Rua Conde de Irajá, 581, Botafogo. Reserva obrigatória. $$$$

Pici Trattoria. Rua Barão da Torre, 348, Ipanema. $$$

Shirley. Rua Gustavo Sampaio, 610, Leme. $$$

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Sud, o pássaro verde. Rua Visconde de Carandaí, 35, Jardim Botânico. $$$

Yayá Comidaria. Rua Gustavo Sampaio, 361, Leme. $$

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