Conseguir o visto americano ficou mais difícil? Veja o que aumenta suas chances de aprovação
Taxa de recusa dos brasileiros chegou a 14,87% em 2025, quase cinco vezes o patamar registrado nos melhores anos da série; ainda assim, o Brasil tem menos negativas do que a média mundial

Conseguir o visto para turismo nos Estados Unidos pode parecer uma missão quase impossível. Basta uma rápida busca nas redes sociais para encontrar relatos de entrevistas que duraram poucos minutos, pedidos recusados sem grandes explicações e candidatos que saíram do consulado sem entender o que deu errado.
Mas os números mostram um cenário menos assustador. Embora a taxa de recusa dos brasileiros tenha aumentado em relação à década passada, o Brasil ainda está entre os países com menor proporção de negativas do mundo.
Na média dos últimos 20 anos, o Brasil ocupa a 152ª posição entre 186 nacionalidades ordenadas pela taxa de recusa. Isso significa que os brasileiros têm menos pedidos negados do que aproximadamente 81% dos países analisados.
Em 2025, 14,87% dos pedidos de visto de turismo e negócios feitos por brasileiros foram recusados — o equivalente a cerca de um em cada sete. No mesmo ano, a média mundial chegou a 34,3%, a maior da série histórica e mais que o dobro do índice brasileiro.

Os dados fazem parte de um levantamento da Viaggi Vistos com dados da Adjusted Refusal Rate, taxa publicada anualmente pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos para vistos das categorias B1 e B2, destinados a viagens de turismo e de negócios, respectivamente.
O visto americano ficou mais difícil?
A taxa de recusa dos brasileiros saiu de 3,2% em 2012 e 2014 (os menores índices registrados nos últimos 20 anos) para o recorde de 23,16% em 2020.
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No entanto, desde 2021, o índice recuou e passou a oscilar na faixa dos 12% aos 15%. Em 2025, ficou em 14,87% — quase cinco vezes o menor patamar registrado, mas ainda bem abaixo da média mundial de 34,3%.

