Agronegócio não dá trégua: Banco do Brasil (BBAS3) frustra expectativas com lucro 20% menor e ROE de 16,7% no 1T25
Um “fantasma” já conhecido do mercado continuou a fazer peso nas finanças do BB no primeiro trimestre: os calotes no setor de agronegócio. Veja os destaques do balanço

O último bancão a entregar os resultados na safra de balanços do primeiro trimestre de 2025, o Banco do Brasil (BBAS3) encerrou a temporada com um resultado bem aquém do esperado, a começar pelo lucro líquido ajustado de R$ 7,37 bilhões entre janeiro e março.
Trata-se de um recuo 20,7% em relação ao mesmo período do ano anterior e de 23,0% contra o trimestre passado.
O montante frustrou (e muito) as expectativas do mercado. Os analistas projetavam um lucro médio de R$ 9,108 bilhões para os três primeiros meses do ano, de acordo com estimativas compiladas pela Bloomberg.
"O primeiro trimestre foi um período de transição, especialmente por conta da nova regulação da contabilização e do aumento da inadimplência no segmento Agro. Diante deste cenário, ratifico que seguimos focados no nosso compromisso de entregar um resultado condizente com o tamanho do Banco do Brasil”, disse a CEO do BB, Tarciana Medeiros, em nota.
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Em termos de rentabilidade, o retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROAE, na sigla em inglês) do BB atingiu a marca de 16,7% no trimestre.
Isto é, um queda de 4,98 pontos percentuais (p.p) em relação ao mesmo intervalo de 2024 e de 4,16 p.p frente ao trimestre imediatamente anterior.
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O indicador ainda equivale a um retorno acima da taxa básica de juros (Selic), que atualmente encontra-se na casa de 14,75% ao ano, mas esteve abaixo dos níveis de pares privados como o Itaú Unibanco (ITUB4) e Santander (SANB11).
O peso do agronegócio
É verdade que o período é sazonalmente mais fraco para a lucratividade e a rentabilidade. Mas, no caso do Banco do Brasil, um “fantasma” já conhecido do mercado continuou a fazer peso nas finanças: o agronegócio. Mais especificamente, os calotes vindos do setor.
Do lado da inadimplência, o índice de devedores acima de 90 dias teve alta de 0,96 ponto porcentual na comparação anual e de 0,54 p.p na base trimestral, a 3,86%.
Relembrando, o agronegócio — setor em que o BB é mais atuante — enfrentou problemas nos últimos meses. Com a redução no preço das commodities, as margens apertadas — com os produtores à espera do momento ideal para vender as safras — e os fenômenos climáticos extremos, empresas do setor entraram com sucessivos pedidos de recuperação judicial.
Segundo dados do Banco Central, o BB detinha 50,2% de participação nos financiamentos destinados ao agro no fim de março. Já nos créditos direto ao produtor rural, a participação de mercado chega a 56,7%.
"A inadimplência cresceu e já se aproxima dos níveis do Bradesco, banco que vem enfrentando dificuldades nesse âmbito por conta de equívocos na concessão de crédito nos últimos anos", destacou Evandro Medeiros, analista da Suno Research.
Dadas as taxas de inadimplência de empréstimos rurais dando sequência à fraqueza vista nos trimestres anteriores, o banco entregou provisões maiores no início de 2025.
As provisões subiram 64,2% na comparação com o mesmo período do ano anterior, para R$ 15,45 bilhões em perdas previstas no crédito.
Segundo a instituição, houve continuidade da dinâmica agravada da carteira de agronegócios, cuja inadimplência alcançou 3,04%.
Já o custo do crédito, que corresponde às despesas de perda esperada somadas aos descontos concedidos e deduzidas das receitas com recuperação de crédito, aumentou 18,9% na base anual, a R$ 10,2 bilhões no 1T25.
"Apesar do cenário positivo para a safra no Brasil em 2025, com uma colheita recorde, e do elevado percentual de garantias nessa carteira, há um estoque de operações que vem sendo tratado da safra 2023/2024, inclusive, por conta das recuperações judiciais no setor – que exigem maior provisionamento sob a nova regulação", escreveu o BB, em nota.
Outros destaques do balanço do Banco do Brasil (BBAS3)
Para além da inadimplência do agronegócio, outras linhas do balanço também estiveram no radar do mercado.
O Banco do Brasil (BBAS3) viu a margem financeira líquida, que considera a receita com crédito menos os custos de captação, cair 20,1% em relação aos últimos 12 meses, para R$ 13,73 bilhões.
Segundo o banco, o resultado foi impactado pelo "descasamento entre ativos majoritariamente pré-fixados enquanto as captações, grande parte pós-fixadas refletem mais diretamente os efeitos da elevação da Selic e da taxa de juros real".
A margem financeira com o mercado — indicador que reflete a remuneração do banco com as operações de tesouraria — apresentou queda de 34,9% em relação ao primeiro trimestre de 2024, a R$ 3,55 bilhões.
Vale destacar que, com as mudanças trazidas pela nova resolução 4.966 do Banco Central, em vigor desde 1º de janeiro, a base de comparação com a série histórica neste trecho ficou prejudicada, por envolver reclassificação de TVM, segundo o BB.
Já a margem com clientes teve aumento de 0,3% no mesmo período, a R$ 20,32 bilhões.
Enquanto isso, a carteira de crédito expandida do Banco do Brasil cresceu 14,4% em comparação com igual intervalo do ano passado e 1,1% ante o trimestre imediatamente anterior, para R$ 1,27 trilhão.
As receitas de prestação de serviços do Banco do Brasil (BBAS3) subiram 0,2% no período, a R$ 8,36 bilhões. Enquanto isso, as despesas administrativas subiram 7,0% no comparativo anual, encerrando o trimestre na casa de R$ 9,49 bilhões.
Guidance do Banco do Brasil sob revisão
A piora na inadimplência do agronegócio acima do esperado ao longo de 2025 levou o Banco do Brasil a colocar sob revisão suas projeções (guidance) para este ano “até que o cenário permita uma avaliação mais consistente da magnitude dos impactos” a serem incorporados nas estimativas.
Segundo o banco, outros fatores também influenciaram a mudança. O BB destaca a “característica de amortizações concentrada no fim da safra” do agro e os impactos das mudanças contábeis impostas pela resolução 4.966.
A instituição afirma que essa combinação de fatores “implicou em um cenário de maior incerteza sobre as projeções de margem financeira bruta e o custo do crédito, que, por sua vez, afetam diretamente o lucro líquido ajustado”.
Confira como ficam as projeções do BB agora:
| Indicadores | Projeções Revisadas | Projeções 2025 |
|---|---|---|
| Carteira de Crédito – Variação a/a (%) | Mantida | 5,5 a 9,5 |
| Pessoas Físicas – Variação a/a (%) | Mantida | 7 a 11 |
| Empresas – Variação a/a (%) | Mantida | 4 a 8 |
| Agronegócios – Variação a/a (%) | Mantida | 5 a 9 |
| Carteira Sustentável – Variação a/a (%) | Mantida | 7 a 11 |
| Margem Financeira Bruta – R$ bilhões | Em revisão | 111,0 a 115,0 |
| Custo do Crédito – R$ bilhões | Em revisão | 38,0 a 42,0 |
| Receitas de Prestação de Serviços – R$ bilhões | Mantida | 34,5 a 36,5 |
| Despesas Administrativas – R$ bilhões | Mantida | 38,5 a 40,0 |
| Lucro Líquido Ajustado – R$ bilhões | Em revisão | 37,0 a 41,0 |
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