Evento em NY visa a atrair investidores estrangeiros para negócios verdes no Brasil; veja o potencial das principais oportunidades no país
Brazil Climate Summit ocorre nesta quarta (18) e visa a "vender" o país como hub de soluções climáticas para o mundo

O Brasil vem sendo impactado por eventos climáticos extremos, sendo os mais recentes a forte seca e uma série de queimadas que têm assolado a Amazônia, o Pantanal e o estado de São Paulo.
O desmatamento, aliás, é o grande ponto fraco do país aos olhos dos estrangeiros em busca de destinos para seus investimentos verdes, com foco nas mudanças climáticas, principalmente na transição energética – substituição de combustíveis fósseis por fontes de energia limpa.
Mas o Brasil também tem uma série de pontos fortes no que diz respeito justamente à geração de energia, com quase metade da matriz energética proveniente de fontes renováveis e 90% da matriz elétrica originária de fontes limpas, percentuais muito maiores que a média global.
Com essas características e um dos custos mais baixos do mundo para gerar energia limpa, o Brasil poderia se tornar um grande atrator de investimentos estrangeiros verdes, e foi com o objetivo de “vender” as oportunidades do país lá fora que nasceu o evento Brazil Climate Summit (BCS), que ocorre nesta quarta-feira (18), em Nova York.
“O objetivo do evento é falar das oportunidades e não dos problemas. Investimentos no clima como oportunidade de desenvolvimento, geração de empregos e negócios, e com um foco maior no setor privado”, explica Jorge Hargrave, organizador do evento e diretor da Maraé Investimentos, family office de Guilherme Leal, um dos fundadores da Natura.
Para a edição deste ano – realizada no The Forum, da Universidade de Columbia, e com transmissão online – são esperadas mais de 600 pessoas, com uma plateia composta por investidores estrangeiros (entre grandes bancos, gestoras e fundos de pensão), executivos de empresas, representantes de governos e da academia, além de instituições multilaterais e Organizações Não Governamentais (ONGs).
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“Cerca de 300 pessoas devem estar baseadas nos Estados Unidos e outros países. Acho que agora o evento está cumprindo sua função de travar um diálogo entre o Brasil e o resto do mundo, de como o Brasil pode ser um hub de soluções climáticas e contribuir para a transição energética enquanto cria oportunidades de desenvolvimento e empregos”, diz Hargrave.

As oportunidades que o Brazil Climate Summit quer “vender” para o gringo
Em entrevista ao Seu Dinheiro, Jorge Hargrave enumerou algumas das oportunidades existentes hoje na economia verde, com foco na transição climática e na zeragem das emissões de carbono, que podem atrair os investidores estrangeiros e que o evento deseja divulgar lá fora.
“O Brasil é um dos países com um dos melhores custos por quilowatt-hora em energias eólica e solar e um dos maiores potenciais de expansão, mesmo com toda a capacidade já instalada. Se para nós a questão do desmatamento é muito relevante, para o resto do mundo é a substituição de combustíveis fósseis”, diz.
Para Hargrave, o investimento verde e a transição energética deixarão de ser discussão de nicho, pois eventualmente todas as empresas do mundo terão que se tornar “net zero”, isto é, fazer sua transição energética e zerar suas emissões líquidas de carbono.
E de acordo com levantamento feito pelo Boston Consulting Group (BCG), os investimentos alinhados ao clima no Brasil podem somar de dois a três trilhões de dólares até 2050, o que seria capaz de praticamente dobrar o nível de investimento privado anual no país, de US$ 259 bilhões para US$ 480 bilhões.
Entre os segmentos de produção de energias renováveis que podem atrair investimentos estrangeiros, o diretor da Maraé enumera a produção de hidrogênio verde e de biocombustíveis, desde o etanol, incluindo o de segunda geração (feito a partir do bagaço da cana), até o combustível sustentável de aviação (SAF).
Das fontes renováveis de energia, o hidrogênio verde ainda é a menos viável comercialmente, mas o Brasil é, segundo Hargrave, um dos principais atratores de investimento nesta área no mundo, uma vez que o custo das energias renováveis no Brasil é um dos menores do mundo.
Quanto aos biocombustíveis, há “enorme potencial de expansão”, porém a disponibilidade de matéria-prima é um gargalo. “Mas com a nossa capacidade de geração de biomassa, a gente se destaca”, diz Hargrave.
Outra agenda importante, tanto para o Brasil quanto para os investidores estrangeiros, é a restauração florestal para sequestro de carbono da atmosfera. Para zerar suas emissões, as empresas recorrem ao reflorestamento, a fim de compensar seu impacto na atmosfera.
Segundo Hargrave, a restauração de florestas tropicais é uma das que têm menor custo por tonelada sequestrada de CO2, além de um dos maiores potenciais de escala, e o Brasil se destaca neste sentido.
De acordo com os dados do BCG, o custo dos projetos de reflorestamento no país é de US$ 67 por tonelada de CO2 sequestrada, enquanto a média mundial é de US$ 80.
“O Brasil tem mais de 100 milhões de hectares de pastagens degradadas para recuperar florestas”, diz o organizador do Brazil Climate Summit.
Interesse do investidor estrangeiro pelo Brasil ainda está abaixo do que deveria
O interesse dos investidores estrangeiros pela agenda climática no Brasil, porém, ainda está aquém do que deveria, acredita Jorge Hargrave. Primeiro porque muitos dos fundos globais realmente só podem investir em países com grau de investimento, o que não é o caso do Brasil. Segundo, pela imagem negativa lá fora relacionada ao desmatamento.
Outro motivo, na opinião do diretor da Maraé, é que o Brasil não tem sido muito competente em se promover como um hub de soluções climáticas para o mundo.
“O governo ainda está muito focado em resolver os problemas ambientais internos a não é tão ativo na promoção do Brasil lá fora nesse sentido. E o setor privado tem dificuldade de se organizar como tal. É justamente essa lacuna que a gente tenta preencher: ser uma plataforma para os negócios brasileiros se promoverem e terem contato com investidores no exterior”, diz, referindo-se ao Brazil Climate Summit.
O custo-Brasil é outro fator que não pode ser deixado de lado. Embora não haja dados específicos da economia verde, segundo dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), quem produz no Brasil gasta R$ 1,7 trilhão por ano a mais que a média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o que equivale a 20% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.
“Um exemplo é a própria produção do hidrogênio verde. A gente poderia por exemplo criar uma planta de hidrogênio plugada no grid [rede de energia]. Mas na hora em que você joga os encargos do grid de energia brasileiro, o impacto no custo de produção do hidrogênio é enorme”, diz Hargrave.
Por outro lado, ele crê que o ambiente regulatório está melhorando para investimentos focados na transição energética, com marcos mais estáveis em relação a outros países emergentes e projetos de lei encaminhados no Congresso.
“Minha percepção é de que estamos melhores que há alguns anos, mas não estamos andando na velocidade que precisaríamos”, diz Hargrave.
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