A Argentina vive seu momento “Plano Real”, e poucos parecem estar botando fé nisso, diz gestora
Segundo a gestora RPS Capital, a Argentina tem todos os elementos que colaboraram para o boom dos ativos brasileiros depois do Plano Real

Com a vitória contundente do partido de Javier Milei nas eleições legislativas no último domingo (26), o cenário mudou completamente para a Argentina. Segundo a gestora independente RPS Capital, o país vizinho parece estar prestes a viver seu momento “Plano Real”.
Em carta da gestão, a casa destaca que, com o sucesso nas urnas, o partido já garante os 86 assentos necessários no legislativo para evitar derrubada de vetos e impedir o avanço de um impeachment, faltando 19 cadeiras para alcançar maioria simples, de 129 votos.
“Embora o bloco Províncias Unidas (grupo de governadores de centro) não integre formalmente a base do governo, há incentivos políticos e fiscais evidentes para negociação, especialmente em torno de temas como coparticipação federal, desenvolvimento regional e participação nos investimentos de energia”, diz a carta.
Segundo a gestora, se Milei agir de forma pragmática, a possibilidade de construir uma maioria funcional em torno de reformas estruturais é grande.
A análise é que o país está em uma nova fase política, a da governabilidade possível — o que destrava a agenda de reformas que havia sido parcialmente paralisada no primeiro semestre de governo.
Assim, voltam ao centro das discussões a reforma trabalhista, a simplificação tributária, a redução do custo argentino, a desregulamentação produtiva e privatizações setoriais.
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“A política, que até ontem era vetor de risco, agora passa a ser um acelerador de preço para ativos argentinos”, ressalta a RPS Capital.
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O ‘momento Plano Real’ da Argentina
“O descolamento entre preço e fundamento abre espaço para uma das maiores oportunidades de reprecificação entre mercados globais. Acreditamos que a janela atual representa o início de um novo ciclo de geração de valor para os investidores posicionados em ativos argentinos, com paralelos claros com o melhor período histórico da bolsa brasileira”, ressalta a gestão.
Para a casa, o processo de estabilização macroeconômica em curso na Argentina guarda semelhanças relevantes com a experiência brasileira no início do Plano Real, em 1994.
Ambas as transições envolveram forte desinflação, desenvolvimento cambiário, abertura ao capital internacional e aumento da confiança institucional, criando um ambiente fértil para valorização expressiva dos ativos financeiros.
Durante os primeiros três anos do Plano Real, o índice Bovespa acumulou valorização superior a 500% em moeda local. A estabilização de preços, a âncora cambial e a entrada de fluxos estrangeiros fizeram da bolsa brasileira o principal veículo de captura desse novo ciclo.
“A Argentina apresenta diversos desses ingredientes: queda abrupta da inflação, superávit fiscal, regime cambial, fluxo de capital estrangeiro direcionado a investimentos produtivos e baixa base de comparação nos múltiplos de ativos”, dizem os gestores da RPS.
Os ventos geopolíticos são favoráveis à Argentina
Na visão da gestora, esse movimento é ainda mais relevante sobre uma base econômica já ajustada, uma vez que a Argentina entregou superávit primário de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2024 e segue acima de 1,5% em 2025.
Outro ponto destacado é que a relação entre dívida pública e PIB está abaixo de 40%, o que a gestão classifica como uma das mais baixas entre os países emergentes.
“Além disso, a base monetária foi contraída de maneira drástica, a inflação desacelerou de 25% ao mês no início do programa para patamar de dígito único na base trimestral, e o país acumula superávits comerciais mensais consecutivos. Ao contrário de ciclos anteriores, desta vez o ajuste veio antes do otimismo”, afirma a carta publicada.
A gestão também aponta para o fator geopolítico favorável. Com o apoio explícito dos EUA, sob a gestão de Donald Trump, os hermanos foram reconduzidos à posição de parceiro estratégico ocidental no Cone Sul.
“Estão em negociação linhas de financiamento multilaterais da ordem de US$ 20 bilhões, além de avanços diplomáticos em energia, logística e segurança. Executivos de bancos como JPMorgan e Citigroup estiveram nas últimas semanas em Buenos Aires estruturando linhas de crédito corporativo e financiamento de investimentos”, diz a casa.
Para a RPS Capital, pela primeira vez em décadas, a Argentina deixou de ser um tema de risco geopolítico e passou a ser vista como ativo estratégico — e ninguém parece estar notando isso.
A combinação de melhorias logísticas, avanço de infraestrutura e contratos de exportação já negociados deve transformar o país em exportador líquido de energia a partir de 2026. O impacto estimado é entre US$ 20 e 25 bilhões por ano em fluxo de dólares em dois a três anos, o que altera de forma permanente a dinâmica de balanço de pagamentos e reduz estruturalmente o risco cambial.
Mas ninguém parece estar botando fé nisso
De acordo com a gestora, os ativos argentinos ainda negociam como se tudo isso fosse inviável. O setor bancário opera abaixo de 1 vez a relação de preço sobre valor patrimonial (P/PV), considerando que no auge do ciclo Macri esse indicador chegou a 4 vezes em um contexto institucional menos reformista que o atual.
Eles também apontam para o risco-país, que segue acima de 600 pontos, compatível com economias em pré-default, apesar dos avanços fiscais e externos tangíveis.
O Merval, principal índice de ações da Bolsa de Buenos Aires, em dólares ainda carrega desconto superior a 70% versus pico histórico, um nível mais próximo de preço de liquidação do que de valuation estrutural.
A RPS é uma gestora independente com cerca de R$ 3 bilhões sob gestão. Ela trabalha com fundos multimercado e fundos de ações, com ênfase em estratégias de “retorno absoluto”.
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