Agência vai na contramão de Trump e afirma que Irã pode voltar a enriquecer urânio nos próximos meses; confira a resposta de Teerã
Em meio a pronunciamentos dos governos iraniano e norte-americano neste fim de semana, o presidente francês, Emmanuel Macron, cobrou retorno do Irã à mesa de negociações

O tamanho do estrago feito pelo ataque dos Estados Unidos ao Irã segue levantando questionamentos. Durante entrevista neste domingo (29), Donald Trump afirmou que a mídia norte-americana está mentindo e que a última coisa que o governo iraniano irá fazer é desenvolver armas nucleares.
Porém, a Agência de Vigilância Nuclear (AIEA) tem informações divergentes. Segundo o chefe da instituição, Rafael Grossi, o Irã possivelmente começará a enriquecer urânio “em questão de meses”.
Apesar de Trump assegurar que o programa nuclear de Teerã recuou em “décadas”, Grossi afirma que “ainda resta algo”.
“Eles podem ter, você sabe, eu diria que em questão de meses, alguns estágios de centrífuga girando e produzindo urânio enriquecido, ou menos que isso”, disse à CBS News.
Outro ponto que vem sendo questionado é se o Irã conseguiu ou não realocar parte ou toda a reserva de urânio, que estaria enriquecido a 60%, muito acima dos níveis permitidos para uso civil — mas ainda abaixo do necessário para construir armas nucleares.
Caso fosse posteriormente refinado, esse material seria suficiente para mais de nove bombas nucleares.
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“Não sabemos onde esse material pode estar”, admitiu Grossi. “Uma parte pode ter sido destruída nos ataques, mas outra parte pode ter sido transferida. Por isso, em algum momento, será necessária uma explicação”.
Já Trump afirmou que não acredita que o urânio tenha sido movido. “O Irã não retirou nada antes do ataque, eles não sabiam que estávamos chegando”, disse em entrevista nesta tarde.
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Trump soltou o verbo
Essas não foram as únicas declarações do presidente norte-americano, que voltou a comentar sobre o conflito neste domingo (29).
Durante entrevista à Fox News, Trump afirmou que o governo dos Estados Unidos fez “tudo o que podia” antes do ataque, mas Teerã queria enriquecer urânio. “Eu sempre disse que o Irã não poderia ter uma bomba nuclear”.
Trump afirmou ainda que o governo iraniano não deve continuar a desenvolver armas nucleares por “estarem exaustos”. Para o presidente, o país foi “atingido como nunca”, disse.
Além disso, ele ressaltou a qualidade dos equipamentos e dos soldados americanos ao declarar que o ataque “destruiu as instalações como se fossem manteiga”.
Por fim, o presidente norte-americano disse que os Estados Unidos possuem sanções contra Teerã, mas, se o país mostrar que não vai fabricar armas, poderiam retirá-las.
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“Para fins pacíficos”: Irã nega desenvolvimento de arma nuclear
Enquanto Trump soltava o verbo, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, enviou uma carta ao secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) e ao presidente do Conselho de Segurança.
No documento, ele argumenta que o órgão deve reconhecer os Estados Unidos e Israel como responsáveis pelas agressões que resultaram no conflito de 12 dias.
O chanceler também solicita que os países paguem uma compensação pelos danos. O teor da correspondência foi divulgado pelo Irã em uma publicação na rede X (antigo Twitter).
Além disso, o porta-voz do ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, afirmou que o país não tem planos de obter armas nucleares.
Porém, reforçou que os iranianos possuem o direito de enriquecer urânio para fins civis. “Deixamos claro nas últimas duas ou três décadas que não buscamos armas nucleares. Nunca houve enriquecimento em nível militar no Irã”, declarou.
“Consultem os relatórios da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e me mostrem uma única evidência de que o programa nuclear iraniano se desviou de fins pacíficos. É um fato que ele continua totalmente pacífico”, disse.
Vale lembrar, no entanto, que o Parlamento do Irã suspendeu a cooperação do país com a agência.
“Os EUA estão indicando uma interpretação extremamente perigosa do Tratado de Não Proliferação Nuclear de que países em desenvolvimento não têm direito de usar energia nuclear para fins pacíficos. Isso é inaceitável para qualquer membro responsável do tratado”, argumentou.
Além dos comentários: medidas do Irã neste fim de semana
O governo iraniano não se limitou aos pronunciamentos. O Congresso do país aprovou a proibição do uso de ferramentas eletrônicas de comunicação pela internet sem licença, como a Starlink, de Elon Musk.
A violação à lei pode ser punida com multa, açoitamento ou até dois anos de prisão.
Além disso, o parlamento também determinou que qualquer atividade de inteligência, espionagem ou ação operacional em colaboração com o governo de Israel ou outros governos hostis ao Irã constitui corrupção.
A prática está sujeita à pena de morte. Ambas as decisões ainda aguardam a aprovação de um conselho superior.
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Macron no meio do conflito
Em meio aos pronunciamentos do governo iraniano e de Donald Trump neste domingo, o presidente francês, Emmanuel Macron, cobrou o retorno do Irã à mesa de negociações “para tratar das questões balísticas e nucleares”.
Além disso, Macron reivindicou a retomada da cooperação com a AIEA durante uma ligação telefônica entre os dois líderes, segundo publicação do francês no X.
“É essencial manter o marco do Tratado de Não Proliferação Nuclear e retomar rapidamente os trabalhos da AIEA no Irã para garantir total transparência”, afirmou Macron.
Ele também pressionou o Irã pela libertação de dois cidadãos franceses detidos no país. Ambos estão presos desde 2022, acusados de espionagem.
“A libertação de nossos compatriotas Cécile Kohler e Jacques Paris foi uma das mensagens centrais levadas a Pezeshkian”, disse.
Por fim, o presidente francês apelou por estabilidade regional, destacando a importância do “respeito ao cessar-fogo [com Israel], para ajudar a restaurar a paz na região”. Ele concluiu a nota dizendo que continuará trabalhando nos próximos dias para alcançar os objetivos propostos.
*Com informações do Estadão Conteúdo.
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