De seguro pet a novas regiões: as apostas da Bradesco Seguros para destravar o próximo ciclo de crescimento num mercado que engatinha
Executivos da seguradora revelaram as metas para 2026 e descartam possibilidade de IPO

Em um mercado que ainda engatinha, a Bradesco Seguros acredita que seu maior concorrente não é outra seguradora — é a falta de seguro no Brasil. E é justamente nesse espaço que ela pretende crescer.
A seguradora enxerga um mercado brasileiro ainda subpenetrado, com nichos inexplorados, e acredita que está diante de uma janela que não pode perder.
Em conversa com jornalistas na manhã da última quarta-feira (3), na nova sede da Bradesco Seguros, na Avenida Paulista (SP), os executivos do grupo abriram os bastidores das apostas, ambições e vulnerabilidades para os próximos anos.
O fio condutor é inovar onde o seguro tradicional ainda não chegou — e fazer isso em escala.
O que 2026 reserva para a Bradesco Seguros
A seguradora chega ao próximo ano com metas ambiciosas e um mapa claro de alavancas:
- Ampliar a base de clientes;
- Aumentar a oferta de coberturas complementares ao mesmo cliente;
- Acelerar produtos inovadores (como IA e pet);
- Reforçar Saúde e Previdência como motores estruturais; e
- Transformar tecnologia em diferencial competitivo.
IPO? Não agora — o foco é outro
Mesmo com a bolsa em alta e investidores de olho em novos nomes do setor, o tão esperado IPO (oferta pública inicial de ações) da Bradesco Seguros continua na gaveta.
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Segundo o presidente Ivan Gontijo, uma eventual abertura de capital não está em discussão. A decisão é do controlador — o Bradesco (BBDC4), que hoje detém quase 100% da operação — que segue confortável com a operação integralmente dentro de casa.
O executivo afirmou que, apesar do momento positivo, por enquanto, não há sequer estudo interno sobre o tema.
“Este tema não está na mesa”, reforçou o presidente da seguradora, destacando que a prioridade é manter disciplina, margens sustentáveis e um ritmo de crescimento estável.
Onde a Bradesco Seguros busca crescer, então?
A seguradora entra em 2026 com um plano em duas grandes frentes. A primeira é atacar a subpenetração dos seguros no Brasil, ampliando o alcance dos produtos em um país onde apenas cerca de 5% das grandes catástrofes têm cobertura segurada.
"Eu acredito muito na subpenetração, na oportunidade de ampliação da base de consumidores de seguros e principalmente na cobertura desse Gap Protection, que é oferecer mais cobertura para quem já foi [alcançado] pelo mecanismo de seguro. Esse cliente tem a oportunidade de ampliar a cobertura e, com isso, ampliar também o tamanho do nosso mercado de seguros”, disse o diretor financeiro (CFO) do grupo, Vinicius Marinho.
A estratégia envolve educação, comunicação e simplificação: o objetivo é tornar o seguro parte do planejamento financeiro das famílias.
A segunda frente é o chamado “gap protection”, que significa vender mais coberturas para quem já é cliente, expandindo o ticket e o tamanho do mercado. Segundo a empresa, esse é um caminho natural para crescer em um setor em que a base instalada é valiosa, mas ainda pouco explorada.
No segmento de saúde, por exemplo, a seguradora mira expandir para regiões e faixas de renda ainda pouco exploradas, com foco especial na classe intermediária da pirâmide de saúde suplementar.
“As alavancas de crescimento passam a ser conquistar uma fatia maior de participação de mercado onde a gente já estava posicionado com os nossos produtos e avançar em mercados onde antes a gente não tinha o fit necessário em termos de produto para explorar, agora com produtos regionais e complementares, abrangendo uma camada intermediária da pirâmide de saúde suplementar no Brasil”, disse Carlos Marinelli, CEO da Bradesco Saúde.
