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“Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”.
Talvez seja um pouco irônico começar um texto sobre nostalgia citando uma música que me foi ensinada pelo meu próprio pai — e que fala sobre conflitos geracionais…
A proposta de hoje: por que tem tanta coisa antiga bombando nas redes sociais de uns tempos para cá? Músicas, filmes, séries, roupas, ideias…
Claro que a natureza pendular da história explica, em partes, o que está acontecendo. Afinal, o passado sempre parece estar em alta, não importa a geração.
Mas me parece uma contradição: justo na era do Tiktok, quando meses separam o velho do novo e segundos são o bastante para ficarmos impacientes, por que as pessoas estão buscando alguma coisa logo nele…o antigo? E pior: uma versão requintada.
Minha hipótese passa por outra letra de um clássico: “talvez eu seja simplesmente como um sapato velho, mas ainda sirvo se você quiser… basta você me calçar e eu aqueço o frio dos seus pés”.
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Resumindo: o novo cansa demais, gostoso mesmo é nos acolher no conforto do que já conhecemos.
Há umas duas semanas, eu ouvi da minha irmã de 18 anos que logo eu estaria “velha”, afinal depois dos 25 anos é só ladeira abaixo. Eu tenho 23.
Na mesma semana, ela me falou que iria começar a ver uma série que está bombando no TikTok: Sex and The City, que de fato é um hit… de 1998.
A série tem bombado: picos de buscas no Google e TikTok mostram isso — com áudios e mais áudios da icônica Carrie Bradshaw chorando as pitangas pelo Mr. Big.
Tanto é que, antes mesmo da produção entrar para o catálogo da Netflix, Selena Gomez saiu do hiato musical para lançar uma canção lotada de referências à série. Olivia Rodrigo, outra queridinha dos jovens, fez um show com o nome da protagonista em uma camiseta.
Eu mesma já assisti a série pelo menos três vezes nos últimos 12 meses (enquanto a lista de novas coisas só cresce rs).
O interesse está se renovando, a última vez que as pesquisas foram tão altas, eu tinha quatro anos de idade.

Na música, essa nostalgia anda até mais forte. E isso — como mostra uma reportagem do New York Times — pode estar destruindo nosso ecossistema musical hoje.
Basicamente: o que está acontecendo é que companhias de investimentos estão comprando a rodo os direitos musicais de artistas consolidados e lucrando com a ressurreição dos hits nas redes sociais.
Empresas como Primary Wave, Carlyle e Blackstone estão por trás desses grandes negócios. Os investidores gastaram US$ 12 bilhões em direitos musicais apenas em 2021 comprando sucessos da década de 2010 de Shakira, Justin Bieber, Justin Timberlake e Katy Perry.
Isso significa que a estratégia de trazer o passado dos mortos à moda faz parte de uma indústria bilionária. Ou seja, dá certo.
O que foi a turnê multimilionária da Taylor Swift, a The Eras Tour, além de um limbo dos hits esquecidos em 2010?
No Brasil não é diferente. O grande sucesso do carnaval de 2023 é uma amostra: a letra de “lovezinho” nada mais é do que uma releitura do clássico Say it Right, da Nelly Furtado, de 2006.
Os Tribalistas que o digam. A música “Já sei namorar”, que neste ano completa duas décadas, ganhou uma versão ‘proibidona’ que está bombando no TikTok, o nome é “Não vou namorar”. Ouça por sua conta em risco.
Esses são só alguns exemplos, o que mais tem na internet hoje em dia é hit dos anos 2000 voltando em alguma releitura em português.
Quanto à moda: nunca achei que meus piores pesadelos de criança sairiam rastejando do armário.
Sapatilhas (pelo amor de Deus), calças de cós baixo, vestidos justos demais, blusas e vestidos ‘tomara que caia’, gloss e todo pacote que qualquer mulher precisa para sair de casa no filme O Diabo Veste Prada.
Tudo de volta — até a câmera cybershot e o fumar em público.
Nem ideias foram poupadas… quem diria que voltaria ser cool tentar convencer mulheres de que a melhor coisa que elas poderiam fazer na vida é depender financeiramente do marido?
Pois é, só dar uma voltinha por lá e você vai achar muuuitos vídeos de mulheres falando o quão felizes estão depois de deixaram de trabalhar para fazer sorvete artesanal para a família.
Existem algumas explicações para esse fenômeno, mas acredito que haja uma linha principal.
Em um mundo no qual ficar duas horas longe das redes sociais pode te fazer ficar de fora dos assuntos, com cada vez mais e mais conteúdo a ser consumido — pelo amor de Deus, são mais de 400 horas de vídeo publicados por minuto no YouTube todos os dias — nós nos sentimos cada vez mais deslocados…
Assim, o mundo fica cada vez mais difícil de entender. Talvez seja mais simples e confortável voltar alguns passos e procurar alento.
“Em geral, quando você se lembra de algum fato, as áreas cerebrais que se ativam são relacionadas às mesmas que se ativaram quando você viveu aquela experiência, que pode incluir o visual, o auditivo, o olfativo, o prazer ou o desprazer que aquela situação te deu”, explica a neurologista Sonia Maria Dozzia Brucki para o Uol.
Lembrando da nossa tendência de olhar sempre para o passado amigavelmente, facilmente podemos associar determinada música, série, filme ou estilo de vida a “tempos mais fáceis”, como costumam dizer no X.
Ou seja, aquilo te transporta, mesmo inconscientemente, para outros tempos — e pode ser por isso que nós estamos revivendo os anos 2000, assim como as gerações anteriores resgataram suas memórias das décadas passadas, mesmo sem o auxílio das redes sociais.
Aliás, dá para ver que as minhas lembranças são de uma tradicional Gen Z, mas e quando a você: o que desperta suas memórias mais felizes?
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Até mais e bom domingo.
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