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As ações RADL3 registraram a maior queda do Ibovespa no primeiro semestre e já caem 34% no acumulado do ano; analistas explicam como o papel foi parar nessa situação
O filme Cisne Negro é um dos vários que contam a história de um personagem que sucumbe à própria busca pela perfeição, quando a protagonista Nina se vê fatalmente refém da perseguição pelo primor irretocável. Fora das telas, porém, o perfeito também cobra seu preço — embora tenha desfechos menos dramáticos.
Na bolsa, uma das empresas que sofre com isso é a RD Saúde, novo nome da Raia Drogasil (RADL3), que acumula queda de 34% em 2025 e ficou na liderança entre as maiores perdas no primeiro semestre.
“A Raia Drogasil é uma empresa ótima. Ela está precificada à perfeição. Quando aparece algo negativo sobre papéis nessas condições, geralmente, o movimento de correção é mais intenso”, conta João Mamede, gestor de portfólio de ações na AZ Quest Investimentos ao Seu Dinheiro.
E, no caso da rede de farmácias, foi uma série de “algos” que mexeram com os preços. Para entender ponto a ponto, o Seu Dinheiro também conversou com Marcos Duarte, analista-chefe da Descomplica Investimentos, e Marcos Piellusch, da FIA Business School.
O primeiro ponto negativo é o reajuste nos preços de medicamentos, que deve afetar os resultados do segundo trimestre da empresa, algo que o mercado já antecipa.
No Brasil, os valores desses produtos são regulados por lei, e quem define o reajuste anual dos preços é a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED). Neste ano, o órgão autorizou um aumento de 3,83%, percentual abaixo da inflação acumulada no período, medida pelo IPCA, que atingiu 5,06% até março.
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“Todo ano, há um movimento de estocagem. As empresas compram medicamentos para vender depois do reajuste, com preços atualizados. Então há um ganho de margem sazonal muito grande nesse período. O ponto é que, em 2025, esse efeito foi menor por causa do reajuste abaixo da inflação”, afirma Mamede.
Além disso, a base de comparação com o ano passado está forte. Em 2024, o reajuste foi de 4,50%, equivalente ao índice de inflação. “A gente deve ver, no segundo trimestre, uma pressão de margem bruta em função disso”, complementa Mamede.
Tem também o cenário competitivo da RD Saúde, que tem piorado — tanto em relação aos players que já estão no jogo, como aos que querem entrar.
Vamos começar pelo primeiro grupo. Segundo um relatório do BTG Pactual, a ameaça mais estrutural à Raia Drogasil está no segmento de higiene e cuidados pessoais (HPC), onde Amazon, Mercado Livre e outras plataformas de e-commerce estão avançando sem dó.
Estimativas do banco mostram que a categoria de HPC representa cerca de 6% das vendas totais do Mercado Livre, com crescimento em torno de dois dígitos médios nos últimos trimestres. E esses gigantes também estão colocando o pé nos medicamentos que não precisam de prescrição (OTC).
“Estimamos que cerca de um terço das vendas da RD Saúde se sobrepõem a categorias expostas a esses concorrentes, incluindo alguns produtos OTC. Embora as vendas de medicamentos (que representam 50% da receita) permaneçam resilientes, os segmentos de HPC e OTC estão sob pressão, afetando o crescimento da receita e a margem bruta”, dizem os analistas do banco em relatório.
Fora isso, de acordo com os analistas com quem conversamos, empresas como a Pague Menos (PGMN3) e Panvel (PNVL3) estão passando por uma reestruturação que tem gerado melhora nos resultados nos últimos trimestres e isso acirra ainda mais a corrida por participação no mercado.
O destaque é a Pague Menos, que teve um aumento de 7,4 pontos percentuais (p.p.) nas vendas mesmas lojas (SSS), principal indicador do varejo, no primeiro trimestre de 2025, comparado ao mesmo período do ano passado, alcançando 17% — com 12,5% de avanço real, que desconsidera o reajuste de preços da CMED.
A cifra equivale a quatro vezes a inflação no período e veio acima das projeções do BB Investimentos. Enquanto a RD Saúde reportou queda nessa linha do balanço, que saiu de 7,9% para 5,4% no primeiro trimestre de 2025, sendo 0,9% de ganho real e cerca de 110 pontos-base abaixo da inflação auferida no intervalo — o que desagradou os analistas.
Além disso, não dá para esquecer que o setor de farmácias no Brasil é altamente fragmentado. De acordo com informações da Associação Brasileira de Farmácias (Abrafarma), o país terminou 2024 com 93,7 mil drogarias, e as cinco maiores redes de farmácias juntas possuem apenas 32% de participação no mercado.
Na visão do BTG, o ambiente competitivo cada vez mais intenso torna mais arriscado o crescimento e a expansão de margem no futuro em comparação com o bom histórico da empresa.