Novos mercados: o seguro pet e a reinvenção do seguro de vida
O portfólio da Bradesco Seguros está prestes a ganhar um novo integrante: o seguro pet. O produto será lançado já na primeira quinzena de dezembro, inicialmente para o segmento de alta renda e, posteriormente, para todo o mercado.
A expectativa é que o novo seguro seja disponibilizado para toda a base de clientes no segundo semestre de 2026.
O desenvolvimento ocorre em parceria com uma empresa que opera no Brasil e no exterior — o nome, porém, ainda está sob sigilo.
A seguradora também mira mercados de alto potencial, como o seguro de celular — que cresce mais do que a carteira agro e se tornou a principal forma de entrada de novos consumidores no universo de seguros.
Hoje, a empresa oferece cobertura apenas para aparelhos novos — mas há a possibilidade de escalar para produtos usados, com eventuais parcerias com operadoras telefônicas e outros players do mercado.
Em paralelo, a companhia quer modernizar o seguro de vida tradicional. Hoje, mais de 50% dos sinistros pagos já estão ligados a coberturas utilizadas em vida — eventos como doenças, invalidez, internação, desemprego. O grupo vê nessa mudança de comportamento uma oportunidade de reforçar produtos mais completos e conectados ao cotidiano dos segurados.
O impacto da tendência de wellness e longevidade
A tendência global de wellness — que mistura bem-estar, longevidade e hábitos saudáveis — está cada vez mais presente nas discussões internas da seguradora.
Para acompanhar essa mudança, a Bradesco Seguros criou uma plataforma de bem-estar voltada inicialmente aos funcionários, com cerca de 8 mil usuários ativos e engajamento superior a 90%.
A plataforma distribui pontos Livelo como recompensa por práticas saudáveis e deve ganhar escala nos próximos anos.
A lógica por trás da ferramenta é ampliar os pontos de contato com o cliente ao longo da jornada do seguro de vida e previdência, produtos de longa permanência. É uma tentativa de tornar a relação menos burocrática e mais contínua.
A força da previdência, mesmo após o IOF, e o seguro de vida
No segmento de seguro de vida, pequenas e médias empresas (PMEs) são tratadas como uma alavanca clara de crescimento.
Há ainda a oportunidade de uma “maior inclusão dentro do sistema de seguros”: “Temos, como mercado, algo como 2% de penetração, mas a gente tem uma oportunidade gigantesca de, pelo menos, dobrar esse mercado ao chegar em camadas da população que, tradicionalmente, estão desprotegidas sob a ótica de seguro de vida”, afirmou Bernardo Castello, diretor-presidente na Bradesco Vida e Previdência.
Do lado da previdência privada, a reforma do IOF sobre o VGBL derrubou as receitas do produto em 40% no bimestre pós-mudança.
Mas a Bradesco Seguros tratou de realinhar a estratégia: reforçou a oferta de PGBL, acelerou a portabilidade e voltou a atenção para o segmento corporativo — já que as contribuições do empregador ficam fora dos limites da tributação.
Hoje, a previdência fatura R$ 110 milhões por dia e soma 3 milhões de clientes. Segundo Castello, esse é um pilar estratégico para os próximos anos — especialmente com a aposta na adesão automática em planos coletivos, vista pelo executivo como grande vetor de expansão.
Tecnologia como motor da Bradesco Seguros — e não como suporte
Questionados sobre as inovações tecnológicas e ganhos com inteligência artificial (IA), o grupo afirmou que já investe mais de R$ 1 bilhão por ano em tecnologia, e esse número deve crescer.
A avaliação é que a IA entrou definitivamente no centro da estratégia, não apenas como ferramenta operacional, mas como vetor de criação de novos produtos e receitas.
As aplicações vão desde aceitação de risco e detecção de fraude até automação de processos — como vistorias de automóveis à distância.
Mas há uma fronteira nova sendo explorada: os seguros para riscos decorrentes do uso de inteligência artificial. Os executivos afirmam que as empresas começam a mapear esses riscos — e que a proteção virá via mercado segurador.
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