Para Gianluca Ferro, fundador da Viaggi Vistos e especialista com mais de 15 anos de experiência no mercado de vistos, a taxa atual se deve a uma combinação de fatores.
“O consulado americano ficou cerca de um ano e oito meses fechado durante a pandemia. Assim, houve um represamento muito grande de pedidos e, quando o atendimento voltou, foi como se uma represa tivesse estourado. Veio muita gente de uma vez para fazer a solicitação, com os mais diversos perfis”, explica.
“Somado a isso, houve um endurecimento das regras do governo americano. Antes, era possível renovar o visto sem entrevista até 48 meses após o vencimento; hoje, esse prazo caiu para 12 meses. Também deixou de existir a dispensa automática de entrevista para menores de 14 anos e maiores de 79, com exceção de alguns casos específicos de renovação”.
Quem costuma ter o visto americano negado?
De acordo com Gianluca Ferro, alguns fatores costumam fragilizar uma solicitação. São eles:
- estar desempregado ou não possuir ocupação definida;
- ter renda incompatível com o custo da viagem apresentada;
- ter menos de 30 anos e não ter diploma, não estar trabalhando e nem cursando uma formação superior;
- nunca ter realizado uma viagem internacional;
- possuir parentes em situação migratória irregular nos Estados Unidos;
- apresentar histórico criminal, especialmente em casos graves;
- fornecer informações vagas, incorretas ou contraditórias.
Nenhum desses pontos, isoladamente, determina necessariamente uma recusa, segundo o especialista. “Não é obrigatório ter viajado para outro país para conseguir o visto americano, por exemplo — mas ajuda bastante. Quanto mais viagens internacionais para destinos turísticos a pessoa tiver feito, mais ela demonstra ter um perfil de turista.”
O mesmo vale para idade, renda e formação. Ser jovem não é um problema por si só, mas um candidato com menos de 30 anos, sem trabalho ou estudo pode ter mais dificuldade para demonstrar que pretende retornar ao país.
O que costuma aumentar as chances de aprovação
Pela legislação americana, o solicitante de um visto de turismo precisa demonstrar que possui razões suficientes para voltar ao Brasil depois da viagem. Na linguagem do processo, essas razões são chamadas de vínculos.
“Vínculos são tudo aquilo que amarra a pessoa ao Brasil. Por exemplo, ter uma formação concluída ou em andamento, um emprego, família e histórico de viagens”, explica Ferro.
Os fatores positivos são, em geral, o contraponto dos pontos que levantam dúvidas no processo. Entre eles, o fundador da Viaggi Vistos destaca:
- emprego ou atividade profissional estável;
- renda suficiente para pagar a viagem;
- curso superior concluído ou em andamento;
- histórico de viagens internacionais;
- vínculos familiares no Brasil;
- roteiro e objetivo de viagem coerentes com a realidade financeira do solicitante;
- informações verdadeiras e consistentes no formulário e na entrevista.
E não se engane: ter dinheiro na conta não garante a aprovação. “Já atendi um cliente com uma renda passiva e um patrimônio muito grandes, mas não trabalhava e não tinha formação. Mesmo tendo R$ 16 milhões na conta, o visto foi recusado”
Da mesma forma, imóveis e veículos podem ajudar a compor o perfil patrimonial, mas não substituem outros vínculos. “Uma casa não impede que alguém permaneça irregularmente em outro país. Por isso, trabalho, formação, família e histórico de viagens tendem a ter maior peso na análise.
Visto americano: quais são os erros mais comuns cometidos pelos brasileiros?
1. No preenchimento do DS-160
Antes da entrevista, o candidato precisa preencher o DS-160, formulário eletrônico oficial do governo americano usado para solicitar o visto. O documento possui mais de uma centena de perguntas sobre dados pessoais, trabalho, renda, viagens, familiares e histórico do solicitante.
Segundo Ferro, muitos pedidos começam a ter problemas justamente nessa etapa. Como o formulário original está em inglês, algumas pessoas interpretam perguntas incorretamente ou marcam opções que não correspondem à realidade.
Outro erro é responder as questões de maneira genérica. “Por exemplo, muitos colocam apenas o nome do cargo na descrição do trabalho. O ideal seria explicar onde trabalha, há quanto tempo, em qual área atua e qual é a sua formação”, explica Gianluca.
“A principal orientação é ser honesto nas respostas. Todas as respostas devem ser claras e verdadeiras, já que o governo americano consegue verificar inconsistências”
2. Na entrevista
Se no formulário a falta de detalhes pode prejudicar, durante a entrevista o erro costuma ser o contrário: falar além do necessário.
Isso porque as entrevistas duram, em média, apenas três minutos. Por isso, o candidato deve responder com clareza e objetividade exatamente ao que foi perguntado. Gianluca Ferro explica:
“O americano é muito objetivo. Caso o oficial pergunte quanto a pessoa ganha, por exemplo, basta informar a renda. Começar a explicar ganhos extras, despesas, aluguéis ou situações que não foram questionadas pode abrir espaço para novas dúvidas e contradições”.
Também é recomendável levar documentos que comprovem as informações apresentadas, como registros de trabalho, comprovantes de renda, matrículas e detalhes da viagem. Nem sempre o agente pedirá os papéis, mas eles devem estar disponíveis.
Existe um consulado mais fácil para conseguir o visto americano?
No Brasil, as entrevistas podem ser realizadas em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Recife e Porto Alegre. Um erro comum é achar que algumas unidades consulares aprovam mais vistos do que outras, ou que existem cotas diárias oficiais de aprovação.
Assim, o especialista recomenda escolher a unidade mais próxima ou conveniente. “Até porque viajar para outro estado apenas porque alguém afirmou que a aprovação seria mais simples pode até gerar questionamentos e levantar suspeitas”, revela Ferro.
Quem teve o visto negado pode tentar novamente?
Em tese, uma pessoa recusada pode preencher um novo formulário, pagar outra taxa e tentar novamente assim que encontrar uma data disponível. No entanto, reaplicar imediatamente nem sempre faz sentido.
O primeiro passo é revisar o DS-160 e tentar entender se houve algum erro de preenchimento. Se o candidato deixou de informar renda, descreveu incorretamente sua ocupação ou apresentou dados inconsistentes, uma nova solicitação com as informações corrigidas pode ter outro resultado.
Por outro lado, se o formulário estava correto e a negativa ocorreu por falta de vínculos, tentar novamente dias depois costuma não valer a pena. “Se o perfil é exatamente o mesmo, não adianta remarcar a entrevista na semana seguinte ou depois de 20 dias. A decisão tende a ser a mesma, porque nada mudou”, esclarece o especialista.
Nesses casos, Ferro recomenda aguardar pelo menos seis meses e fortalecer os vínculos da solicitação. Isso pode significar consolidar a situação profissional, iniciar uma formação, organizar melhor as finanças ou construir um histórico de viagens.
“É importante lembrar que o brasileiro está longe de ser o solicitante mais recusado do mundo. Uma negativa gera engajamento nas redes sociais e acaba criando a impressão de que todo mundo está sendo recusado, mas o visto americano é frequentemente aprovado”, tranquiliza o especialista.
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