O Brasil pode escapar dos impactos das tarifas de Trump: economista-chefe da ARX revela estratégias — e diz por que a retaliação não é uma delas
Segundo Gabriel Barros, Lula teria uma série de opções estratégicas para mitigar os efeitos negativos dessa medida sobre a economia; confira a visão do especialista

O anúncio de uma tarifa de 50% dos EUA sobre os produtos brasileiros, feito na noite da última quarta-feira (9), pegou os investidores de surpresa. Contudo, na visão de Gabriel Barros, economista-chefe da ARX Investments, a política tarifária de Donald Trump terá um “impacto macroeconômico marginal e controlável” na economia brasileira.
Além disso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva possui um leque de opções estratégicas para mitigar os efeitos negativos dessa medida sobre a economia local, de acordo com o economista.
Contudo, uma retaliação não seria a melhor opção, alerta Barros.
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Os impactos da tarifa de Trump no Brasil
Para Barros, a representatividade das exportações brasileiras para os EUA é relativamente pequena, o que limita o impacto direto das tarifas.
Atualmente, as exportações para os EUA representam apenas 2% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e cerca de 10% das exportações totais do país. Esses números, segundo o economista, não são substanciais o suficiente para provocar grandes choques macroeconômicos.
Além disso, grande parte dessas exportações está concentrada em commodities como petróleo, minério de ferro, aço, carne bovina e equipamentos para geração de energia — itens com grande demanda global.
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Já itens de maior valor agregado — como papel e celulose da Suzano (SUZB3) ou aeronaves da Embraer (EMBR3), citadas entre as empresas mais afetadas pelas tarifas —, representam uma parcela menor das exportações.
Por isso, o impacto direto da taxação de Trump deve ser limitado pela forte demanda global por commodities e pela capacidade de redirecionar esses produtos para outros mercados, de acordo com o economista.
Nas projeções da ARX, em um cenário no qual os EUA impõem uma tarifa de 40% e o governo brasileiro não retalia, o PIB cairia ligeiramente, com uma baixa inferior a 0,2%, e um modesto recuo nas exportações reais e nos investimentos.
- Leia também: Trump cortou as asinhas do Brasil? Os efeitos escondidos da tarifa de 50% chegam até as eleições de 2026
Lula promete retaliação. Quais os impactos para a economia brasileira?
Na noite passada, o presidente Lula afirmou que qualquer elevação unilateral das tarifas será respondida com medidas à luz da lei brasileira de reciprocidade econômica — ou seja, com retaliação.
No entanto, se o Brasil de fato retaliar com suas próprias tarifas, o impacto sobre o PIB seria mais significativo, com uma contração de cerca de 0,3%, segundo estimativas da ARX.
Além disso, essa retaliação acarretaria uma pressão inflacionária adicional, com aumento dos preços internos e volatilidade no câmbio.
“Isso poderia levar o Banco Central a aumentar a taxa básica de juros, a Selic, em até 0,3 ponto percentual”, disse Barros, em análise.
Para ele, embora a retaliação tarifária possa, em parte, compensar as perdas nas exportações líquidas — provavelmente por meio da depreciação da moeda —, ela ampliaria os efeitos negativos sobre o investimento e a inflação, tornando uma resposta de tarifa "olho por olho" potencialmente contraproducente.
Quais estratégias Lula poderia adotar para limitar os efeitos das tarifas dos EUA?
Na visão de Barros, a estratégia mais eficaz para o Brasil seria a implementação de novas medidas fiscais, parafiscais e de estímulo ao crédito para amortecer os impactos negativos de curto prazo, reservando a retaliação tarifária como uma carta na manga.
Ele acredita que a política econômica deve ser “seletiva e estratégica”, com ações de alívio tributário temporário para os setores afetados e ampliação do crédito público por meio de instituições como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ou Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).
O economista também cita a aceleração de programas de investimentos públicos e parcerias com o setor privado como estratégias para sustentar a atividade econômica local.
Além disso, Barros defende a necessidade de esforços diplomáticos e comerciais para diversificar os mercados de exportação. Isso ajudaria o Brasil a reduzir a dependência de parceiros específicos, como os EUA, e a redirecionar fluxos para outros países.
“O perfil de exportação do Brasil oferece uma valiosa proteção. Quando combinada com uma resposta coordenada de política econômica, o Brasil está bem posicionado para neutralizar os efeitos adversos e preservar a estabilidade econômica, mesmo em um cenário de crescente protecionismo comercial global”, concluiu Barros.
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