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Além de Tércio Borlenghi Junior ter elevado sua fatia na empresa para cerca de 73%, uma gestora supostamente ligada a Nelson Tanure também adquiriu participação na companhia
Os acionistas da Ambipar foram do inferno ao céu — e de volta ao inferno, e ao céu — nas últimas semanas. Entre picos e vales intensos, as ações AMBP3 mais do que dobraram de valor em um mês, com alta acumulada de 165%. Só no último pregão, os papéis avançaram 6,76%, cotados a R$ 22,89.

O movimento foi intensificado na semana passada em meio a notícias de que o sócio fundador e CEO da companhia, Tércio Borlenghi Junior, abocanhou mais um pedaço da empresa, elevando sua fatia para 73,135% de seu capital social.
Já na noite da última sexta-feira (12), após o fechamento dos mercados, a empresa anunciou que os fundos da Trustee DTVM — que supostamente têm o empresário Nelson Tanure como cotista — atingiram uma participação de 6,60% na empresa.
Segundo carta enviada pela gestora de fundos, a aquisição da participação resultou em um “estudo estratégico visando apurar a possibilidade de eventual intenção na participação do conselho de administração da companhia”.
Na avaliação de Bruce Barbosa, sócio-fundador e analista de ações da Nord Research, o movimento recente de alta foi “artificial”.
“Foi um short squeeze violento, puxado pelas compras do controlador e pela recompra de ações da empresa”, afirmou Barbosa ao Seu Dinheiro. “Assim que ele [Tércio] parar de comprar, as ações vão despencar porque vai ficar sem comprador. Essa alta foi absolutamente artificial.”
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Basicamente, o movimento de short squeeze acontece quando investidores com posições vendidas (short) desfazem suas apostas na queda do papel e recompram a ação para cobrir a posição — consequentemente elevando ainda mais os preços do ativo.
De acordo com dados da Bloomberg, cerca de 13,75% das ações AMBP3 em circulação no mercado (free float) estavam alugadas. Mas, segundo reportagem publicada pelo Brazil Journal, antes da cobertura de shorts na semana passada, o percentual alugado chegava a 35%.
Uma série de fatores levou ao grande nível de posições vendidas na Ambipar ao longo dos últimos meses, segundo uma gestora com posição comprada na empresa, com destaque para a falta de comunicação com o mercado por parte da diretoria da empresa, que resultou numa avaliação prejudicada dos investidores sobre o negócio da Ambipar.
“Você tinha um monte de papel com short gigante e um monte de fofoquinha no mercado. Como a Ambipar era uma empresa que se comunicava mal com o mercado, era mais fácil fazer essa especulação contra a ação, então os shorts estavam surfando”, disse.
A decisão do CEO de elevar a fatia na Ambipar gerou reações díspares no mercado. Afinal, Borlenghi Junior já havia aumentado a posição na companhia recentemente, após abocanhar todo o lote inicial do follow-on realizado no ano passado.
Para outro gestor, a recente aquisição de ações por parte do sócio fundador da Ambipar integra a lista de uma série de medidas tomadas em busca de um alívio na pressão sobre os papéis AMBP3.
“O Tércio tem uma personalidade muito forte, então tem coragem para fazer alguns movimentos não muito ortodoxos. Por exemplo, quando ele viu que a ação da Ambipar estava muito shorteada, ele pode ter aproveitado o momento para provocar o mercado a fechar a posição vendida”, afirmou.
Na visão de Bruce Barbosa, da Nord Research, a decisão do executivo de comprar ações AMBP3 no mercado “não fez sentido”.
“Se o controlador quisesse comprar participação na empresa, ele deveria ter feito uma oferta quando a ação era negociada a R$ 8, que conseguiria comprar todas as ações que quisesse pagando muito mais barato. Ou faria mais sentido ainda se a empresa fizesse um follow-on e o controlador comprasse essas ações, porque a Ambipar ficaria com caixa e poderia reduzir a dívida, que é justamente o problema dela. Essa compra a mercado que ele fez não teve nenhum sentido.”
Por outro lado, uma gestora de fundos que possui posição comprada na Ambipar avalia que o movimento de construção de posição acionária de Tércio Borlenghi Junior é um sinal positivo sobre o futuro da empresa.
“Em termos de gestão, eu preferia que nada disso estivesse acontecendo. Mas do lado positivo, isso mostra que o Tércio acha que as ações estão baratas, que confia na empresa e que está disposto a colocar dinheiro novo lá”, afirmou.
O movimento do CEO levantou dúvidas sobre a possibilidade de um eventual fechamento de capital da Ambipar.
Mas na avaliação de gestores e analistas consultados pelo Seu Dinheiro, é quase consenso que a chance de uma oferta pública de aquisição (OPA) é pequena.
Isso porque, com a valorização das ações AMBP3, Borlenghi precisaria desembolsar mais dinheiro para abocanhar as ações dos minoritários da companhia, já que o papel deixou as mínimas na bolsa após as notícias recentes sobre o próprio Tércio.
“Pode ser que ele feche o capital? Pode, mas faria muito mais sentido se fizesse isso quando as ações estavam a R$ 8, e não agora, com o papel na casa dos R$ 20”, disse o analista da Nord Research
Para o sócio da Nord, não há fundamentos que sustentem a valorização expressiva dos papéis no último mês.
Isso porque os juros ainda elevados no Brasil continuam a fazer pressão sobre os números da Ambipar — que encontra-se no meio de um processo de desalavancagem após desembolsar grandes boladas de dinheiro em uma série de aquisições realizadas ao longo dos últimos dois anos.
A companhia registrou uma alavancagem de 3,10 vezes a relação dívida líquida sobre Ebitda no primeiro trimestre de 2024, com um endividamento na casa dos R$ 4,64 bilhões. Já a receita líquida foi de R$ 1,2 bilhão em igual período.
“Não faz nenhum sentido. A empresa continua endividada e com problemas. Só porque o preço da ação subiu, isso não significa que algo mudou. Ela continua dando prejuízo porque a dívida está muito alta.”
Questionada sobre as perspectivas sobre o preço das ações AMBP3 e a quantidade de investidores shorteados no papel, a gestora afirmou que “estaria com muito medo”.
Nas contas dela, a empresa pode chegar a ser negociada a patamares próximos de R$ 40 na bolsa, um potencial de valorização de cerca de 74% frente ao último fechamento.
Além disso, a gestora afirma que a potencial entrada de um acionista como Nelson Tanure pode “resolver o que tinha de errado” com a companhia.
“O grande problema histórico da empresa é a comunicação com o mercado. O Tanure pode não ter o Toque de Midas, mas é só ver a transformação que ele fez na PetroRio. Ele não seria o sócio dos sonhos, mas é um cara que conseguiria endereçar muito bem exatamente no que a Ambipar é pior”, disse.
Procurada pelo Seu Dinheiro, a Ambipar não retornou o contato até o momento de publicação desta matéria. Caso a empresa se pronuncie, a reportagem será atualizada para incluir o posicionamento.
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