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União entre BRF e Marfrig consolida uma empresa com diversificação estratégica para enfrentar os ciclos do mercado. Contudo, a estreia na bolsa já mostra desafios
Desde que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) deu o aval para o casamento entre BRF e Marfrig, a MBRF (MBRF3) viveu sua lua de mel. Mas, a partir de hoje, a nova companhia enfrenta a parte mais difícil de qualquer união: o dia a dia.
Estreando na B3 sob o novo ticker nesta terça-feira (23), a nova empresa abriu em alta, mas depois inverteu a tendência e passou a cair. A queda era de 3,60% por volta das 15h30, a R$ 20,36. Até porque, uma certa fricção é esperada quando recém-casados começam a viver juntos de fato. O importante é que tudo corra bem no longo prazo — e a palavra-chave para isso é: execução.
"Eu acredito muito no potencial da companhia. Eles devem seguir o modelo que funcionou para a JBS, de diversificação. Mas depende muito da execução para capturar os benefícios esperados", disse o analista Diego Horst, sócio-diretor da Kaza Capital, em participação no Giro do Mercado, do Money Times, portal parceiro do Seu Dinheiro.
A expectativa é que a fusão gere sinergias de R$ 485 milhões, provenientes de estratégias como cross-selling. Há também a projeção de uma economia de até R$ 320 milhões via racionalização das operações comerciais e logísticas, e simplificação da estrutura corporativa. Outros R$ 3 bilhões podem ser capturados por meio de otimização fiscal.
Na visão do Itaú BBA, a perspectiva para a nova empresa é positiva. “A nova companhia une o que há de melhor no setor de proteínas, em termos de qualidade de ativos, tanto no frango brasileiro, quanto na carne bovina dos EUA e do Brasil”, diz o banco em relatório.
Os analistas também destacam a diversificação como a principal vantagem competitiva da empresa. “Ao combinar marcas e canais de distribuição de proteínas, a MBRF poderá compensar as quedas de um setor com os lucros do outro”.
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“Na JBS isso já funciona muito bem, agora a MBRF vai correr atrás do tempo que ficou para trás, aumentando a diversificação. A Marfrig era muito concentrada em produtos in natura. É um segmento sensível, quando acontece um problema sanitário que acaba travando a cadeia, o problema é grande”, disse Horst.
Além disso, com o portfólio agregado da América do Sul, a National Beef — uma das operadoras mais eficientes de carne bovina nos EUA, que faz parte do portfólio da MBRF — e agora com a BRF, a companhia se torna um player consolidado com ativos premium em cada uma das divisões.
Na visão dos analistas do banco, isso fortalece ainda mais a perspectiva de longo prazo para a ‘recém-nascida’.
Outro ponto positivo mencionado pelos times é que o fim da disputa societária da fusão deve trazer mais clareza sobre governança. Além disso, com maior porte e presença internacional, a MBRF poderá, no médio prazo, buscar acesso a mercados de capitais globais, também como fez a rival.
“Eu acredito que não seja objetivo de curto prazo, deve ser objetivo assim que tiver resultados robustos. Mas com certeza seria bom para a empresa, já que o mercado lá fora é muito maior e isso facilita a captação de recursos de um jeito muito melhor do que temos no Brasil”, afirma Horst.
O banco alerta para o fato de que as ações chegam à bolsa com um certo prêmio em relação aos concorrentes, sendo negociada a uma faixa de 5,7 a 6,5 vezes o valor da empresa sobre o Ebitda (lucro antes de impostos, juros, depreciação e amortização).
Como base de comparação, a JBS é negociada em torno de 5,8 vezes o valor de mercado sobre Ebitda, com menor dívida relativa e geração de caixa mais robusta.
E ainda há a alavancagem da MBRF. Embora a perspectiva de longo prazo seja positiva, isso pode deixar os investidores com o pé atrás, uma vez que a Selic ainda se encontra nos 15% e não deve sair dos dois dígitos tão cedo.
“Em um cenário no qual a rentabilidade de aves começa a mostrar sinais de normalização no segundo semestre de 2026, enquanto o fornecimento mais apertado de gado nos EUA comprime as margens de carne bovina ano a ano, veríamos a MBRF sendo negociada acima de 6 vezes valor de mercado sobre Ebitda, com a alavancagem variando de 3 vezes a 3,5 vezes dívida líquida sobre Ebitda”, segundo o Itaú BBA.
O ciclo da carne bovina nos EUA tem enfrentado uma combinação de desafios internos — como a escassez de gado e a subutilização da capacidade de abate — e externos, como as tarifas de importação de Trump e as restrições comerciais. Isso está gerando volatilidade no mercado, impactando as margens de lucro e exigindo adaptações estratégicas por parte das empresas do setor.
“Dado o cenário de lucros consolidados ainda subótimo, parece razoável esperar um múltiplo premium em comparação com os níveis históricos, bem como um caminho de desalavancagem mais acentuado somente quando o ciclo da carne bovina dos EUA se normalizar”, diz o Itaú em relatório.
No entanto, uma captura precoce de sinergias — em vendas cruzadas e logística, por exemplo — pode acelerar a resiliência e fortalecer a narrativa do investimento.
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