Pior do que a crise de 2015? BTG faz alerta sobre economia brasileira — e as coisas podem desandar mais cedo do que você pensa
Banco alerta que famílias brasileiras estão mais endividadas do que antes da recessão de 2015 e vê risco de desaceleração da economia caso o consumo dê lugar ao pagamento de dívidas

A economia brasileira vive hoje um cenário parecido com o que antecedeu uma das piores crises recentes do país, entre 2014 e 2016. Quem faz esse alerta é o BTG Pactual.
Para o banco, o elevado endividamento das famílias, a piora na qualidade do crédito e a perspectiva de desaceleração da renda criaram uma combinação que pode obrigar milhões de brasileiros a trocar o consumo pelo pagamento de dívidas nos próximos anos.
Assim, o processo desalavancagem ganhar força, resultando em uma uma freada relevante da economia em 2027, semelhante ao que ocorreu na recessão da década passada. Isso porque, embora esse movimento seja saudável para reequilibrar as finanças das famílias, ele também retira um importante motor da economia.
Segundo o estudo, o endividamento total já equivale a cerca de 49,7% da renda das famílias, contra 38,2% em 2014, enquanto o comprometimento da renda com o pagamento de dívidas subiu de 22,9% para 29,3%, ambos próximos dos maiores níveis da série histórica.
Mas o tamanho da dívida não é o único motivo de preocupação. A composição do crédito também mudou de forma desfavorável ao longo dos últimos anos.
Embora o financiamento imobiliário tenha ganhado espaço, cresceram também modalidades consideradas mais arriscadas, como cartão de crédito, crédito pessoal não consignado, consignado privado e empréstimos para beneficiários do INSS. Ao mesmo tempo, o financiamento de veículos perdeu participação na carteira das famílias.
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A lição deixada pela crise de 2015 no Brasil
Para embasar sua tese, o BTG resgata diversos estudos acadêmicos sobre crises de crédito ao redor do mundo. A literatura mostra que períodos de forte expansão da dívida das famílias costumam anteceder desacelerações econômicas importantes.
Isso porque o crédito impulsiona o consumo no curto prazo, mas aumenta a fragilidade financeira das famílias. Quando ocorre algum choque — como juros elevados, desaceleração da renda ou restrição na oferta de crédito — o consumo tende a cair de forma desproporcional.
Segundo o banco, o Brasil viveu exatamente esse processo entre 2003 e 2014. O crescimento acelerado do crédito ajudou a sustentar o consumo, mas também ampliou a alavancagem das famílias.
Quando a recessão chegou, entre 2015 e 2016, justamente os brasileiros mais endividados foram os que mais reduziram os gastos, especialmente entre as famílias de menor renda e aquelas expostas a modalidades de crédito mais caras.
Assim, o argumento é que a Selic não é o principal inimigo da economia no ano que vem, e sim esse potencial processo de desalavancagem.
O ponto de partida hoje é ainda pior
Nos últimos anos, a digitalização do sistema financeiro, a expansão do Pix e a maior inclusão bancária permitiram que milhões de brasileiros passassem a acessar crédito.
Esse movimento inicialmente ocorreu sobretudo entre famílias de menor renda, justamente aquelas com maior propensão a consumir, mas também com menor capacidade de absorver choques econômicos.
Além disso, o BTG mostra que as modalidades mais caras continuam relativamente concentradas nesse grupo, o que aumenta o risco de uma contração mais intensa do consumo caso o mercado de trabalho perca força.
Apesar do elevado endividamento das famílias, a economia brasileira continuou crescendo nos últimos anos. Segundo o BTG, isso foi possível graças à combinação de um mercado de trabalho resiliente, ao crescimento da massa salarial, à expansão fiscal, aos programas de transferência de renda, aos estímulos ao crédito e à digitalização do sistema financeiro, fatores que sustentaram a renda e o consumo mesmo em um ambiente de juros elevados.
Esse conjunto de medidas impediu que o alto estoque de dívidas se transformasse rapidamente em um freio para a atividade econômica.
O risco aparece justamente quando esses estímulos acabarem
Na avaliação do banco, 2027 pode marcar uma mudança importante de ciclo. Com a retirada gradual dos estímulos fiscais, desaceleração da renda e manutenção de juros relativamente elevados, as famílias podem passar a priorizar o pagamento das dívidas.
Segundo o BTG, quando isso acontece, o fluxo financeiro das famílias — diferença entre novos empréstimos e pagamentos feitos aos bancos — passa a ficar negativo, retirando dinheiro da economia e reduzindo o consumo.
Para medir esse impacto, o BTG simulou diferentes cenários. No cenário-base, que considera crescimento real da renda de aproximadamente 2% em 2027 e um processo gradual de desalavancagem, o consumo das famílias cresceria apenas 0,8% no próximo ano, abaixo da projeção atual do banco.
Caso a renda praticamente pare de crescer e o ajuste financeiro seja mais intenso, o consumo poderá registrar queda de cerca de 0,4%, indicando uma desaceleração muito mais forte da atividade econômica.
O relatório também trabalha com uma hipótese extrema. Caso as políticas de estímulo levem as famílias a assumir ainda mais dívidas em 2026 e, posteriormente, ocorra um ajuste abrupto, o chamado impulso negativo do crédito poderá se aproximar de 6% da renda das famílias.
Nesse cenário, segundo o BTG, a economia poderia entrar em recessão, com retração do consumo semelhante à observada na última grande crise brasileira.
O que isso significa para quem investe
Caso a tese de desalavancagem se confirme, os reflexos devem ser sentidos principalmente pelos setores mais dependentes do consumo doméstico.
Empresas de varejo, educação, shoppings centers e negócios voltados às famílias de menor renda tendem a enfrentar um ambiente mais desafiador, à medida que os consumidores passam a priorizar o pagamento de dívidas em detrimento de novas compras.
Além de reduzir o volume de vendas, esse movimento costuma pressionar margens, elevar a inadimplência e dificultar a concessão de crédito, criando um ciclo que enfraquece a demanda e compromete o crescimento dos resultados corporativos.
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