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A decisão era amplamente esperada e acende o debate sobre a intensidade dos sinais que a economia deve dar para o BC ver espaço para cortes
A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) desta semana era amplamente esperada. Diante da sinalização de manutenção da taxa Selic em 15% ao ano por “tempo prolongado”, não havia expectativa de ajustes na decisão desta quarta-feira (17).
Os diretores do Banco Central foram unânimes em manter a taxa básica de juros em 15% ao ano pela segunda vez consecutiva. Com isso, a Selic permanece no nível mais alto desde julho de 2006.
Segundo o comitê — e a maior parte do mercado financeiro —, a política monetária está suficientemente contracionista para conduzir a inflação à meta de 3%. E os efeitos dessa restrição começam a aparecer.
Em agosto, o IPCA, índice de preços que é referência para a inflação do país, registrou a primeira retração em dois anos, de -0,11%. Além disso, dados de pesquisas mensais e a atividade econômica no segundo trimestre dão indícios de desaceleração em alguns setores.
Nada disso, entretanto, é visto como suficiente. Economistas afirmam que são apenas sinais iniciais, que precisam de mais volume e consistência para que o Copom tenha confiança em diminuir o nível da taxa Selic.
"O cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, resiliência na atividade econômica e pressões no mercado de trabalho", disse o comunicado do comitê. O texto também manteve o discurso de que o cenário exige juros altos "por período bastante prolongado".
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Mas o que chamou a atenção foi o tom duro do comunicado, chamado de hawkish no jargão financeiro. O comitê manteve a sinalização de que não hesitaria em aumentar a Selic novamente "caso julgue apropriado", um trecho que economistas acreditavam que seria descartado.
Rafael Cardoso, economista-chefe do Banco Daycoval, avalia que a mensagem do Copom foi bastante conservadora. Para ele, o comitê reconheceu pontualmente a melhora nos dados de atividade e praticamente não sinalizou melhora na inflação e isso indica um reforço da estratégia vigilante.
Flávio Serrano, economista-chefe do Banco Bmg, teve um entendimento parecido da mensagem do BC. "O tom do texto seguiu indicando poucas chances de cortes de juros no curto prazo. Nossa avaliação é que o início dos cortes deverá acontecer apenas no primeiro trimestre de 2026", diz.
Mais do que um dado ou outro aqui e acolá, os economistas afirmam que a desaceleração da atividade econômica precisa ser mais consistente e uniforme entre os diferentes setores. Em seu comunicado, o Copom afirma que o conjunto dos indicadores de atividade econômica apresenta, conforme esperado, certa moderação no crescimento, mas o mercado de trabalho ainda mostra dinamismo.
A taxa de desemprego fechou o trimestre finalizado em julho a uma taxa de 5,6%, registrando uma nova mínima na série histórica. O volume de emprego com carteira assinada também foi recorde, enquanto a massa salarial cresceu 2,5% no trimestre e 6,4% no ano — acima da inflação, de 5,13%.
Para a política monetária, esses dados são um alerta. “O aumento no nível de renda tende a estimular o consumo e pode funcionar como um limitador para o efeito da taxa Selic”, diz Sara Paixão, analista de macroeconomia da InvestSmart.
Há ainda a questão da inflação. Os economistas apontam a trajetória da inflação em direção à meta de 3% como determinante. Se a inflação mensal e a acumulada em 12 meses continuarem caindo, assim como as projeções futuras compiladas pelo Banco Central no relatório Focus, há espaço para corte. Entretanto, no comunicado, o Copom sequer reconhece a melhora dos dados recentes de inflação corrente e de expectativas futuras.
“O mais importante é que a projeção de inflação futura do BC esteja na meta. Não tem como cortar a Selic se o próprio modelo do Banco Central não atingiu 3% no seu horizonte”, diz Raphaela Spilberg, sócia na Vinland.
Quando isso vai acontecer? É a pergunta de um milhão de reais. A projeção de inflação do Copom para o primeiro trimestre de 2027, atual horizonte relevante do comitê, situa-se em 3,4%. Já o Focus mostra um horizonte até 2028, mas no último relatório a projeção do IPCA nessa data era de 3,70%.
Ainda assim, a maior parte do mercado espera um corte inicial na Selic no primeiro trimestre de 2026, entre janeiro e março. O Itaú vê riscos de um corte antecipado em dezembro, caso o IPCA continue surpreendendo e o PIB do terceiro trimestre venha fraco — mas o cenário-base é de um corte de 0,25 ponto percentual (p.p.) em janeiro de 2026.
Não foi no Brasil, mas teve corte de juros nesta Super Quarta. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed, banco central norte-americano) cortou sua taxa básica em 0,25 p.p., para uma faixa entre 4% e 4,25%.
A decisão era amplamente aguardada pelo mercado e veio junto de uma sinalização de mais dois cortes neste ano. As autoridades também indicaram outra redução em 2027.
A notícia é positiva para o BC do Brasil. Um afrouxamento monetário nos Estados Unidos significa uma possível melhora na taxa de câmbio, com valorização do real ante o dólar. Essa valorização é particularmente importante para a inflação, porque implica em menos pressão nos preços de importados, alimentos e combustíveis.
O real já acumulou cerca de 15% de valorização no ano, e esse é um dos motivos para a queda do IPCA e a melhora das expectativas futuras de inflação nos últimos meses.
“A maior parte dessa apreciação já foi repassada à inflação do IPCA, mas ainda vemos efeitos favoráveis até o fim de 2025”, diz relatório da XP.
Na prática, é um fator de alívio nos preços que os economistas veem perdurar por algum tempo. Entretanto, o Copom sequer mencionou a possibilidade baixista do câmbio em seu comunicado desta Super Quarta.
Não há uma relação direta entre a queda dos juros nos EUA e o corte da Selic. Como o próprio BC indicou, para os juros aqui caírem, a economia brasileira tem que dar mais sinais.
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