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De acordo com um gestor com quem o Seu Dinheiro conversou, a resposta é simples: comprar um player relevante a preço de banana. Mas esta é uma aposta arriscada
O sonho de arrematar uma das marcas mais conhecidas do varejo brasileiro, o Pão de Açúcar (PCAR3), por um valor relativamente pequeno parece ter encantado a família Coelho Diniz, que foi chegando de mansinho até atingir uma participação de 24,6% no grupo, tentando emplacar mais nomes no conselho — além do atual representante, André Coelho Diniz.
De acordo com um gestor com quem o Seu Dinheiro conversou, a família mineira deve estar encantada demais para ver o elefante no meio da sala: a dívida considerada impagável do GPA, que chegou a R$ 2,6 bilhões no segundo trimestre deste ano.
A alavancagem, medida pela relação entre a dívida líquida e o Ebitda Ajustado (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado, ficou em 3 vezes, patamar considerado alto pelo BTG Pactual, que classifica a tese como “uma das mais arriscadas do varejo de alimentos”. Só o encargo da dívida custou R$ 165 milhões à companhia no período.
“Eles parecem estar encantados pelo valor do cheque. Você consegue controlar a empresa pagando pouco. Eles acham que vão conseguir arrematar um player relevante, que tem uma marca forte. Mas nisso, eles acabam levando uma dívida impagável junto”, diz o gestor.
Cabe ressaltar que a família Coelho Diniz não tem ligação com o bilionário falecido Abílio Diniz, que popularizou a rede no Brasil. É apenas uma coincidência o sobrenome ser o mesmo. Os Coelho Diniz são donos de uma rede de supermercados no interior de Minas Gerais (MG), que hoje opera mais de 20 lojas.
O mercado também dá impressão de estar se animando com a ideia de que os Coelho Diniz possam ajudar a empresa a sair do buraco, justamente por essa experiência com o varejo alimentício.
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Na última segunda-feira (25), as ações PCAR3 fecharam o dia em alta de quase 9% após a família pedir uma Assembleia Geral Extraordinária (AGE) para conseguir mais cadeiras no alto escalão da companhia, além de destituir o atual conselho.
No entanto, a visão do gestor com quem conversamos é: o negócio não é viável a não ser que alguém sente à mesa e comece a renegociar as dívidas com os credores, algo que ele não acredita ser provável.
“A empresa pode estar valendo R$ 1,7 bilhão, mas tem uma dívida de mais de R$ 2,6 bilhões. Tem que parar de achar que o valor da sua empresa significa alguma coisa quando tem muita dívida, não significa nada, tem que colocar o bolo inteiro na conta”, diz.
De acordo com um relatório do JP Morgan, por mais que a companhia esteja apresentando sinais de melhora operacional com o turnaround iniciado em 2022, a dívida ofusca os avanços. O banco tem recomendação de venda para os papéis. O UBS BB também recomenda a venda dos papéis por motivos relacionados ao endividamento.
O BTG Pactual, Itaú BBA e XP Investimentos têm recomendação neutra.
O gestor com quem conversamos ainda complementa que: “não me parece uma boa estratégia comprar a ação de peito aberto só por achar que ela deveria valer mais. A dívida está lá, tem que admitir que não consegue pagar e fazer uma recuperação extrajudicial para negociar com os credores, converter dívida em ação e assim por diante”.
Ou seja, na visão dele, o papel ainda é muito especulativo, não tem base econômica para subir e o investidor precisa tomar cuidado para não se deixar levar por esses solavancos causados pela disputa de poder que tem sido travada na companhia.
“Se fizéssemos um exercício hipotético com a ação do Pão de Açúcar, para ela ser viável de imediato, teria que haver uma conversão de dívida de quase R$ 3 bilhões. Isso implica que a empresa teria que valer mais do que isso. Mas o valor atual está bem abaixo. Portanto, a ação teria que cair. A situação é bem mais complexa do que imaginam, já vi casos de investidores perdendo dinheiro ao tentar simplificar o que não é simples”, diz o gestor.
