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CAUTELA CONTINUA

Tudo indica que inflação é transitória, diz economista-chefe do Inter sobre impacto geopolítico; mas Selic já não vai mais cair tanto

Há espaço para aceleração dos cortes da Selic no segundo semestre, mas por ora Copom deve continuar com a mesma cautela, diz Rafaela Vitória

Rafaela Vitória, economista-chefe do banco Inter.
Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter, que elevou projeção da Selic no fim de 2026 de 12% para 12,75%. Imagem: Divulgação

As incertezas globais desencadeadas pela guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, pela postura beligerante do presidente norte-americano, Donald Trump, e o consequente impacto nos preços do petróleo levaram o mercado a recalcular a rota para a inflação e a taxa Selic.

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Se antes era esperado um ciclo de cortes de juros mais forte no primeiro semestre, com ajustes menores na segunda metade do ano, agora a expectativa passou a ser de um Banco Central mais cauteloso e cortes menores, de 0,25 ponto percentual a cada reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).

Esta é a expectativa majoritária do mercado para a reunião que será concluída nesta quarta-feira (29). Com isso, a taxa básica de juros cairia dos atuais 14,75% ao ano para 14,50%, ainda um patamar bastante elevado.

No entanto, segundo Rafaela Vitória, economista-chefe do banco Inter, não está descartada a possibilidade de uma inversão da expectativa do início do ano, com cortes menores no primeiro semestre e uma aceleração da queda da Selic na segunda metade do ano.

“Mas isso depende da resolução do conflito e de um retorno do preço do petróleo para perto de US$ 80”, disse Vitória, em entrevista ao Seu Dinheiro.

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Ainda não vemos esses fatores no horizonte, com todas as idas e vindas na negociação entre EUA e Irã, então por enquanto o Brasil flerta com uma Selic terminal (no fim do ciclo de cortes) na casa dos 13%, patamar ainda bastante restritivo.

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O próprio Inter, inclusive, subiu recentemente sua expectativa para a Selic no fim do ano de 12% para 12,75%. A inflação neste ano também deve ficar acima do teto da meta, hoje em 4,5% — 4,9%, na visão do Inter, e 4,86%, segundo o último Boletim Focus do Banco Central.

Ainda assim, a economista-chefe do Inter espera que a pressão inflacionária provocada pelas incertezas globais seja transitória.

“Ainda é cedo para afirmarmos com certeza que há características de uma inflação transitória, mas tudo indica que sim. A política monetária está bastante restritiva, o crédito tem dado sinais de fadiga, tanto para as famílias quanto para as empresas, e isso permite que o Copom siga cortando juros, ainda que em ritmo menor”, diz.

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O IPCA-15 divulgado ontem (28) — indicador considerado a prévia da inflação oficial — já veio abaixo das expectativas do mercado, embora tenha evidenciado a pressão da alta recente do preço do petróleo sobre alimentos e transporte.

Na visão de Rafaela Vitória, a inflação de serviços não mostrou uma deterioração tão grande, e o indicador confirmou essa interpretação de que se trata de uma inflação mais transitória, embora ainda sejam necessários mais dados.

A economista lembra que o patamar de juros no Brasil ainda é bastante restritivo, mesmo com a inflação pressionada, e que o nível de endividamento das famílias e das empresas deve resultar em uma desaceleração do crédito neste ano, o que tende a reduzir a demanda e a atividade no segundo semestre.

O risco são os estímulos fiscais que devem ocorrer pelo fato de se tratar de um ano eleitoral, que tendem a continuar colocando lenha no fogo da economia e, consequentemente, da inflação.

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O que esperar da comunicação do Copom

Para Rafaela Vitória, a comunicação do Copom na reunião desta quarta deve seguir a mesma linha da reunião anterior, mantendo o tom de cautela diante das incertezas.

Por outro lado, há sinais de desaquecimento da demanda, do crédito, além de um câmbio mais favorável e um petróleo caro, mas estável no patamar dos US$ 100.

“Não vemos espaço para um comunicado sobre uma mudança de ritmo na próxima reunião, mas também não vemos necessidade de o Copom alertar para uma possível pausa neste momento”, diz a economista-chefe do Inter.

Ela acrescenta ainda que o colegiado deve indicar que ainda há espaço para calibragem na próxima reunião, mas seguindo o ritmo atual de 0,25 ponto percentual.

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Há risco de alta de juros nos Estados Unidos?

Já nos EUA, onde o banco central também decide juros hoje, a história é um pouco diferente da nossa. Por lá, o esperado é manutenção dos juros nesta quarta, diante não só da pressão inflacionária com a guerra do Irã, como também da atividade econômica ainda forte.

Nos momentos mais agudos do conflito, as expectativas de novos cortes de juros no segundo semestre reduziram, e estimativas de novas altas nas taxas ainda neste ano chegaram a surgir.

Rafaela Vitória explica que hoje o patamar de juros nos EUA já está bem mais próximo do juro neutro, aquele que nem estimula nem desestimula a atividade econômica — diferentemente do Brasil, que tem uma taxa muito restritiva.

“Uma alta da inflação aqui não impede um corte de juros, porque a taxa ainda é bastante restritiva. Lá, não existe esse cenário. A taxa já não está mais restritiva e, se a inflação ficar pressionada por mais tempo, não haveria espaço para mais cortes”, diz a economista.

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Ela ainda espera um ou dois cortes de juros na Terra do Tio Sam no segundo semestre e crê que essa pressão inflacionária decorrente das incertezas globais também seja transitória por lá.

No entanto, admite que existe sim o risco de que a economia americana permaneça aquecida, com uma pressão inflacionária mais persistente.

VEJA TAMBÉM: Dólar abaixo de R$ 5: sonho ou realidade? Seu Dinheiro entrevista Alfredo Menezes, CEO e CIO da Armor Capital

Ano de eleição: ajuste fiscal tem mais peso para os juros que conflitos globais

Questionada sobre a eleição presidencial no Brasil no segundo semestre, Vitória acredita que a sinalização de um ajuste fiscal “sem dúvida” contribuiria para cortes maiores na Selic.

“Independentemente do candidato que vença, o anúncio de um ajuste fiscal mais crível a partir de 2027 pode contribuir bastante para uma reancoragem mais forte da inflação longa e permitir uma queda maior de juros. Este é um fator mais relevante até do que o cenário externo hoje”, diz.

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Para ela, não seria nem o caso de grandes reformas necessariamente, mas sim de um controle um pouco mais efetivo dos gastos.

“Alguma mudança talvez na vinculação, na política de crescimento real do salário-mínimo e de benefícios. Não são pontos que dependem de uma forte articulação política em 2027”, exemplifica.

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