CEO da Casas Bahia (BHIA3) detalha como quer ter lucro ‘sem depender da Selic’, mas mercado se assusta com prejuízo grande no 1T26
Mesmo após concluir a reestruturação do balanço, o CEO Renato Franklin afirmou que a companhia atravessa uma fase de transição e explicou a estratégia que envolve o avanço no digital, o crediário e a redução gradual do custo da dívida

A Casas Bahia (BHIA3) saiu do modo sobrevivência, mas a nova fase ainda está longe de ser confortável. A companhia está sofrendo na bolsa de valores nesta quinta-feira (14) após a divulgação dos resultados do primeiro trimestre de 2026.
A varejista reportou prejuízo bem acima do esperado pelo mercado, de R$ 1 bilhão no período, pressionado pela piora do resultado financeiro, que ficou negativo em R$ 1,17 bilhão, alta de 27% na comparação anual. No mesmo intervalo do ano passado, o rombo havia sido de R$ 408 milhões.
Com isso, a ação encerrou o dia em queda de 9,31%, negociada a R$ 1,85.
Apesar do resultado ruim, o Safra avalia de forma positiva os esforços de reestruturação da companhia, que seguem se refletindo em indicadores operacionais mais sólidos e em uma redução gradual das despesas financeiras ligadas à antecipação de recebíveis, ao financiamento de fornecedores e ao serviço da dívida na comparação trimestral.
“Embora ainda estejamos muito conscientes que o jogo não está ganho, saímos daquela fase onde todo mundo questionava sobrevivência e entramos em uma em que todos perguntam quando daremos lucro", afirmou o CEO Renato Franklin, em teleconferência de resultados.
Durante a conversa, ele detalhou como pretende chegar lá sem contar com a queda da Selic. "Temos uma estratégia bem definida, estamos conscientes do cenário macroeconômico e não estamos contando com a melhora. Se vier é upside, mas temos um plano claro para transformar a companhia numa companhia rentável que gera valor", disse o CEO.
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O caminho passa tanto pela captura gradual dos benefícios da reestruturação do balanço quanto pela expansão mais rentável do digital.
Ao mesmo tempo, a varejista aposta no avanço do e-commerce impulsionado por parcerias com plataformas como Mercado Livre, Shopee e Amazon, além do crescimento das receitas com crédito e serviços financeiros, considerados peças centrais da nova estratégia da companhia.
O impacto da transformação do balanço só será completo em 2027
Durante a teleconferência, Franklin destacou que, apesar da reestruturação do balanço ter sido concluída no fim de 2025, parte relevante das dívidas ainda segue atrelada a contratos antigos, fechados em condições mais caras e em um ambiente de maior percepção de risco para a varejista.
"O impacto completo dessa transformação só vai aparecer em 2027. Entre R$ 800 milhões e R$ 900 milhões em financiamentos ligados ao crediário vencem mensalmente e precisam ser renovados. Conforme esses contratos antigos fechados em condições mais caras vencem, a empresa consegue substituir por novas captações com juros menores", afirmou Élcio Ito, CFO da Casas Bahia, durante a conversa.
Esses financiamentos são necessários porque, como muitos clientes compram parcelado, a empresa precisa captar recursos para antecipar esse dinheiro e manter o caixa funcionando enquanto recebe os pagamentos ao longo dos meses.
Como a carteira de crediário da Grupo Casas Bahia possui prazo médio de cerca de 14 meses, a reciclagem completa dessa estrutura financeira também demora mais de um ano para acontecer integralmente. Com isso, os verdadeiros impactos da transformação do balanço ainda demoram um tempo para aparecer em sua totalidade.
Cabe lembrar que a transformação do balanço da Casas Bahia envolveu uma ampla reorganização financeira iniciada em 2023. Desde então, a varejista promoveu alongamento de prazos, reperfilamento de dívidas, conversão de debêntures em ações, monetização de ativos e mudanças no modelo de funding do crediário.
O prazo médio das obrigações financeiras foi ampliado de 22 para 72 meses, enquanto parte relevante das dívidas de curto prazo foi substituída por passivos de longo prazo, reduzindo a pressão imediata sobre o caixa.
As parcerias com Mercado Livre, Shopee e Amazon
Outro destaque no balanço foram as vendas. Embora as lojas físicas tenham caído 1,6% em relação ao mesmo período do ano passado, para R$ 6,2 bilhões, o ponto positivo na visão de analistas da XP foi o avanço de 27,4%, para R$ 3,2 bilhões, no varejo online (1P) — quando a companhia vende seus próprios produtos pela internet, não o de terceiros, como acontece no modelo 3P.
O salto foi "patrocinado" pelas parcerias da Casas Bahia com plataformas de e-commerce estrangeiras, principalmente o Mercado Livre (MELI34). A brasileira também tem acordos com Shopee e Amazon.
Segundo Franklin essas plataformas ampliaram o alcance da marca e ajudaram a atrair novos públicos para os canais digitais da varejista, sem que a empresa precisasse abrir mão da própria operação. Além disso, a canibalização foi menor do que esperado.
“Hoje a gente consegue estabelecer um crescimento dos canais próprios. Um pedaço vem do aumento de relevância de marca. Essas plataformas digitais trabalham muito bem a aquisição de clientes e o alcance. Tem uma complementaridade de base: a gente é muito forte nas classes C, D e E, enquanto elas pegam mais A, B e C”, afirmou o CEO da Casas Bahia.
Além disso, de acordo com o executivo, vender dentro dessas plataformas hoje pode ser mais eficiente do que investir pesado em mídia digital tradicional, cujo custo disparou nos últimos anos. “Quando a gente olha, a rentabilidade desses marketplaces entra no meio dos dois. Ela está acima da mídia paga e abaixo do canal orgânico”, afirmou.
Além das vendas, Franklin indicou que as plataformas também estão ajudando a monetizar a logística da companhia. As lojas físicas passaram a funcionar como mini hubs de distribuição, permitindo entregas mais rápidas e melhor aproveitamento da infraestrutura.
Já no caso das lojas físicas, o canal ainda é mais sensível ao cenário macroeconômico, já que concentra uma parcela maior da população de renda mais baixa e, consequentemente, mais dependente de crédito.
Os demais caminhos para o lucro, sem depender da Selic
Um dos principais pilares dessa estratégia é justamente o avanço do crediário, considerado pela administração como peça central para elevar a rentabilidade da companhia. Segundo Franklin, a Casas Bahia pretende ampliar gradualmente a participação do crédito nas vendas, principalmente no digital, além de aumentar as receitas ligadas a serviços financeiros.
“Hoje tem muito apetite para funding desse produto. A gente agora começa a focar todo o direcionamento estratégico da companhia em avanço de venda de crediário, que é o que vai mudar a rentabilidade dessa companhia”, afirmou o executivo.
Ao mesmo tempo, Franklin reforçou que a empresa seguirá conservadora na concessão de crédito nas lojas físicas, priorizando qualidade da carteira e geração de caixa em vez de crescimento acelerado de vendas.
“Não vamos comprar crescimento com racionalidade, não vamos fazer nada para mostrar um trimestre mais positivo que prejudique o longo prazo da companhia”, disse.
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