Em outras palavras, para resolver a dívida da empresa, seria necessário convertê-la em ações, emitindo uma quantidade massiva de novos papéis. Isso faria com que os acionistas fossem fortemente diluídos. Ou seja, a empresa não tem valor de mercado o bastante para suportar essa conversão.
Como o Pão de Açúcar deixou de ser aquele colosso que você provavelmente tem na memória, para se tornar uma empresa tão endividada? Essa história pode ser dividida em duas frentes: macro e micro.
Começando pelo primeiro ponto: o comportamento do consumidor mudou. Com a consolidação dos atacarejos no país, que oferecem preços mais competitivos, ainda que com estrutura mais simples, uma parcela relevante do público migrou em busca de economia.
Ao mesmo tempo, outros players passaram a ocupar o nicho de maior qualidade, como os hortifrutis, que praticam preços mais altos, mas entregam padrão elevado. Além disso, redes menores e mais eficientes foram ganhando força nesse quesito: Saint Marché, Mambo e assim por diante.
Assim, o Pão de Açúcar acabou ficando em um meio termo perigoso. Nem mesmo os planos de acelerar a ampliação do Minuto Pão de Açúcar vingaram tanto, uma vez que o braço dos negócios viria a enfrentar a competição implacável do Oxxo.
“Aí que começa a entrar o aspecto micro. A empresa olhou para essa mudança de hábito e não se ajustou. O negócio estava piorando, e as dívidas aumentaram. Isso aconteceu porque não tem dono, né?”, diz o gestor.
No final da década de 1990, o grupo francês comprou um quarto do capital da rede de supermercados brasileira que o bilionário falecido Abílio Diniz fez tornar-se gigante no país. Em 2005, essa participação subiu para 50%.
O empresário brasileiro e o Casino foram sócios e dividiram o controle do GPA, até 2012, quando o grupo francês aumentou sua participação e assumiu o controle total.
Diniz permaneceu como presidente do conselho até 2013, quando teve um desentendimento com Jean Charles Naouri, então presidente-executivo do Casino, após o empresário brasileiro negociar uma fusão com o Carrefour — maior rival da holding francesa — sem avisá-lo.
No entanto, o francês já vinha enfrentando problemas lá fora, graças à competição feroz — justamente com o Carrefour — e em razão de sua estratégia agressiva de expansão por meio de aquisições. Isso fez com que o grupo acumulasse uma dívida de 7 bilhões de euros, algo que começou a chamar a atenção do mercado por volta de 2015.
Cabe lembrar que, em seu auge, o GPA detinha controle sobre uma série de marcas relevantes no varejo brasileiro. Entre elas, destacam-se Pão de Açúcar, Extra, Assaí, Minuto Pão de Açúcar, Drogaria Extra e a participação na Via Varejo, que reunia Casas Bahia e Ponto Frio.
Com a pressão dos credores lá fora, o Casino teve que começar a vender os negócios que compunham o GPA.
“E o Pão de Açúcar era só mais um e o pior de todos. Ninguém queria comprá-lo, então os negócios foram sendo separados e vendidos. O controlador foi deixando tudo que é ruim e que não queriam comprar nele. Então o Pão de Açúcar acabou virando o ‘saco de maldade’ do embelezamento dessas outras empresas que foram sendo separadas”, destaca o gestor.
Em 2022, o GPA encerrou o ano com prejuízo de mais de R$ 1 bilhão. Foi quando a marca começou seu processo de turnaround, sob liderança de um novo CEO, o Marcelo Pimentel, para focar no core business da companhia, os supermercados. A varejista encerrou 2024 com um prejuízo líquido de R$ 2,4 bilhões. O custo da dívida, atrelada à Selic, foi de R$ 583 milhões.
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