Tinha uma guerra no meio do caminho: é hora de adequar a carteira ao ciclo de queda da Selic?
Martin Iglesias, líder em recomendação de investimentos no Itaú, conta no novo episódio do Touros e Ursos sobre como o banco ajustou sua estratégia de alocação diante das incertezas atuais
O início de 2026 trouxe um desafio inesperado para os investidores brasileiros: a reedição de uma guerra no Oriente Médio, que impactou a expectativa de queda dos juros no país.
Na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o Banco Central optou por um corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic, uma postura de cautela motivada pela pressão nos preços do petróleo e o consequente risco inflacionário global.
Para Martin Iglesias, líder de recomendação de investimentos do Itaú Unibanco, o movimento reflete uma prudência necessária, mas não anula a continuidade do afrouxamento monetário ao longo dos próximos meses.
“Os bancos centrais [do mundo inteiro] não vão reagir de forma tão relevante agora e, provavelmente, não vão mudar drasticamente a condução da política monetária. Eu acho super razoável ter mais cautela. É ruim demais começar a cortar e parar”, disse Iglesias, em referência ao ajuste menor do que o previsto no início do ano.
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Para o Itaú, a taxa Selic deve fechar o ano a 12,25%, considerando que em algum momento o Banco Central conseguirá acelerar os cortes para 0,50 ponto percentual.
A grande dúvida do mercado reside na duração do conflito entre Estados Unidos, Irã e Israel, e em seu potencial de desorganizar a economia.
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Iglesias acredita que a atual disparada do petróleo será temporária, tendo em vista que os preços de vencimentos mais longos não esticaram tanto quanto os vencimentos curtos.
"Na nossa visão, esse conflito não será tão longo a ponto de modificar de uma forma definitiva a trajetória inflacionária no Brasil e no mundo", afirma o especialista.
Ajuste tático: rotação da carteira internacional
Diante das incertezas geopolíticas, porém com tendências de temporalidade, o Itaú promoveu ajustes pontuais em sua recomendação de investimentos, focadas nos ativos internacionais.
A visão dos analistas para bolsas globais saiu de positiva para neutra.
Iglesias afirma que isso não significa pessimismo com os ativos globais, mas uma neutralização estratégica que protege a carteira contra variações mais bruscas nas regiões mais sensíveis ao conflito, como os mercados asiáticos.
“Neutralidade não dá para dizer que é algo negativo. Quando a gente fala neutro, não significa zero, nada. É um percentual estratégico, sem sobreexposição”, afirmou Iglesias.
O conjunto do portfólio internacional é neutro, mas a visão para Estados Unidos é mais positiva, enquanto Europa e Ásia têm mais exposição ao conflito e, portanto, visão mais negativa.
A recomendação para os investidores é manter uma parcela internacional entre 5% e 35%, conforme o perfil do cliente.
A força do Ibovespa e os prêmios da renda fixa
No cenário doméstico, o Itaú mantém uma visão positiva para a bolsa brasileira.
Iglesias observa que o Ibovespa tem se comportado de forma sólida e que o investidor estrangeiro continua vendo o Brasil como uma opção barata e bem posicionada em relação a outros emergentes.
Mesmo com a volatilidade gerada pela guerra neste primeiro semestre e o pleito eleitoral no segundo semestre, a tendência macroeconômica global de busca por ativos reais deve superar os ruídos políticos internos e favorecer os ativos brasileiros, na opinião do especialista.
Iglesias pondera que as preocupações fiscais brasileiras persistem, mas o fluxo internacional tem força para sustentar a valorização dos ativos locais.
"O investidor estrangeiro olha para um Brasil que, de alguma forma, está mais bem posicionado nesse ambiente global", afirma, ressaltando que a volatilidade virá, mas não deve mudar a trajetória positiva de longo prazo da bolsa.
Já na renda fixa, o cenário continua extremamente atraente, com juros reais que seguem na faixa dos 7% ao ano.
O especialista recomenda que o investidor aproveite esse momento para travar retornos elevados, com preferência pelos títulos indexados à inflação (IPCA+). Essa classe de ativos oferece a combinação ideal de proteção contra repiques inflacionários e a garantia de juros reais altos por prazos longos.
Touros e Ursos
No bloco de encerramento, que avalia os destaques positivos e negativos da última semana, a renda fixa global foi apontada como um dos grandes ursos (destaque negativo).
Os títulos públicos de países como a Inglaterra e os Estados Unidos passaram por grande estresse, atingindo taxas muito altas em meio à preocupação com um repique inflacionário causado pelo choque do petróleo.
No lado positivo, a Eneva brilhou como o touro do setor de energia, após um desempenho vitorioso no leilão de reserva.
A companhia conseguiu emplacar novos projetos e renovar contratos antigos, o que resultou em uma disparada de 20% em suas ações e reforçou sua posição como uma peça-chave no fornecimento de energia para o Brasil.
A Natura também conseguiu uma posição como touro após muito tempo aparecendo como urso. O último resultado trimestral mostrou que a empresa está colhendo os frutos da integração com a Avon e da venda de operações não estratégicas.
As ações saltaram quase 30% no ano, sinalizando que a busca por eficiência operacional e a redução de despesas estão devolvendo a rentabilidade e o protagonismo à gigante brasileira de cosméticos.
Confira o episódio completo do Touros e Ursos
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