Da explosão do e-commerce à recuperação extrajudicial: Casas Bahia (BHIA3) deixou o pior para trás? Prejuízo menor no 4T24 dá uma pista
As ações da varejista passam por um boom na bolsa, mas há quem diga que esse movimento não está ligado diretamente com a recuperação do setor; confira o desempenho da companhia entre outubro e dezembro deste ano

A Casas Bahia (BHIA3) entrou em 2025 querendo deixar o pior para trás. Quem olhar para as ações da varejista neste ano vai se deparar com uma alta de 90,6% — bem distante da performance de 2024, quando os papéis acumularam uma perda de cerca de 70%. Mas o desempenho na bolsa não conta toda a história da varejista.
Depois de 2020, quando a explosão do e-commerce durante a pandemia de covid-19 levou a empresa a um lucro de R$ 1 bilhão, o agravamento da situação das Casas Bahia foi notório. Uma das explicações para a sequência de prejuízos vista foi a deterioração do cenário macroeconômico — a Selic subiu de 2% em 2021 para 13,75% em 2022, bem próxima do patamar atual de 13,25% ao ano.
Com a taxa de juros em patamar restritivo, o endividamento das famílias disparou e as despesas financeiras da varejista aumentaram. Mas não foi só a conjuntura macro que atrapalhou a Casas Bahia. A empresa investiu muito no marketplace, uma aposta que acabou não dando certo e queimou caixa.
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Esses problemas não passaram despercebidos pela gestão da Casas Bahia, que apresentou em março de 2023 um plano de transformação.
A estratégia, que tinha como pilares a diminuição da alavancagem, com redução de lojas, estoque e despesas com pessoal, além da reestruturação de capital, não impediu que em abril de 2024, o grupo pedisse recuperação extrajudicial para renegociar dívidas de R$ 4,1 bilhões.
De lá para cá, a Casas Bahia vem arrumando a casa.
Embora ainda pressionada pela otimização do portfólio e por despesas financeiras mais pesadas, a varejista conseguiu diminuir o prejuízo em 54% no quarto trimestre, para R$ 452 milhões. As projeções da Bloomberg apontavam para um prejuízo de R$ 312,7 milhões no período.
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No ano, as perdas também diminuíram: saíram de R$ 2,625 bilhões em 2023 para R$ 1,045 bilhão em 2024, uma redução de 60,2%.
Segundo a varejista, a melhora foi resultado da retomada de crescimento de receita e melhora gradual da rentabilidade, apesar do peso da alta da taxa de juros no Brasil.
E por falar em faturamento, a receita líquida da Casas Bahia entre outubro e dezembro somou R$ 7,981 bilhões, um aumento de 7,6% em relação ao mesmo período do ano anterior. As projeções da Bloomberg apontavam para receita de R$ 7,7 bilhões no período.
Em 2024, no entanto, a varejista termina com uma receita líquida 5,7% menor do que a de 2023, totalizando R$ 27,206 bilhões.
O Ebitda (lucro antes de juros, impostos depreciação e amortização) ajustado subiu 300% no quarto trimestre em base anual, para R$ 640 milhões. Em 2024, a alta foi de 59,3%, para R$ 1,970 bilhão.
O fluxo de caixa livre das Casas Bahia no quarto trimestre foi de R$ 1,2 bilhão, um resultado 70% superior ao obtido no mesmo período de de 2023 — a varejista registrou a melhor geração de fluxo de caixa livre anual dos últimos cinco anos.
“Encerramos 2024 com avanços significativos, consolidando uma nova fase de crescimento sustentável. Com disciplina e execução rigorosa, estamos prontos para capturar valor e fortalecer ainda mais nosso posicionamento no varejo brasileiro em 2025”, afirma Renato Franklin, CEO do Grupo Casas Bahia.
Apesar da redução do prejuízo e do otimismo do executivo, a Casas Bahia tem um longo caminho a percorrer se quiser encarar de frente rivais como o Mercado Livre (MELI34).
A gigante argentina do e-commerce registrou um lucro líquido de US$ 639 milhões no quarto trimestre, equivalente a uma alta de 287% em relação aos ganhos vistos no mesmo período de 2023 — uma cifra que veio acima das estimativas do mercado, que previam um montante de US$ 410,1 milhões, segundo o consenso da Bloomberg.
Você pode conferir o desempenho do Meli nos últimos três meses de 2024 aqui.
Na quinta-feira (13) é a vez de outra concorrente da Casa Bahia apresentar os resultados financeiros do quarto trimestre. Magazine Luiza (MGLU3) divulga o balanço após o fechamento do mercado e você pode conferir o que esperar aqui.
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Casas Bahia: os números que importam
Além de lucro e receita, outras métricas são acompanhadas de perto pelo mercado como uma forma de medir a saúde financeira das empresas de varejo.
O Valor Bruto de Mercadoria (GMV), uma medida que ajuda a entender o desempenho das vendas, consolidado subiu 9,9% no quarto trimestre em base anual, impulsionado pelo crescimento de 16,1% nas lojas físicas e pela alta de 23,7% no marketplace (3P).
Considerando apenas lojas físicas, o crescimento do GMV da Casas Bahia foi de 16,1% na comparação trimestral e 17,1% considerando as vendas mesmas lojas (SSS).
O desempenho do segmento foi impulsionado pela maior penetração de crédito e serviços nas vendas, compensando os efeitos negativos de fechamento de lojas e da nova estratégia de diminuição de categorias.
O crediário, um dos pilares estratégicos do crescimento da Casas Bahia, bateu recorde ao alcançar R$ 6,2 bilhões em carteira ativa, um crescimento de R$ 824 milhões na comparação anual.
Apesar da expansão, a inadimplência acima de 90 dias caiu 1,4 ponto percentual no quarto trimestre, para 8,0% na comparação ano a ano.
“A operacionalização do Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) deve fortalecer a diversificação do funding para sustentar essa expansão”, diz a Casas Bahia em nota.
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O desempenho das ações é um sinal de um futuro melhor para a Casas Bahia?
Apesar de ter apresentado a maior valorização nos últimos dias, a Casas Bahia não é a única varejista a chamar a atenção do mercado pelo salto na bolsa. Os papéis do Magazine Luiza, por exemplo, sobem 31% no ano.
Para a Genial Investimentos, essa mudança de tom dos papéis não está diretamente relacionada à expectativa pelo desempenho operacional das varejistas no quarto trimestre e muito menos indica uma virada estrutural para os próximos períodos.
Afinal, o ambiente macroeconômico tende a ser mais complexo para o setor de varejo discricionário de alto ticket neste ano do que foi em 2024, com juros elevados e um câmbio elevado pressionando a inflação, dificultando o trabalho do Banco Central na ancoragem das expectativas e ampliando os desafios fiscais do governo.
Para a corretora, o desempenho superior das varejistas sinaliza um movimento de short squeeze nos papéis — ou seja, quando investidores com posições vendidas (short) precisam desfazer suas apostas na queda do papel recomprando as ações no mercado, consequentemente elevando ainda mais os preços do ativo.
Você pode entender melhor essa história aqui.
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