No entanto, para os analistas com quem conversamos, mesmo que as vendas nas mesmas lojas estejam sob pressão pelos fatores mencionados, dois fatores colaboram para um certo respiro: a produtividade por loja, que ainda é bastante superior em relação aos concorrentes, e a presença nacional da Raia Drogasil — que dilui o risco de exposição a uma única região competitiva.
Já no caso dos players que querem entrar no segmento (o segundo grupo que mencionei acima), a preocupação é o projeto de lei que permite a criação de farmácias completas dentro dos supermercados, com o PL nº 2.158/2023, do senador Efraim Filho (União Brasil) em tramitação no Senado.
Isso gerou uma ansiedade entre os investidores nos últimos meses — e foi um dos fatores que favoreceram a desvalorização do papel ao longo dos primeiros meses do ano —, embora a preocupação já tenha se dissipado, em parte.
Para o BTG, caso o projeto seja aprovado, as redes de farmácia certamente enfrentarão uma concorrência mais acirrada. No entanto, existem ressalvas…
“A maioria dos supermercados já possui drogarias próximas, o que, para o consumidor, não muda muito. No entanto, para o mercado e as farmácias, isso representa um impacto negativo. Os supermercados terão que adicionar produtos mais regulamentados ao seu portfólio, gerando custos extras, mas sem aumentar a eficiência, que seria alcançada ao ceder espaço para uma drogaria”, afirma Duarte.
Nos cálculos do BTG, a obrigatoriedade de estabelecer farmácias completas faz com que essa incorporação só seja viável para as grandes redes, como Assaí (ASAI3) e Grupo Mateus (GMAT3).
Até porque o investimento (capex) estimado para a instalação é de pelo menos R$ 1,5 milhão por unidade de mercado.
Portanto, depois do alerta inicial que afetou as ações negativamente, a visão dos analistas é que a disrupção da proposta será limitada.
Na teleconferência de resultados do primeiro trimestre de 2025, a Raia Drogasil admitiu que o aumento dos roubos e furtos — especialmente de Ozempic — impactou negativamente a margem bruta da companhia no período.
Essa linha do balanço ficou em 26,6%, uma queda de 0,6 p.p em relação ao mesmo intervalo de 2024. Metade disso (0,3 p.p) foi em razão das perdas, com destaque para o aumento de roubos.
“Isso mexe muito com a companhia porque, no varejo, a prevenção de perdas é um ponto muito crítico, já que estamos falando de um negócio com margem baixa. Então, se tem furtos e roubos, principalmente de medicamentos caros como Ozempic, acaba aumentando o risco da ação e prejudica o negócio”, afirma Piellusch.
A queda na margem também foi atribuída ao aumento de promoções feitas no período.
Até agora, nós falamos de movimentos mais setoriais. Ou seja, teria de afetar as ações das drogarias como um todo na bolsa de valores. No entanto, o desempenho das concorrentes na bolsa de valores aponta para o contrário.
Tanto a Pague Menos quanto a Panvel estão subindo no acumulado de 2025, com valorizações de quase 19% e 6,5%, respectivamente. Assim, resta saber o que “tem de errado” justamente com a RD.
“A expectativa para os resultados é muito alta, como é o caso da WEG (WEGE3) também. Qualquer balanço que não venha em linha é uma catástrofe”, afirma Duarte. Cabe lembrar que a RD Saúde teve resultados considerados fracos e abaixo das expectativas no primeiro trimestre de 2025.
Duarte também diz que a gestão está justificando a queda de eficiência da empresa com fatores externos que poderiam ser evitados pela própria diretoria, como os roubos de medicamentos.
“Isso faz parecer que a empresa não está sabendo gerir o estoque dela e mitigar os riscos. Você não pode justificar a perda de eficiência com roubos ou promoções que você mesmo fez. Então o mercado está começando a precificar erros de gestão”, ressalta o analista.
Também tem a questão do e-commerce, vertente na qual a companhia tem apostado nos últimos trimestres. Para Duarte, não se sabe ao certo o que a empresa quer com isso. “Na dúvida, o mercado vende”.
Piellusch concorda: “apesar de o canal digital proporcionar uma possibilidade maior de evolução de crescimento, por enquanto esse crescimento não se refletiu nos resultados”.
Apesar do contexto, o Citi espera que os resultados do segundo trimestre sejam melhores do que o esperado — considerando que o efeito do reajuste dos preços já está incorporado ao preço dos papéis hoje —, com o pior ficando para trás e a empresa correndo atrás do “tempo perdido”.
Por isso, no começo do mês o banco elevou a recomendação das ações para neutra, com um preço-alvo de R$ 15 — uma alta potencial de cerca de quase 7%.
Já o BTG recomenda a compra, também a partir da hipótese de que a tempestade tenha se acalmado. Assim, a queda poderia representar oportunidade de compra, visão alinhada com o Santander.
Para os analistas com quem conversamos, a recomendação é: se você já tem as ações, não é hora de sair. Mas se ainda não tem, não é o melhor momento para entrar. Até porque, resta saber se, depois de a perfeição falhar com as ações, tem mais espaço para ser feliz no imperfeito.
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